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Músicas de Natal: sonho ou pesadelo?

A lista de canções de Natal é interminável, mas as rádios es grandes superfícies comerciais, insistem em criar em nós uma tradição: ouvir, quase em "loop", sempre as mesmas canções, ano após ano

E eis que o Natal está terminado. Acabou a correria para comprar bacalhau e peru, a correria para adquirir tudo o que é necessário para realizar a melhor e mais conseguida ceia de Natal está encerrada, as prendas já foram oferecidas e abertas, já se percebeu se acertámos ou não no presente. Poderíamos pensar então que terminou a época natalícia. Mas desenganem-se! Durante a semana que medeia entre o Natal e as festas de fim de ano, reiniciam-se as correrias aos centros comerciais e às lojas. Ainda vamos comprar um presente para aquela pessoa de quem não nos lembrámos, mas que se lembrou de nós, ainda vamos trocar aquele pijama que a tia ofereceu, tendo-se enganado totalmente no tamanho, e começamos a efectuar as compras já a pensar nas festividades de final de ano. Numa só frase: a época natalícia com todo o seu bulício e correria mantém-se. E, como não poderia deixar de ser, a banda-sonora para a correria também: as músicas de Natal.

Não me consigo decidir se canções como All I Want For Christmas Is You, Have Yourself a Merry Christmas, Last Christmas, Feliz Navidad, It’s Beginning to Took a Lot Like Christmas ou a nossa portuguesa Nessa Noite Branca são uma doce recordação que nos chega ano após ano ou, pelo contrário, um pesadelo. A verdade é que quando a época se inicia até sabe bem reencontrar esses velhos companheiros de estrada que nos levam a cantarolar, mais que não seja, os refrães. Conhecemos aquelas músicas “desde sempre”. Sentimos alguma nostalgia, afloram as recordações de natais passados. Sentimos que este ano, em especial, o nosso espírito natalício vai brotar a 100%. Vamos adorar as decorações, as músicas, as correrias. Vamos preparar uma excelente ceia de Natal! Vamos estar imbuídos dos maiores e melhores sentimentos. Vamos fazer o bem e acreditar num mundo melhor!

Contudo, com o passar do tempo, ouvir estas músicas constantemente torna-se algo próximo de um pesadelo. Exemplificando: alguns dias antes do Natal, procurando a prenda certa para as pessoas que tornam a minha vida mais doce, entrei, como é normal, em várias lojas. E não minto se disser que em quatro lojas diferentes ouvi quatro versões diferentes do Last Christmas dos Wham! Assumo que até é uma daquelas que, no início da época, me faz subir o volume do rádio e cantarolar, mas a dose é demasiado elevada durante esta época para se tornar suportável! O mesmo acontece com as outras músicas: ouvem-se em todo o lado! E sentes que, aos poucos, vais ficando com uma certa irritação latente sem saberes explicar bem porquê.

A verdade é que a lista de canções de Natal é interminável, mas as rádios e, sobretudo, as grandes superfícies comerciais, insistem em criar em nós uma tradição: ouvir, quase em loop, sempre as mesmas canções, ano após ano, sem grandes alterações na lista. Todos os anos algum cantor ou grupo tenta criar um novo hit natalício: Christmas Lights, dos Coldplay, é, quanto a mim, uma das músicas de Natal mais perfeitas que foram lançadas. Curiosamente, é pouco ouvida nas rádios. A própria Sia lançou este ano um álbum recheado com dez canções de Natal: Everyday is Christmas. Contudo, também esse pouco foi transmitido nas rádios e não me lembro de ouvir nenhum dos temas numa superfície comercial ou pelas ruas das cidades que percorri. Desconfio que existe uma playlist de músicas de Natal que não aceita grandes novidades nem grandes alterações. É imperioso que a lista em questão seja ouvida entre 1000 e 1500 vezes durante o mês de Dezembro sob pena do mundo acabar se tal não acontecer!

Assumo: ainda o Natal não chegou e já eu me sinto um pouco stressada com a repetição constante destas músicas. Onde quer que se vá: lojas, cafés, ruas, as benditas são omnipresentes. E aquilo que começa por ser pouco mais do que um som de fundo chega, ao fim de muito pouco tempo, a um barulho praticamente ensurdecedor que enlouquece qualquer um. Sinto que é atingido, com essa repetição ad nauseam das mesmas músicas, o efeito contrário: em vez de ajudar à construção do espírito natalício, começa a germinar, em todos os massacrados, uma vontade incontrolável que a época termine e que tudo volte ao normal, com ruas, lojas, centros comerciais sem música ambiente natalícia e com as rádios a passar o tipo de música que lhes é habitual. O muito passou a demasiado e torna-se, por isso, insuportável!  

A época natalícia está quase a terminar. Mais uma semana de músicas de Natal e o mundo voltará a entrar na normalidade. Já me sinto a respirar com maior facilidade!