Criar máquinas para perceber a humanidade

Hiroshi Ishiguro é um académico japonês, que desenvolve robôs inteligentes e com aparência humana. A próxima meta, diz, é a consciência artificial.

Há duas histórias ligadas. Numa Hiroshi Ishiguro estudou engenharia, interessou-se por robótica e inteligência artificial, e é actualmente académico na Universidade de Osaka, no Japão, e dirige um prestigiado laboratório de robótica. Nos últimos anos, criou vários andróides, ou seja, robôs sofisticados que se assemelham fisicamente a humanos. Entre eles estão uma réplica de si próprio e uma recepcionista chamada Erica, descrita pelo criador como o andróide “mais lindo e inteligente”.

Esta é, como descreve o próprio, “uma história de enganos”. O outro lado da narrativa é que Ishiguro queria ser artista e continua, em parte, a fazer arte, para tentar perceber a humanidade. “Fazia pinturas. O meu objectivo era representar a humanidade na tela. Mas desisti de ser pintor e estudei ciências da computação e inteligência artificial”, recorda. “Vi que a inteligência artificial precisava de um corpo apropriado. Quando pus robôs a interagir com humanos, percebi a importância de uma aparência humana. Provavelmente tenho estado a fazer algumas coisas como um artista. O que quero fazer é representar a humanidade na máquina.”

Ishiguro é um académico de renome e tem tido a sua dose de protagonismo na imprensa e em documentários. É alto, magro e veste-se integralmente de preto. Aparenta menos do que os 54 anos que tem. Conversou com o PÚBLICO na Universidade Católica, em Lisboa, onde deu uma conferência, da qual o jornal foi parceiro.

Nem todo o trabalho de Ishiguro mergulha em questões filosóficas. O cientista garante que há muitas situações em que é útil ter robôs com os quais as pessoas se sentem à vontade. “Estou a trabalhar com mais de dez empresas no Japão que estão muito empenhadas em desenvolver uma aplicação prática. Há uma empresa que está a usar o nosso robô num restaurante”, exemplifica. Outra possibilidade é pôr máquinas a dar aulas a crianças. Conta uma experiência em que um robô deu aulas de Inglês a alunos japoneses que normalmente têm dificuldades em falar a língua. “Os alunos conseguiram melhores resultados. Quando falamos com humanos, não conseguimos repetir as mesmas frases muitas vezes, pode ser embaraçoso. Mas com um robô podiam repeti-las quantas vezes quisessem.”

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Uma réplica robótica do cientista Hiroshi Ishiguro Laboratory

As crianças autistas e as pessoas com demência, refere ainda o cientista, também estão mais à vontade a interagir com máquinas. A ideia é que, se começarem a falar com um robô, depois podem passar a falar com humanos. “Há muitas coisas que não podemos fazer por sentirmos uma presença humana forte. É claro que o nosso robô tem uma presença semelhante à humana, mas é mais suave, mais fraca.”

Outra área em que a robótica começa a ter impacto é no acompanhamento de idosos. No Japão, um país onde o envelhecimento da população é um problema premente, têm sido testadas soluções para ajudar nos cuidados à população mais velha: desde máquinas capazes de auxiliar na locomoção até robôs que são essencialmente bonecos de peluche com movimentos – o objectivo é que funcionem como um antídoto para a solidão passível de ser produzido numa linha de montagem.

De uma perspectiva europeia, pelo menos, os japoneses parecem mais abertos à ideia de conviverem e interagirem com este género de máquinas, e as empresas nipónicas gostam de criar robôs. A Sony mostrou este mês uma nova versão do Aibo, um cão robótico de aspecto simpático e equipado com uma câmara de vigilância. A Honda tem o Asimo, que parece um astronauta e resulta de mais de duas décadas de desenvolvimento. O SoftBank, um gigante empresarial, criou o Pepper, um robô humanóide do tamanho de uma criança. Tem inteligência artificial para tentar detectar emoções em pessoas e é usado em algumas empresas como recepcionista e anfitrião.

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Erica, descrita por Ishiguro como o andróide "mais lindo e inteligente" Hiroshi Ishiguro Laboratory

Ishiguro, que já trabalhou em projectos na Europa, rejeita que o apelo dos robôs seja uma particularidade japonesa: “Provavelmente a educação e a cultura são diferentes, mas a reacção em relação ao robô é semelhante. Toda a gente consegue interagir com facilidade com estes robôs semelhantes a humanos.”

Reconhece, contudo, que os andróides estão longe de ser um produto de massas. “São bastante caros e muito complicados. Não são muito adequados à produção em massa. É como um Ferrari ou um Lamborghini. Talvez venhamos a ter um robô pessoal mais barato. Mas é um desafio: temos de os fazer de forma mais barata e mais fiável.” Por ora, os consumidores estão a ser atraídos pela inteligência artificial que vem dentro de aparelhos nada humanóides: telemóveis e colunas inteligentes, como o Echo, da Amazon, e o Home, do Google (o cientista não tem nenhum destes em casa).

Já no ambiente de laboratório, a aparência e os movimentos dos andróides têm vindo a ser aperfeiçoados. A inteligência artificial torna-se cada vez mais sofisticada e permite que as máquinas possam ter conversas razoáveis com pessoas. Contudo, na construção de robôs que funcionem como humanos, a consciência será provavelmente a última barreira. E Ishiguro acredita que será ultrapassada. “Um dia, será possível. Não hoje. Talvez demore duas ou três décadas. O que posso dizer com clareza é que os investigadores, os neurocientistas e os cientistas de robótica estão muito interessados na consciência. Depois da inteligência artificial, a próxima meta é a consciência artificial.”