Entrevista

Carros velhos são “perigosos”, muitos “não estão em condições de circular”

Presidente do Automóvel Club de Portugal, Carlos Barbosa, salienta que "apesar de os carros irem às inspecções anuais, muitos deles não estão em condições de poder circular".

Foto
Daniel Rocha

Um estudo pioneiro do Automóvel Club de Portugal (ACP) sobre o perfil dos condutores revela que em média os portugueses têm carros com dez ou mais anos. A vida útil dos automóveis é “prolongada o mais possível”, sublinha ainda o relatório do ACP que resulta de um inquérito a 6560 pessoas. No que diz respeito à percepção dos inquiridos sobre os outros condutores, um em quatro considera que o comportamento na estrada está pior. 

A apresentação do estudo sobre o perfil do condutor português, nesta terça-feira, coincidiu com o lançamento do Observatório do Automóvel Club de Portugal.

Carlos Barbosa, presidente da instituição, comenta o impacto do envelhecimento dos carros na segurança rodoviária, a necessidade de alterar algumas regras sobre a circulação dos ciclistas e defende que a idade para renovação da carta de condução deveria voltar a ser os 50 anos. 

No estudo sobre o perfil do condutor português, apresentado nesta terça-feira, referem que poucos inquiridos recordam as alterações que foram introduzidas à renovação da carta e à carta por pontos. Que impacto tem as pessoas não conhecerem a lei?  
O desconhecimento da lei não iliba ninguém de responsabilidades. Na altura, foi extremamente publicitada a história da carta por pontos e a renovação da carta… A que nós nos opusemos porque achámos que a renovação aos 60 anos é extremamente tardia. Estamos de acordo que anteriormente a revisão da carta aos 50 anos era como devia ser por questões de segurança e não por questões de facturação. Consideramos que é uma falta de segurança as pessoas só renovarem aos 60.

Porque é que acha que as pessoas não conhecem estas alterações?
As pessoas estão completamente desinteressadas em relação a isso. Mas depois, quando são confrontadas com a perda de pontos, “acordam”.

Que impacto é que a idade avançada dos carros pode ter na segurança rodoviária?
Tem o maior impacto. As pessoas não têm dinheiro para trocar os carros, porque os carros são caros, ficam com eles mais anos. Passou-se de trocar de cinco em cinco anos, para o período que se vê agora. Isto é perigoso porque, apesar de os carros irem às inspecções anuais, muitos deles não estão em condições de poder circular e têm muito menos segurança do que carros novos. O parque velho tem a ver com a fiscalidade que temos em Portugal para o sector automóvel e que impede as pessoas de trocar de automóvel mais vezes.

Apesar dos carros serem mais antigos, há mais carros por casa. Porquê?
Acho que, desde 2008, houve muita gente que deixou de pagar empréstimos de casa e voltou para casa dos pais. Pelo que percebi, tem a ver com o facto de haver mais gente por agregado. Além disso, cada vez mais há mais carros em casa, porque os miúdos saem mais tarde de casa, mas têm carros mais cedo.

Metade dos inquiridos considera que os ciclistas estão mal preparados. O que é que pode ser feito para promover a formação de quem anda de bicicleta?
Quando foi alterado o Código da Estrada, deu-se uma série de direitos aos ciclistas mas não lhes deram deveres. A maior parte dos ciclistas são extremamente indisciplinados no meio rodoviário, não respeitam sinais, andam em cima de passeios, andam quatro lado a lado... Por exemplo, em Espanha, se quiser ultrapassar um ciclista, mesmo que haja traço contínuo, é possível fazê-lo sem ser multado. Aqui não. Isto impede a circulação e a mobilidade porque vão dois ciclistas lado a lado com traço contínuo e uma fila de carros atrás que nunca mais acaba. Há uma série de coisas que tem de ser revista no que diz respeito aos ciclistas.

O que é que se pode fazer para sensibilizar os ciclistas?
Mais formação, mais publicidade, rever o Código da Estrada visto que já se percebeu que eles não têm cumprido aquilo que lhes é devido e, sobretudo, grandes campanhas de sensibilização para terem mais cuidado.