Opinião

Com estimas destas ninguém precisa de estigmas

Não merece Juncker, não merece o federalismo suíço e nem mereço eu esta salgalhada.

Quantos catedráticos são precisos para não perceber que, quando não é por acaso que num texto se usa uma palavra e não outra, é porque foi o sentido dessa palavra (e não da outra) que se quis evocar?

A resposta: três catedráticos, mais um professor associado. É uma novidade inquietante porque, nos velhos tempos, era coisa que se ensinava aos caloiros. Agora deve ser chato para os caloiros ver os catedráticos fazer aquilo que lhes foi dito ser proibido pelas mais básicas regras da honestidade intelectual: ver que determinado autor usou (não por acaso) a palavra A em vez da B mas atacar o autor como se ele tivesse usado a palavra B, ou a A com o sentido da B.

Confusos? Então imaginem como é que eu fiquei quando li um artigo de opinião sobre federalismo suíço no PÚBLICO de ontem. Espera lá: federalismo suíço? Sim, mas o problema não está aí. O que me deixou baralhado foi que nesse artigo os catedráticos Eurico Figueiredo, Fernando Condesso, José Adelino Maltez, e o professor associado Carlos Fraga escrevem o seguinte:

“São deploráveis os comentários de Jean-Claude Junker [sic], ex-líder de um minúsculo país, o Luxemburgo, sobre quantos Estados deverão integrar a UE [...]. Como também são deploráveis, a nível nacional, os comentários do ideólogo do Livre, Rui Tavares, que estimamos, denegrindo o patriotismo. Refere no PÚBLICO de 17 de novembro último: ‘Enquanto a esquerda e a direita democrática não perceberem que as ideias se combatem com ideias e que as ideias nacionalistas, racistas e xenófobas se combatem com ideias cosmopolitas, anti-racistas e universalistas’, está-se, de facto, a insinuar que as ideias nacionalistas (preferimos o termo patrióticas, não sendo por acaso que R.T. usa o termo nacionalista...), racistas e xenófobas são uma e a mesma coisa... Opor cosmopolitismo, universalismo, ao patriotismo é esquecer que a busca de identidade é talvez a mais poderosa força de humanização.”

Estão a perceber a sequência? Pois eu tive de ler dez vezes. Não para entender, mas para ver se acreditava. Os autores sabem que utilizei a palavra nacionalismo em vez de patriotismo e até dizem que não é por acaso que usei uma e não a outra... mas depois anunciam “preferir” usar patriotismo em vez de nacionalismo e decidem atacar-me ali e nos quatro parágrafos seguintes por supostamente denegrir o patriotismo! Verdadeiramente extraordinário. Diria que só um pouco mais extraordinário do que querer defender o patriotismo e depois achincalhar Jean-Claude Juncker por provir de “um minúsculo país”. Para quem respeita o patriotismo (o seu e o dos outros), Juncker merece crítica por tudo menos pelo tamanho do seu país.

Enfim: não merece Juncker, não merece o federalismo suíço e nem mereço eu esta salgalhada. Dá-se o caso (e não o acaso) de ter escrito um artigo nestas páginas em que dizia: “Se as palavras ainda significam alguma coisa — um ‘se’ dos diabos, nos tempos que correm —, nacionalismo e patriotismo querem dizer coisas distintas e, em grande medida, opostas. Patriotismo é um amor da pátria que não exclui outras afiliações (à humanidade, à solidariedade de classe, à comunidade religiosa, ao universalismo, etc.). Ao nacionalismo podemos definir como a ideia de que a única escala soberana possível é a da nação e, consequentemente, que a única organização legítima do sistema internacional é exclusivamente baseada no interesse nacional.” Concluía: “Portugal precisa de patriotismo. O mundo não precisa de mais nacionalismo.”

No mundo das crónicas, uma pessoa lá tem de se habituar a que de vez em quando sejam distorcidas as suas palavras. Agora substituírem uma palavra por outra e atacarem-me por aquela que escolhi não usar é que confesso nunca ter visto. A continuar desta forma, qualquer dia teremos crónicas assim: “Fulano diz que é pediatra. Não é por acaso que ele usa a palavra; é porque é mesmo pediatra. Para os efeitos deste artigo, porém, decidimos antes utilizar a palavra ‘pedófilo’. Como se atreve ele a aproximar-se das nossas crianças?!??”

O que vale é que os autores começam por dizer que têm por mim estima. O que faria se tivessem, em vez disso, estigma? Pôr em causa de forma gratuita o patriotismo de alguém (ou o respeito pelo patriotismo dos outros) é algo que chateia justificadamente qualquer um. A mim chateia bastante. Também tinha pelos autores estima. Mantê-la-ei se souberem ter a honestidade de retirar as absurdas imputações com que decidiram presentear-me.

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