Opinião

In Memoriam Belmiro de Azevedo (1938-2017): Saber e Gestão Global

Anteontem à tarde, fui surpreendido pela triste notícia da morte do Eng.º Belmiro de Azevedo mas consegui gravar de imediato breves declarações para uma televisão antes de retomar a aula no Doutoramento em Saber e Gestão Tropical, que me sugerem o título desta homenagem. Agradeço ao PÚBLICO a oportunidade de ampliar e escrever aquelas declarações, até porque conheci o saudoso gestor através de Alfredo de Sousa (1931-84), fundador da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, que me convidou para participar no projecto de renovação do ensino da economia mal terminei o serviço militar em Angola em pleno PREC.

Aquele Doutoramento, dito TropiKMan Ph.D., oferecido desde 2015 em colaboração com outras escolas e universidades portuguesas e africanas, beneficia de bolsas da FCT. As aulas são dadas em inglês a biólogos e gestores que queiram juntar forças estando-me atribuída a sequência “Ciência e Negócio para o Desenvolvimento” e Sucessos de Desenvolvimento Africanos. Não surpreenderá pois que, tal como fiz ontem, relacione o TropiKMan com o empenho de Belmiro na internacionalização empresarial todos os azimutes, por um lado, e na ligação entre o saber e a gestão, por outro. Mais, as duas características que encontrei em Belmiro reforçam-se mutuamente, ou seja, na linguagem da política económica, são complementares. Ocorre lembrar que a complementaridade das políticas promove o crescimento não só nas economias avançadas como nas emergentes.

Um dos pontos a reter no referido curso é que a complementaridade não é um “luxo” para os países da OCDE aplicando-se a todos. Quando privava com Belmiro nos Conselhos Consultivos do que é hoje a Nova School of Business and Economics, prestes que está a migrar do ex Batalhão de Caçadores 5 em Campolide para Carcavelos, ele já tinha essa noção intuitiva. Talvez já houvesse aí influência de Alfredo de Sousa, então deputado constituinte pelo PSD! Como referido na publicação de inéditos seus, no prelo, o fundador defendeu no plenário de 16 de Outubro de 1975 a profissionalização da gestão que praticou na Nova e criou em 1988 uma agência de rating com o mesmo fito. Ambos lutaram pela ligação entre saber e gestão num determinado país, de maneira a poder competir à escala global. Recordo jantar com Belmiro na Foz durante a campanha eleitoral de 1991 e interagimos, nem sempre de mansinho, enquanto detive a pasta das Finanças. Lembro-me de que não gostou que declinasse o convite para falar da União Económica e Monetária à Mesa Redonda dos Industriais Europeus (ERT), cuja reunião teve lugar em Lisboa enquanto presidia ao ECOFIN pouco depois de assinar o tratado de Maastricht. Seguiu-se o drama dinamarquês que levou a ERT a publicar ume relatório sobre a crise! Apesar de ter trabalhado depois com o secretário geral da ERT, a gestão do dia a dia tiranizou-me e não fui. Mais uma razão para admirar a capacidade que Belmiro teve de conciliar gestão e saber…

Ainda o vi há uns dez anos num evento da OCDE no Palais des Congrès, sito na pequeníssima Avenue des Portugais, onde ele vinha falar da internacionalização empresarial e eu estava por ter sido o último presidente do Centro de Desenvolvimento. Sorrimos, talvez por sermos portugueses naquela avenida… Como tenho estado a esmiuçar a vida e obra de Alfredo de Sousa, não resisto a evocar assim a memória de um outro homem do norte irrascível e afetuoso, que honrou o nosso país e a cultura lusofóna global, que assim vai caminhando ao lado da ciência e negócio para o desenvolvimento.