Cientistas portugueses de regresso à Antárctida, desta vez com muita psicologia

Para quem está em Portugal, o continente branco está assim tão distante que a sua influência não chega cá? Nem por isso, e o coordenador do Programa Polar Português explica porquê.

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Ilha do rei Jorge, no arquipélago das Shetlands do Sul Nuno Ferreira Santos

A presença de investigadores portugueses na Antárctida já é habitual. Este ano não é excepção, pelo que a nova campanha já em curso procura dar continuidade a vários desses projectos. Desta vez, até Março, durante o Verão antárctico, o destino são as ilhas do Rei Jorge e de Livingston (no arquipélago das Shetlands do Sul) e a Baía Cierva (na costa de Danco, na Península Antárctica). No terreno vão estar 14 cientistas (dez portugueses, três espanhóis e um norte-americano) de seis projectos de investigação. Como questão incontornável, está o clima e o que se encontra à volta das suas mudanças que afectam todo o planeta – mas a psicologia também não ficou de fora, para ajudar a desvendar as subtilezas do trabalho em equipa numa região como a Antárctida.

Nesta campanha, é a sétima vez que Portugal contribui para a logística científica na Antárctida, fretando para tal um avião, que transportou na última quarta-feira 101 cientistas (dos programas antárcticos búlgaro, chinês, espanhol e sul-coreano), numa viagem de ida e volta, entre Punta Arenas, no Chile, e o aeródromo Teniente Marsh, na ilha do Rei Jorge).

Como Portugal não tem infra-estruturas permanentes na Antárctida, as campanhas científicas portuguesas têm de usar as bases que outros países mantêm no continente branco. Apoiam-se assim na cooperação com vários países, estabelecida pelo Programa Polar Português (Propolar) na última década, como a Argentina, Bulgária, Brasil, Chile, China, Espanha, Estados Unidos, Peru, Coreia do Sul e Uruguai. Até 2011, os cientistas portugueses limitavam-se a ser convidados nas bases de outros países e dependiam da sua boleia para lá chegar. O frete do avião é uma “troca” por esse apoio.

Quanto aos projectos com cientistas no terreno na Campanha Antárctica Portuguesa de 2017-2018, alguns visam especificamente os efeitos das alterações climáticas na região, como o do coordenador do Propolar, Gonçalo Vieira, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. Há muito que Gonçalo Vieira estuda o permafrost, o solo sempre congelado tanto no Inverno como no Verão, para saber se está a ser afectado pelas alterações do clima.

Nesta temporada, a sua equipa, que vai estar na ilha de Livingston e na Baía Cierva, vai melhorar as estações de monitorização autónoma do permafrost e trabalhar com drones: “Vamos continuar o trabalho com levantamentos com drones para monitorizar os riscos associados à degradação do permafrost em infra-estruturas e também monitorizar a deformação do solo gelado”, explica o cientista, acrescentando que a sua equipa está a colaborar com um projecto da Agência Espacial Europeia: “Estão-se a obter resultados muito interessantes sobre deformação de terreno, agora medidos através de satélite e que estão a ser validados por dados nossos.”

Ainda sobre o permafrost, a equipa de António Correia (da Universidade de Évora), também habitual na Antárctida, vai continuar os estudos geoeléctricos deste solo na Ilha do Rei Jorge e a sua influência nos ecossistemas junto a duas bases científicas.

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Gonçalo Vieira na campanha de 2012 à Ilha do Rei Jorge Nuno Ferreira Santos

E como está o permafrost? “Desde 2000 que se verifica uma tendência para o arrefecimento ao nível das temperaturas do ar na região Norte da Península Antártica. Mas, no permafrost, o que vinha a verificar-se no Norte da península era uma estabilização nas temperaturas e mesmo uma tendência para a redução da espessura da camada activa, que se funde no Verão”, responde Gonçalo Vieira. “Contudo, o Verão de 2016-17 voltou a ser mais quente, com menos neve, e não sabemos o que isso significa: se um pico ou se um regresso à tendência para o aquecimento que vinha a verificar-se, pelo menos entre 1950-1999. Estamos muito curiosos com o que se passará neste Verão, sendo que já sabemos há relativamente pouca neve. Há muita coisa por compreender melhor na dinâmica da Península Antártica.”

Prosseguindo estudos anteriores, a equipa de Pedro Pina, do Instituto Superior Técnico de Lisboa, volta a cartografar os círculos de pedras (que surgem na Antárctida marítima devido à dinâmica do solo superficial) bem como os padrões de vegetação – neste caso, na Ilha do rei Jorge, usando drones, para reconstituir a dinâmica da vegetação no passado.

Uma das novidades deste ano no terreno é um estudo de psicologia do grupo de Pedro Quinteiro Fernandes, do ISPA- Instituto Universitário (em Lisboa), sobre a eficácia do trabalho em equipa na Antárctida. Para tal, os cientistas portugueses que participaram na campanha do ano passado já foram entrevistados, antes e depois, e fizeram diários de campo. Resultados preliminares: as condições de alojamento são um factor de stress e as características dos membros das equipas, como a experiência de campo, são fundamentais para a eficácia das equipas. Agora, o grupo de Pedro Fernandes vai acompanhar na Ilha do Rei Jorge o trabalho não só da campanha portuguesa mas de equipas de outros países, como o Chile, China e Coreia do Sul.

Tudo muito longe de nós, ou já temos em Portugal manifestações do que passa no clima antárctico? “Temos, essencialmente no contributo para a subida do nível do mar e aumento de problemas com a erosão costeira”, responde Gonçalo Vieira. “A nível climático, a reacção é mais difusa e lenta e Portugal é mais directamente influenciado pelo que se passa no Árctico. Além disso, temos responsabilidades na gestão de uma região que é de toda a humanidade e Portugal precisa de ter uma palavra a dizer na gestão do futuro da região.”