Entrevista

Albano Jerónimo, um português entre os Vikings: “Esta série abre os horizontes”

Quinta temporada da série histórica estreia-se dia 3 às 22h no TV Séries. Actor português, o primeiro a entrar na série que “para cada mercado tem um tipo de edição”, levará os vikings “ao Norte de África, Egipto”, na pele do seu marinheiro grego.

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Albano Jerónimo na quinta temporada da série DR
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Katheryn Winnick como Lagertha DR
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A série vai tocar novos territórios, como o norte de África DR
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Jonathan Rhys-Meyers é o bispo Heahmund DR
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Ivan, interpretado por Alex Hogg DR

No domingo, dia 3, regressa uma série que passou de uma ficção histórica de baixo orçamento a pequeno fenómeno mundial. Nela, pela primeira vez, está um actor português: Albano Jerónimo. Na quinta temporada de Vikings, habitará os mares do mediterrâneo e é, a par de Jonathan Rhys-Meyers, um dos novos rostos da série que era centrada na figura da cultura nórdica Ragnar Lothbrok, e que agora se centra nas personagens Lagertha ou Ivar, the Boneless.

Albano Jerónimo completa um ano em que foi Sócrates no teatro, em que fez cinema com Sandro Aguilar ou Carlos Diegues e em que é Miguel na novela Paixão (SIC). Estará também agora no canal por subscrição TV Séries para alguns episódios da série criada por Michael Hirst (Elizabeth, Os Tudors, Os Bórgia) para o History Channel americano.

Não sendo a sua primeira série internacional — o actor de 38 anos teve há dez anos um papel na série espanhola Los Serrano —, explica como trabalhar com estes orçamentos mais folgados se traduz em “liberdade criativa” para os actores. E revela que a série, da qual não era espectador regular, é montada e editada de forma diferente para cada mercado ou continente. A série, produzida na Irlanda, contou com a sua participação em Setembro de 2016, e o seu papel estará no ar em breve, em quatro ou cinco episódios que fazem os Vikings chegar ao Mediterrâneo depois de incursões na Inglaterra e França medievais.

Em 2016, através do programa Passaporte da Academia Portuguesa de Cinema, fez o primeiro contacto que acabaria por colocá-lo em Vikings. Como se processa este casting?
O Passaporte reuniu casting directors de vários mercados e um grupo de 20 actores, dez homens e dez mulheres, para lhes serem apresentados. Nessa fornada tive a felicidade de falar com Frank Moiselle, director de casting dos Vikings, e foi uma relação imediata. Olhou para mim, falámos, a conversa durou dez minutos. [Uma semana meia] depois deste encontro fiz um casting, fiquei. Depois é o processo todo normal: ir à Irlanda fazer provas de guarda-roupa, falar com o realizador, falar com o coach de língua, porque [a minha personagem] falava grego arcaico. Foi um processo que foi ágil e foi consequente.

Esta não é a sua primeira série estrangeira — mas que traços distintivos encontrou numa produção com esta escala?
O que destaco é mesmo a liberdade criativa que este tipo de estrutura de produção fornece ao actor. A facilidade orçamental revela-se, para mim, no meu trabalho, nos departamentos criativos [como a caracterização ou guarda-roupa]. Temos um figurino que pesa quase 15 quilos, temos uma make-up que passa por tatuagens ou cicatrizes, temos uma parte de cabelos que transforma todo um look. Quando, no fim desta patine, nos olhamos ao espelho, 70% do nosso trabalho já está feito. Isto confere-me, no meu trabalho, uma liberdade imensa, imensa. Algo contrário ao que tenho estado habituado, à minha realidade portuguesa — toda a minha educação é feita aqui, com muito orgulho. Contudo, a liberdade criativa lá surge de forma ímpar. É isso que me atrai. É isso que me coloca em sítios que não controlo. É isso que me provoca. É isso que procuro. 

A sua personagem nesta mistura de retrato histórico dos séculos VIII e IX e ficção é Euphemius, um almirante bizantino. Além da questão da língua, que tipo de construção de personagem fez?
É o mesmo método que uso, transversal ao cinema e à televisão: contaminar-me ao máximo com tudo o que seja paralelo — artes plásticas, leituras, cinema, BD. Dentro deste grande caldeirão da minha ideia e daquilo que me é sugerido e pedido, vou cozinhando esta sopa. O meu intuito é sempre colocar vários ingredientes para que no fim ela tenha algum corpo e eu consiga diluir [a personagem] de forma orgânica. Quando se tem uma estrutura como esta produção tem, onde cada departamento criativo — guarda-roupa, maquilhagem — contribui de uma forma tão intensa e precisa para o nosso trabalho, tudo isso já nos contamina de uma forma objectiva e tremenda. Os décors são incríveis. Entramos no plateau e já estamos numa outra zona. Tudo isto tento fabricar e diluir, digerir esta informação e transformá-la no meu corpo e na minha voz. 

Este Euphemius é um político que não se compromete. É algo que está ali a pairar, mas com uma alma muito bela, muito dengosa e facilmente permeável. Na estrutura da série dos Vikings, [ele] serve também para mapear este percurso deste povo ao longo do mundo. O Norte de África, Egipto, é aí que este meu Euphemius, grego, anda.

Que lugar pensa que este papel pode ter no seu percurso, também em termos de visibilidade internacional?
A importância maior é a educação. É mesmo fundamental. Esta profissão é fantástica nessa perspectiva, desta construção do pensamento ao longo da vida, nesta formatação permanente. É o que me interessa, é o que me estimula. Esta série abre os horizontes. É muito interessante chegar a uma série em que um dos realizadores é [também] d’A Guerra dos Tronos, por exemplo, e a primeira coisa que ele me diz é: “Já reparei que és actor de teatro, não vamos ter problema nenhum contigo. Vou explicar-te só o que vai acontecer, onde vais brincar.” Isto já valeu [a pena só por si].

Que lugar tem esta série na actual vaga de ficção dramática que prolifera em tantas plataformas e produções?
O percurso natural da série, tendo em conta que já estão a rodar a temporada seis e já estão a pensar numa sétima temporada, é suficientemente revelador do impacto que tem no mercado e junto do público, que é cada vez maior de temporada para temporada.

É muito interessante perceber que para cada mercado há um tipo de edição — para o americano, para o asiático. Tem que ver com cada país e com o que é permitido ou mais estimulado.  Esmiuçando a coisa... no mercado norte-americano, cenas de sexo, esqueçam. Cenas de sangue e violência, de luta, sim. No mercado árabe, nada de coisas de sangue e violência, mas tudo o que é mais sensual... No mercado europeu consegue-se algo mais equilibrado ou mais próximo da [intenção] original.