Nigéria contra Jamaica, o esquiador do Tonga e a queniana que vive na Áustria

Os Jogos Olímpicos de Inverno voltam a ter na Coreia a sua dose de competidores inesperados a representar países com pouca tradição nestes desportos.

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Sabrina Simader, a esquiadora do Quénia que vive na Áustria REUTERS/Arnd Wiegmann
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Pita Taufatofua, o tongolês que foi do taekwondo ao esqui em dois anos Reuters
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As pioneiras nigerianas do bobsled olímpico Reuters/AFOLABI SOTUNDE

“Manter viva a tradição dos esquiadores exóticos nos Jogos Olímpicos.” Era este o nobre propósito de Hubertus de Hohenlohe-Langeburg, o príncipe alemão que, entre 1984 e 2014, andou pelos Jogos de Inverno a esquiar vestido de mariachi em representação do país onde nasceu, o México. Infelizmente, Hubertus, que nunca ganhou uma medalha olímpica, não vai estar em Pyeongchang 2018, mas tem muita gente a manter viva a chama dos participantes exóticos nos Jogos de Inverno, de Timor-Leste ao Quénia, da Eritreia a Porto Rico, do habitual bobsled jamaicano ao primeiro esquiador de fundo da história do Tonga que só viu neve há dois anos pela primeira vez.

Não serão histórias de medalhas, mas de pioneiros que farão de Pyeongchang 2018 os Jogos de Inverno mais diversos de sempre em termos de países participantes, 92, mais quatro que em Sochi 2014 – ainda assim, menos de metade dos países participantes (207) nos Jogos de Verão do Rio de Janeiro em 2016. Muitos destes atletas têm histórias parecidas: são emigrantes (ou descendentes de emigrantes) que foram viver para países que têm tradição em desportos de Inverno, são aqueles que sonhavam com neve num país tropical, que fundaram sozinhos um federação de desportos de inverno e que andaram a fazer recolhas de fundos para financiar o seu sonho, que é o mesmo dos outros, mas mais difícil. São eles que dão o colorido extra aos Jogos de Inverno – e, claro, as calças psicadélicas da selecção de curling da Noruega.

Não é fácil ter um sonho olímpico no reino de Tonga, um arquipélago da Polinésia com 169 ilhas desportivamente vocacionado para o râguebi. Há uma notável excepção, Paea Wolfgramm, o inesperado vice-campeão de pesados em Atlanta 96 que só foi derrotado na final por Wladimir Klitschko, um dos maiores pugilistas de todos os tempos. Wolfgramm não teve descendência em pódios, mas o seu exemplo fez de um rapaz pobre e doente um sonhador que vai cumprir na Coreia a sua segunda participação olímpica.

Pita Taufatofua causou sensação nos Jogos de Rio de Janeiro, não pela medalha que (não) ganhou na competição de taekwondo, mas por ter desfilado na cerimónia de abertura no Maracanã de tronco nu e oleado. Recebeu convites de Hollywood, para ser manequim, mas Taufatofua recusou todos porque o seu sonho olímpico não tinha acabado. Continuou da forma mais inesperada, conseguindo a qualificação para a prova de esqui de fundo masculina, 15 quilómetros a andar na neve com um par de esquis calçados, ele que nunca tinha visto neve antes de 2016.

“Cada vez que estou a esquiar, morro um bocadinho. Os músculos começam a queimar e assim durante mais de uma hora. Ainda não fiz uma única prova onde me sentisse completamente confortável com a dor”, confessa o esquiador tongolês, que fez poucas provas em neve real e que beneficiou de uma alteração nos regulamentos para se apurar – a federação passou a aceitar como resultados de qualificação provas no asfalto com rolamentos em vez de esquis. Será, no entanto, pouco provável que ele (ou algum dos cerca de três mil atletas esperados) vá desfilar em tronco nu, como aconteceu há dois anos no Rio.

Nigéria contra Jamaica no bobsled

São muitas as comitivas pequenas em Pyeongchang. Dos 92 países, 47 têm cinco ou menos atletas presentes e, destes, 16 têm apenas um. Portugal tem dois (ver texto nestas páginas), tal como a Malásia, que é um dos seis estreantes – os outros são Equador, Eritreia, Kosovo, Nigéria e Singapura. Quem já não será estreante é Yohan Goutt-Gonçalves, que volta a ser o único representante de Timor-Leste (mãe timorense, pai francês), depois de se ter estreado há quatro anos em Sochi na prova de slalom – foi 43.º e último entre os que completaram a prova, em que mais de metade, ou desistiram, ou foram desclassificados.

Muitas destas comitivas pequenas vêm de África (continente que nunca ganhou uma medalha nos Jogos de Inverno) e são compostas por atletas que nem sequer nasceram no país, mas que vão cumprir o seu sonho olímpico ao mesmo tempo que honram a terra dos seus antepassados. Este é o caso de Seun Adigun, Ngozi Onwumere e Akuoma Omegora, três mulheres norte-americanas de nascimento que vão representar a Nigéria no bobsled.

Serão três pioneiras entre os dois géneros, elas que, como vários atletas do bobsled (mesmo em países com mais tradição na modalidade), têm as suas origens desportivas no atletismo de velocidade. Antes delas, nem homens, nem mulheres alguma vez representaram um país africano no bobsled olímpico. Na competição de bob-2, terão a “concorrência” das jamaicanas, que continuam em Pyeongchang a bonita tradição do país de Usain Bolt no bosled olímpico que já vem de Calgary 88 – uma história que deu um filme, “Jamaica Abaixo de Zero”. Este é um duelo que costuma acontecer no atletismo e no sprint e que, pela primeira vez, será em trenós e a mais de 100km/h.

Ao contrário das três mulheres nigerianas que não nasceram no país que representam, Sabrina Simander nasceu no Quénia, a maior potência olímpica de África (102 medalhas, 95 delas no atletismo). O que Simander vai fazer em Pyeongchang nada tem a ver com fundo ou meio-fundo. Vai competir em quatro provas de esqui alpino, a mais democrática das modalidades nos Jogos de Inverno (tem representantes de 80 dos 92 países participantes). Mas, para ela, que não ficou tempo suficiente no Quénia para ser uma corredora de fundo, o esqui seria sempre uma escolha natural.

Simander nasceu no Quénia, mas cresceu na Áustria e desde cedo se habituou à neve. Foi por influência do seu padrasto austríaco que se iniciou no esqui e, aos 19 anos, vai cumprir o seu sonho olímpico, mas à custa de muito sacrifício e da boa vontade de muita gente. Da parte do país que representa, não teve muito mais que uma palmada nas costas de incentivo e recorreu ao crowdfunding e patrocinadores para financiar toda a campanha.

Em Pyeonchang, Simander quer ser mais que uma curiosidade. Quer que estes Jogos sejam o início de uma carreira. “Por ser queniana, muita gente pensa logo que eu não sei esquiar muito bem. Quero fazer boas provas e ser profissional”, diz a jovem esquiadora. “Sou queniana, mas tenho mentalidade austríaca”, acrescenta a segunda atleta do Quénia na história dos Jogos de Inverno, depois de Philip Boit, um antigo fundista reconvertido em esquiador de fundo.

E em 2022, nos Jogos de Pequim? É provável que os trenós jamaicanos continuem a roubar a atenção no bobsled, que Sabrina Simander já seja uma candidata às medalhas, e que mais países se juntem à família olímpica dos Jogos de Inverno. Ou quem sabe, talvez já haja uma equipa de curling do Afeganistão, que nunca teve sequer um atleta nos Jogos de Inverno. Já criou uma federação, já se juntou à federação internacional (tal como Portugal) e já promoveu estágios na Rússia. Daqui a quatro anos, saberemos o que aconteceu.