“Se queremos falar do cinema, é preciso vê-lo com um espírito alegre”

Gian Luca Farinelli, director da Cineteca di Bologna e figura maior do restauro e da investigação, esteve entre nós por ocasião dos 70 anos da Cinemateca Portuguesa. Conversa com um homem para quem o cinema é uma arte da partilha universal.

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Gian Luca Farinelli Miguel Manso

“A coisa mais importante que aprendi é que é preciso ter consciência da nossa própria ignorância.” Gian Luca Farinelli diz isto mesmo no fim de meia hora de conversa descontraída, sentado entre livros, DVD e cartazes na livraria da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa. “A única possibilidade de evitar as armadilhas da idade é continuarmos sempre em viagem, saber que nunca fazemos nada para sempre, que só passamos temporariamente pelos lugares, que é preciso ter sempre a certeza e a consciência da nossa ignorância.”

Aos 55 anos de idade, o programador italiano é há 18 anos director da Cineteca di Bologna (www.cinetecadibologna.it), instituição criada em 1962 e que é hoje uma das mais prestigiadas e activas cinematecas mundiais. Com um arquivo de 50 mil filmes e uma posição de liderança no trabalho de restauro e preservação do cinema de património através do laboratório L’Immagine Ritrovata, a Cineteca é também organizadora do festival anual Il Cinema Ritrovato, “meca” dos cinéfilos de todo o mundo; responsável, há mais de 20 anos, pelo projecto de restauro e digitalização da filmografia de Charlie Chaplin (tal como, em tempos recentes, da obra de Roberto Rossellini); e uma das parceiras da World Cinema Foundation, entidade que restaura obras clássicas mas insuficientemente divulgadas ou reconhecidas do cinema mundial, da qual Farinelli foi fundador a par de Martin Scorsese ou Thierry Frémaux, director do festival de Cannes.

Mesmo consciente da sua própria ignorância, alguma coisa Gian Luca Farinelli andará a fazer bem para a Cineteca se ter tornado em “farol” de uma nova cinefilia de património, que se quer aberta ao mundo num espírito de descoberta e aventura partilhado com os espectadores. “Não sei se somos um farol,” avança. “Tentamos apenas fazer o nosso trabalho, e é verdade que aprendemos muito com as experiências dos outros. O cinema é uma internacional, e por isso podemos ver para lá da nossa própria paisagem; somos o resultado de muita gente diferente, de muitas teorias e abordagens diferentes que procurámos acompanhar e valorizar.”

Essa dimensão internacional pesou na escolha de Por uma cinemateca em viagem como tema da conferência que Farinelli deu na passada terça-feira como “pontapé de saída” da iniciativa As Cinematecas Hoje. Para marcar o seu 70.º aniversário, a Cinemateca Portuguesa deu “carta aberta” a congéneres de todo o mundo para programarem pequenos ciclos dedicados ao cinema de património, do mudo ao contemporâneo, acompanhados por conferências dos seus responsáveis. (As escolhas de Bolonha continuam até dia 22 e o programa pode ser consultado em www.cinemateca.pt.)

Gian Luca Farinelli explica assim a ideia da “cinemateca em viagem”: “Sugeri esse tema não apenas porque viajo muito, mas porque penso que uma instituição cultural deve estar em movimento, em migração constante. Isso não quer dizer seguir as modas: podemos perfeitamente estar em viagem sem termos de ir aos mesmos sítios onde toda a gente vai, sem ter de pensar permanentemente na perfeição, podendo colocar constantemente questões. E o cinema é uma arte do movimento, que está sempre em mudança. Se virmos um filme de 1905 e outro de 1910 ou de 1915, apercebemo-nos logo que não são a mesma coisa: tudo muda constantemente, na linguagem, no modo de representar, de encenar, de enquadrar.”

Por isso, também o papel da cinemateca mudou ao longo dos tempos, e a Cineteca tem estado na primeira linha dessa mudança. “No limite, essa mudança de papel é a prova definitiva de que a ideia do que deve ser uma cinemateca era muito boa”, diz o director da instituição bolonhesa. “Elas souberam preservar e divulgar filmes numa época em que os detentores dos direitos sobre os filmes queriam impedi-lo ou não tinham noção do que estavam a fazer. Fizeram-no muitas vezes às escondidas e fora das regras, e ainda bem que o fizeram, porque hoje a ideia de que é necessário preservar o património do cinema é respeitada pelos detentores dos direitos e pela indústria.” Dá um exemplo prático. “Quando começámos em 1985 a organizar o festival Il Cinema Ritrovato, fizemo-lo porque queríamos ver filmes que de outro modo nunca poderíamos ver. Começámos com uma retrospectiva de Fritz Lang. Ora, hoje em dia, a maior parte, para não dizer todos, dos filmes de Fritz Lang encontra-se na Internet, em DVD, em Blu-ray… Evidentemente, já não podemos fazer as coisas como antes. Mas hoje em dia temos um papel essencial para dar ao público pontos de referência para passar dados que permitam uma maneira de ver os filmes. E existem sempre zonas da história do cinema que continuam desconhecidas ou insuficientemente conhecidas, e os trabalhos de pesquisa e restauro continuam a ser essenciais.”

O caso do acervo de Chaplin é significativo, como explica Farinelli. “Começámos a trabalhar Chaplin no final do século XX, e continuamos a descobrir coisas, e continuamos a precisar de muito tempo para estudar em profundidade a complexidade enorme da sua personalidade artística. Fizemos todos os restauros em película, agora precisamos também de os fazer em digital. E, embora trabalhemos nele há 20 anos, tenho a impressão que nunca vamos realmente terminá-lo. Quanto mais se trabalha sobre um artista, mais se descobre sobre ele… Felizmente, as cinematecas têm uma abordagem que não é a mesma dos detentores dos direitos. As questões que nos colocamos são outras. Ainda que os herdeiros de Chaplin, depois do próprio pai, sempre se tenham ocupado com o património, havia muito por fazer – ninguém tinha ainda tido coragem de pegar nos primeiros três anos da sua carreira, de 35 filmes por ano. E agora eles existem.”

Ao fim de 18 anos de direcção da Cineteca, e mais de 30 anos a trabalhar na instituição, Gian Luca Farinelli continua a ser um apaixonado. “Porque o cinema é uma arte do prazer”, sorri. “Se queremos encenar o cinema, falar do cinema, é preciso vê-lo com um espírito alegre. O cinema é uma arte de partilha e de partilha colectiva. Uma arte que mudou a nossa vida e a de milhões de pessoas, que também mudou o século XX e que nos permitiu ver a vida de outro modo. A alegria é, nisso tudo, um aspecto essencial.”