Opinião

Os territórios digitais: o decálogo da smartificação

Em que consiste e o que está em jogo quando se fala de territórios digitais e digitalização territorial?

Das redes físicas do modelo urbano e industrial até às redes inteligentes do modelo tecnológico e digital, um longo caminho a percorrer e onde, por razões que todos entendemos, será necessário distinguir entre os territórios “espertos, inteligentes e criativos”. Acresce que os territórios digitais são uma espécie de novo emblema das políticas do território. Vale a pena, por isso, fazer um esforço analítico no sentido de perceber melhor em que consiste e o que está em jogo quando se fala de territórios digitais e digitalização territorial. O decálogo da smartificação procura responder a esse esforço analítico.

  1. Do negócio digital, em primeira instância.

É aqui que tudo começa, antes de ter inteligência coletiva o território será atomizado pelo negócio digital; é tudo uma questão de mais ou menos sensor, chip, câmara, drone, robot ou sistema automático; o território ficará seguramente mais esperto, mas, também, mais atomizado.

  1. Do capital humano, em segundo instância.

Depois da atomização digital proporcionada pelo negócio digital, é preciso acabar rapidamente com a iliteracia digital e acelerar a formação técnica e avançada nas áreas dos sistemas inteligentes e digitais; é uma verdadeira revolução nos sistemas de ensino e formação e o território passa a um segundo nível de inteligência.

  1. Do risco moral, em terceira instância.

A transformação digital tem como consequência a emergência do chamado “risco moral”; a intensidade-rede digital produz uma interdependência máxima que nos pode colocar em rota de colisão com inúmeros danos colaterais e efeitos indesejáveis, já para não referir o dano eventual proveniente do colapso dos sistemas automáticos.

  1. Da definição e cobertura do risco, em quarto lugar.

Cada um de nós terá uma pegada digital, donde uma maior personalização do risco e da sua cobertura; neste contexto, é fundamental que quem define a “ideologia do risco” não crie um sistema de vigilância verdadeiramente maquiavélico e condicione os nossos limites de liberdade, a tal ponto que coloque em causa os objetivos iniciais para os territórios inteligentes e criativos.

  1. Os Tiers-Lieux, os novos espaços de liberdade, em quinto lugar.

Os territórios digitais necessitam de novos espaços de liberdade onde exercitar a inteligência e a imaginação e a partilha de conhecimentos a um custo marginal próximo de zero; estes espaços colaborativos apresentam estruturas muito variáveis, permitem os primeiros passos aos futuros empreendedores e são, também, um laboratório experimental onde começam a tomar corpo novos formatos de inteligência coletiva territorial , desde a smart village até à smart city; toma forma a inteligência coletiva territorial, emerge o talento criativo dos nativos digitais.

  1. Uma nova oferta de utilities públicas e municipais, em sexto lugar.

Um território inteligente necessita de três tipos de rede: as “redes centralizadas” criam as autoestradas da informação, as “redes descentralizadas” os itinerários principais e as “redes distribuídas” a grande rede capilar; se as redes descentralizadas põem ordem nas utilities e principais serviços de rede do território, as redes distribuídas “lançam o caos” no território e abrem o caminho para a criatividade territorial.

  1. Dos empregos monótonos para as colaborações polivalentes, em sétimo lugar.

Os serviços de rede digitais  são as grandes artérias para a digitalização de um território criativo, isto é, para o desenvolvimento de uma rede capilar de malha fina que emergirá ao redor de redes sociais, plataformas digitais e estruturas inteligentes de acolhimento como comunidade online e que se transformará em comunidade real a partir de novos espaços colaborativos sob múltiplos formatos empresariais e sociais onde a polivalência e a multifuncionalidade do trabalho serão os atributos fundamentais.

  1. Inclusão, exclusão e responsabilidade social, em oitavo lugar.

Entre a inclusão e a exclusão digitais há uma nova responsabilidade social que é necessário pôr em prática, pois a estrutura do mercado de trabalho será profundamente alterada; isto quer dizer que a “velha ordem previdencial” terá de ser revista em profundidade e, bem assim, a provisão de prestações sociais da segurança social; o mesmo se diga dos direitos associados ao mundo do trabalho com o surgimento de várias modalidades de economia e relações colaborativas interpares.

  1. Um ator-rede para uma inteligência coletiva territorial, em nono lugar.

A digitalização de um território precisa de um centro dotado de um mínimo de racionalidade global que evite a cacofonia e o ruído de fundo; o ator-rede é uma estrutura de autogoverno dotada com um mínimo de atribuições, competências e meios, que sabe articular os poderes setoriais com as expetativas das populações expressas através de recursos digitais e suscitar os efeitos de aglomeração e escala que o território mais necessita; o ator-rede cria uma espécie de “ordem local”.

  1. Um território-desejado para uma inteligência criativa, por fim.

Se um território não tem uma identidade própria e consciência de si, isto é, se se limitar a sobreviver como mera unidade estatístico-administrativa, nunca será verdadeiramente um território inteligente e criativo; com uma baixa intensidade-rede e uma sociabilidade fraca, uma sucessão de eventos não chega para forjar um território-desejado; neste caso, o ator-rede estará reduzido a um mero chefe de cerimónias.

Nota Final

Ficam ainda por resolver questões fundamentais como a cobertura digital dos territórios, os sistemas de incentivos digitais, a privacidade dos nossos dados, a cibersegurança, a mutualização do risco e a regulação digital. Ficam, porém, para outra oportunidade.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico