Humidade no museu das termas romanas de Chaves põe ruínas em perigo

Projecto inicial do museu termal romano esqueceu as altas temperaturas das águas e deixou ruínas à mercê da humidade. Actual executivo fala num “erro grave de avaliação” dos projectistas, mas ex-presidente diz que ninguém sabia da existência da nascente termal quando o projecto foi feito.

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Nelson Garrido
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Previu-se que abriria em 2015, depois em 2018. Mas o Museu das Termas Romanas em Chaves só deverá estar concluído no primeiro semestre de 2019. O edificado que vai abrigar as maiores termas medicinais romanas da Península Ibérica, descobertas em 2006 quando a autarquia se preparava para construir um parque de estacionamento, está com graves problemas de humidade que estão a pôr em causa a conservação das ruínas que era suposto proteger.

Desde o final de Outubro de 2016, data em que se concluiu a construção do edifício projectado pelos arquitectos Cândido Lopes e Nicolau Lopes, que a conservação das ruínas das termas romanas está comprometida. Isto porque, sem um sistema mecânico de renovação do ar instalado, as águas que atingem os 65 graus condensam-se nas paredes do edifício. Sérgio Carneiro, arqueólogo da Câmara de Chaves, explica que “a condensação é prejudicial porque faz-se nas vigas do edifício e depois [a água] cai em pingos sempre no mesmo sítio, o que tem uma acção muito nefasta nas estruturas arqueológicas”, classificadas como Monumento Nacional no final de 2012. O profissional adianta, no entanto, que “a obra vai arrancar logo com intervenção de conservação nas estruturas” e que, até à data, “não há danos irreversíveis”.

Mas se as ruínas podem ser salvas, o orçamento não. Para a construção deste edifício, a Câmara de Chaves investiu 1,9 milhões de euros, num projecto co-financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder). Depois, saíram mais 200 mil do cofre do município para pagar as alterações ao projecto inicial impostas pela Direcção Regional de Cultura do Norte. E, para finalizar a obra, fez recentemente uma nova candidatura ao abrigo do Norte 2020 — o projecto da “Musealização das Termas Romanas de Chaves — co-financiado novamente pela Feder e que representa um investimento de cerca de 1,1 milhões de euros.

Nesta segunda fase de obras, cerca de 200 mil euros destinam-se à resolução da questão da humidade, adianta Nuno Vaz Ribeiro, actual presidente da Câmara Municipal de Chaves. O socialista, que está há dois meses em funções, herdou a empreitada do executivo anterior presidido pelo social-democrata António Cabeleira.

"Erro grave” dos projectistas

Ao PÚBLICO, o autarca flaviense admite que no projecto para a construção do edifício, que agora enfrenta problemas de humidade, houve um “erro grave de avaliação da equipa de projectos” e a câmara “não teve a capacidade” de identificá-lo: “O projecto inicial não respondeu a uma questão essencial. Não foram acauteladas as questões térmicas e as questões funcionais. Provavelmente por uma questão de erro de projecto, de avaliação, que fez com que a questão da condensação não fosse tida em devida conta. E, por conseguinte, houve necessidade de equacionar novamente este problema. E o projecto que seria apenas para a musealização também teve de incluir uma componente que diz respeito à renovação do ar”. O que acaba por representar “um incremento financeiro”, acrescenta. No final das contas, terão sido investidos no Museu das Termas Romanas cerca de 3 milhões e 200 mil euros.

Nuno Vaz Ribeiro revela ainda que o edifício levantado há mais de um ano no centro histórico da cidade tem sido “bastante criticado pela população”, “que não aceitou que esta questão [da humidade] não tivesse sido devidamente tratada no âmbito do projecto inicial, que já era um projecto de cerca de 2 milhões de euros”.

Em resposta ao PÚBLICO, o arquitecto Cândido Lopes afirmou que o projecto elaborado pelo seu gabinete “foi exageradamente alterado” e que se o plano original tivesse sido cumprido, os problemas de humidade não existiriam. Já António Cabeleira, ex-presidente e actual vereador da Câmara de Chaves, argumenta que as alterações ao projecto inicial foram impostas pela Direcção Regional de Cultura do Norte, que “não permitiu que fossem instalados dois pilares ao centro do espaço [previstos no projecto inicial]”, e acrescenta que a segunda versão do projecto foi também ela elaborada pelos arquitectos e seguida à risca.

O PÚBLICO tentou contactar a Direcção Regional de Cultura do Norte, mas não obteve resposta.

De qualquer dos modos, nenhuma versão do projecto previa uma ventilação activa, confirma Sérgio Carneiro, o arqueólogo municipal que tem seguido a empreitada e que diz ter alertado o executivo para a necessidade da “extracção mecânica do vapor”. A solução que os arquitectos propuseram era uma “solução natural”, em que “o fluxo de ar que corria entre as janelas de um lado e de outro do edifício iria permitir evacuação do vapor”, explica. “Claramente não era suficiente”, acrescenta o profissional.

“Ninguém sabia”

Mas se tanto o actual executivo como o arqueólogo municipal atribuem o erro aos projectistas, António Cabeleira desculpabiliza os arquitectos, argumentando que quando a câmara encomendou o projecto, “a escavação não estava feita” e ninguém sabia “que nascia água quente dentro do espaço”: “Até se pensava que a água era conduzida do exterior para dentro daquele espaço, quando a água acaba por nascer mesmo dentro dos tanques. Não sabiam os arquitectos, não sabia a câmara, não sabia ninguém.”

Quando questionado se, a partir do momento em que se descobriram as nascentes, o projecto não poderia ter sido alterado de modo a evitar o problema da condensação, o ex-autarca explica que as verbas acabaram por se “esgotar” em “betão armado”, visto que a “alteração à estrutura [proposta pela Direcção Regional de Cultura do Norte] obrigou a gastar muito dinheiro”. Como tal, a resolução teve de ser adiada e incluída na mais recente candidatura ao Norte 2020. No novo projecto, “o ar é insuflado [mecanicamente] a partir do exterior à temperatura exterior de forma a criar uma circulação de ar artificial que irá retirar todo o vapor e não vai permitir a condensação”, explica o arqueólogo municipal.

De momento, a câmara aguarda o visto do Tribunal de Contas para dar o aval para que a segunda fase de obras, projectada pelo arquitecto Bruno André, avance. Os trabalhos, que se prevê que tenham início ainda neste mês, vão arrastar-se durante um ano.

Se não houver mais atrasos, em 2019 — e 17 séculos depois — as termas romanas vão voltar a ganhar vida. O museu será apetrechado de tecnologias digitais “para que as pessoas tenham uma imersão no passado e se sintam transportadas no tempo”, explica o arqueólogo municipal.     

Regresso ao passado                 

Soterrado na sequência de um sismo no século IV, o maior complexo termal da Península Ibérica só foi redescoberto (acidentalmente) em 2006. E foi uma sorte, explica Sérgio Carneiro, o arqueólogo do município: “Durante o final do século XVIII e no século XIX, houve um renascimento do termalismo e, no território que outrora fora ocupado pelo Império, os novos balneários foram construídos destruindo os romanos. E no nosso caso, não, porque houve a tal derrocada do edifício romano. Aquele local foi esquecido.” O acaso fez com que hoje encontremos o edifício num estado de “excelente conservação”, em que “todo o sistema de abastecimento e escoamento das águas está perfeitamente funcional”.

E o que em 2019 será museu foi, no Império Romano, uma das peças fulcrais do sistema de saúde. Numa primeira fase, utilizadas sobretudo por militares, estas termas medicinais “tinham uma importância estratégica muito grande, que era propiciar a recuperação dos soldados vindos da frente de batalha”. Mas depois da pacificação e ocupação do território, as termas, famosas pelas suas propriedades terapêuticas, começaram a “atrair doentes vindos de muitos sítios da Península”, conta o arqueólogo.

Com uma arquitectura bem diferenciada das termas higiénicas romanas, o complexo termal de Chaves é constituído por duas grandes piscinas, sete piscinas individuais, uma palaestrae — uma espécie de pátio onde se poderia fazer exercício, descansar, apanhar sol, complementando o tratamento — e uma zona de templo, dedicado às ninfas, onde os doentes agradeciam os tratamentos e a cura às divindades.

No futuro museu, o visitante vai poder descobrir mais acerca do espaço e da sua história quer por via de meios tradicionais, como maquetes com a reconstituição das ruínas e painéis, quer através da tecnologia, com uma mesa táctil interactiva. E a exposição alarga-se até ao Museu da Região Flaviense, que vai ter uma sala própria para exibir os diversos artefactos encontrados nas escavações do local.