Um barómetro e um manifesto por uma circulação mais sustentável

O manifesto CIRCULA – que pede uma mobilidade mais sustentável – é assinado esta sexta-feira, quando será também apresentado o novo “mapa” da circulação urbana: o Barómetro da Mobilidade em Portugal

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O Barómetro da Mobilidade em Portugal quer monitorizar os modos de circulação nas cidades pp paulo pimenta

Na mesma semana em que se discutiram, em Paris, as alterações climáticas e se abordou a forma como nos deslocamos de um local para o outro, é assinado um manifesto pela mobilidade sustentável em Portugal. O movimento cívico CIRCULA, que dá o nome ao manifesto, une os Green Project Awards e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) na defesa de uma mobilidade mais eficiente e inteligente. A grande novidade, esta sexta-feira, na Casa do Infante (Porto), será a apresentação do Barómetro da Mobilidade em Portugal, uma proposta que pretende mapear os nossos percursos e contribuir para a reflexão sobre como nos movemos pelas cidades.

Quando sai de casa, por onde circula ou que meio usa? Estas são duas perguntas essenciais às quais o barómetro pretende responder, com um inquérito que será, ao que tudo indica, anual, mas com publicação sistemática de dados relevantes para as questões da mobilidade.

“Hoje, não temos um inquérito regular à mobilidade”, adianta Nuno Lacasta, presidente da APA. Na análise aos dados que vão ser recolhidos já no próximo ano, vão-se juntar parceiros como o Instituto Nacional de Estatística, o movimento Movi.e, a Quercus e o CEiiA, um centro de excelência e inovação que se tem destacado na área da mobilidade sustentável. O resultado será um “observatório dos padrões de mobilidade nas cidades”, antevê o presidente da agência ambiental ao Público.

O CEiiA que tem recolhido informação sobre a mobilidade sustentável será o principal parceiro neste barómetro. “Os sistemas estatísticos estão algo desadequados e obsoletos em relação às tendências futuras e às ferramentas que temos ao nosso alcance”, realçou Catarina Selada, do CEiiA. O Barómetro da Mobilidade em Portugal será assim um “esforço adicional” para ter melhores dados sobre este tema.

“Em 2016, de acordo com o Smart City Index [do CEiiA], constatámos que os movimentos pendulares nas cidades ainda são com o automóvel”, afirma Catarina Selada, que avança com um número a rondar os 60% de veículos particulares nestas deslocações regulares. Uma das pretensões dos signatários do manifesto é que estes dados permitam uma maior procura de soluções para a mobilidade partilhada (como os transportes públicos, por exemplo) e que incentive à tomada de decisões mais eficientes e amigas do ambiente.

O movimento cívico CIRCULA aparece como uma reconfiguração do movimento Menos um Carro, tendo muitos dos mesmos objectivos. “É um projecto dos Green Project Awards focado em repensar a utilização do carro, pensar em novas formas de mobilidade e fazê-lo de forma amiga do ambiente”, explica Nuno Lacasta. O propósito de educar e sensibilizar para a mobilidade inteligente mantém-se (e é vincado no manifesto), acrescentando uma vertente mais digital ao projecto. O circula.pt será um site para agregar informação e disponibilizá-la ao público – e aqui o barómetro tem um papel essencial.

“Se pensarmos que os transportes são responsáveis por cerca de 23% das emissões de gases com efeito de estufa [dados do Eurostat para os 27 países da União Europeia e o Reino Unido], temos aqui um grande desafio pela frente. O movimento CIRCULA pretende reflectir sobre estas problemáticas, que também podem desembocar em questões de ordenamento do território”, afirma o presidente da APA e um dos signatários do manifesto que será apresentado pelo movimento.

Há uma preocupação concertada com as cidades neste movimento, pela concentração da população e pela forma como nos deslocamos no Porto, em Lisboa ou Viseu, por exemplo. Também por isso, os municípios são dos principais parceiros que o movimento tem e quer continuar a atingir. Há problemas relacionados com a poluição, com o sedentarismo e os problemas de saúde que causa, com o excesso de rodovias e de carros individuais a circular nas mesmas. Tudo factores que colocam o exemplo das poluídas cidades chinesas nas palavras de Nuno Lacasta, que conclui: “As cidades têm de se tornar mais amigas do peão e da mobilidade sustentável”.