Associações estão mais atentas à segurança dos edifícios

Autarquia de Tondela está a criar equipa externa para ajudar associações recreativas a cumprirem leis sobre segurança nos edifícios. Um mês depois da tragédia na Associação de Vila Nova da Rainha, ainda há feridos hospitalizados e colectividade continua encerrada.

O incêndio aconteceu na noite de 13 de Janeiro
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O incêndio aconteceu na noite de 13 de Janeiro Sérgio Azenha

A porta tapada com tijolos e duas faixas de pano negras colocadas numa janela e numa das entradas da Associação de Vila Nova da Rainha, em Tondela, são as únicas coisas que mudaram no edifício que faz nesta terça-feira um mês ardeu e matou 11 pessoas. O preto do fumo ainda se mantém nas paredes e não há acesso ao interior enquanto estiverem a decorrer as investigações.

Os tijolos tapam o buraco que foi deixado pela porta que não abriu na noite de 13 de Janeiro. Nessa altura, a cobertura do salão onde cerca de 70 pessoas participavam num torneio de sueca entrou em combustão. Oito pessoas morreram logo. Outras três faleceram nas últimas semanas.

Os feridos já começaram a regressar a casa. Dos 38, sete ainda se encontram hospitalizados.

O incêndio nesta associação colocou na ordem do dia a segurança e fiscalização dos edifícios onde muitas destas associações, feitas por voluntários, exercem a sua actividade.

Um mês depois da tragédia, José António Jesus, presidente da Câmara Municipal de Tondela, explica que a autarquia está a recrutar uma equipa externa para dar apoio a todas as associações do concelho que queiram cumprir a legislação em matéria de segurança. E assume que as colectividades “passaram a estar mais sensibilizadas para as questões de segurança nos seus edifícios”.

“Também a Autoridade Nacional de Protecção Civil passará a ter uma acção de outra dimensão neste campo, depois de o Conselho de Ministros ter aprovado uma resolução que determina que se realize uma campanha de divulgação e informação sobre o regime jurídico da segurança contra incêndios em edifícios”, recorda o autarca.

A própria Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto entende que toda esta sensibilização deve ser nacional.

“Todos fomos vítimas”

Na aldeia, a população gostava de ver a associação de novo com as portas abertas, mas “o importante é ter toda a gente em casa livre de perigo e completamente recuperada”, diz Jorge Dias, presidente da instituição.

“Para já, não será nossa ideia deixar morrer a associação, mas tudo dependerá das investigações”, desabafa. Jorge Dias admite que este é um espaço que faz falta às pessoas no seu dia-a-dia, lembrando que já tinha alguns anos de actividade.

José Manuel, 49 anos, é um dos feridos de Vila Nova da Rainha que retomou a sua vida apesar dos tratamentos a que está sujeito. Esteve vários dias internado no Hospital de Viseu por causa das queimaduras e outros ferimentos que sofreu, nomeadamente um corte na perna. Já regressou ao trabalho, tentando refazer a vida mas da cabeça não lhe sai a noite de 13 de Janeiro. “Tenho tudo cá marcado”, conta.

Os últimos meses não “têm sido nada fáceis”, segundo José Manuel que, em Outubro, viu também desaparecer com os fogos do dia 15 de Outubro a Associação de Gândara, da qual faz parte enquanto elemento da direcção. Questionado se pensa regressar a Vila Nova da Rainha e após uma longa pausa, apenas admite que “ainda é cedo”.

“As pessoas perderam o seu ponto de encontro”, sublinha, por seu lado, Ventura Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova da Rainha. As aulas de ginástica que ali aconteciam duas vezes por semana, por exemplo, estão paradas até que o presidente arranje uma solução.

Ventura Gonçalves acredita que a associação vai-se reerguer, assim como todos os que sentiram a tragédia. “São os próprios que querem. Já falei com alguns dos feridos e eles disseram que estavam lá porque gostavam de lá ir e querem continuar”, sustenta. “Todos fomos, um pouco, vítimas, embora uns mais afectados do que outros."

A tragédia de Vila Nova da Rainha aconteceu quando o tecto falso revestido de material altamente combustível (poliuretano expandido) desabou em cima das pessoas que na noite daquele sábado estavam a jogar às cartas. O incêndio foi provocado pelo sobreaquecimento de um tubo de exaustão de uma salamandra instalada no salão. A propagação, relataram testemunhas, foi tão rápida quem em breves segundos toda a mancha do tecto entrou em colapso e com material a arder. Em pânico, as pessoas precipitaram-se para as escadas que davam acesso aos rés-do-chão e uma porta de saída que não abriu.

A investigação ainda está a decorrer, de acordo com a Procuradoria-Geral da República, sem arguidos constituídos. Mas a seguradora já liquidou junto da associação os valores referentes ao edifício e recheio, no valor de aproximadamente 34 mil euros.

Quanto às vítimas, e depois de ter identificado todos os lesados com direito a indemnização, a Liberty Seguros anunciou que os depósitos “irão entrar até ao final desta semana”.