“As pessoas não querem trabalhar, as empresas não conseguem contratar”

Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, considera que a economia portuguesa está a ter um desempenho “fraquinho”. “Poderíamos crescer acima de 4%, se quiséssemos.”

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Enric Vives-Rubio / Arquivo

O líder do Fórum para a Competitividade, Pedro Ferraz da Costa, diz que o crescimento de 2,7% do PIB em 2017 não o surpreendeu. Por um lado, sublinha que a entidade a que preside já previa um número dessa ordem de grandeza no início de 2017. O que o leva mesmo a afirmar que a economia portuguesa teve uma “performance fraquinha”. “Poderíamos crescer acima de 4%, se quiséssemos”, anota. Por outro lado, aponta para outro problema, no emprego: “Há falta de mão-de-obra em muitos sectores há bastante tempo. Qualquer empresa que queira contratar pessoas não consegue”. Porquê? “Porque não querem trabalhar...”

Numa entrevista ao jornal i, o empresário que liderou a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) entre 1981 e 2001, é contundente na análise da evolução económica. Como, aliás, é seu timbre. Escolhido, em 2016, pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, para preparar uma “estratégia para o crescimento”, Ferraz da Costa afirma nessa entrevista que os níveis de crescimento actuais ficam aquém do desejado – e do possível –, responsabilizando o Governo.

“Os sinais externos são quase todos positivos, daí considerar a nossa performance fraquinha face às previsibilidades”, argumenta, criticando a ausência de uma política que dê prioridade ao crescimento económico, que não existe “porque os objectivos governamentais não são esses”. “Portugal nunca teve o crescimento económico como o seu principal objectivo”, prossegue, o que tem reflexo também na força de trabalho.

“Uma economia que não cresce não cria lugares de chefia e não dá hipóteses aos mais jovens, que acabam por ficar à espera que os mais velhos morram. (...) As empresas são quase lares de terceira idade“, sentencia, concluindo que “é necessário que haja muitas empresas a crescer acima de 5%”. E embora a taxa de desemprego se situe nos 8,1%, segundo dados oficiais referentes a 2017, “há falta de mão-de- obra”. “Não temos pessoas para trabalhar em engenharia informática. A Altran queria abrir um centro de engenharia no Porto e tem estado a adiar o projecto porque não encontra o número de pessoas necessárias. Simplesmente, não há.”

Licenciado em Finanças, Ferraz da Costa culpa um “ensino péssimo em termos de preparação para o futuro”, algo que decorre da “falta de estratégia e também porque ninguém quer chatear ninguém”.

Há 18 meses, numa entrevista ao PÚBLICO, considerava que o “Governo não inspira confiança nenhuma a uma grande parte dos investidores”. Ano e meio depois, questiona na entrevista publicada nesta sexta-feira: “Não se deveria ter crescido mais?”

O empresário destaca que “o PIB está aos níveis de 2007 e já se passaram dez anos (...). Neste momento não há razão nenhuma para não termos recuperado”. Recuando ainda mais, a 2005, Ferraz da Costa vaticinava na altura que se o país continuasse a viver como então, em dez anos estaria “falido”. Actualmente, olha para Portugal e diz que um cenário desses “depende do que vai acontecer externamente”. “Estamos muito dependentes do que vai acontecer na Alemanha ou Itália. Nos EUA, apesar do folclore em torno de Donald Trump, a economia está óptima.”