Portas avisa: “Não deixem que os populistas ocupem o espaço da mentira”

Ex-líder do CDS alerta para perigo de as redes sociais "colonizarem os partidos".

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Daniel Rocha

Foi em jeito de aviso e até com uma “meditação melancólica” que o ex-líder do CDS, Paulo Portas, alertou para os perigos dos populismos e das redes sociais que já “colonizaram os jornais” e agora tentam fazê-lo com os partidos, tornando-os obedientes “em brigadas de acção rápida”.

Ao final de um jantar-debate na Escola de Quadros do CDS em Peniche – já mesmo depois da meia-noite por causa do atraso de três horas de um avião em que viajava para Lisboa – Portas vincou a necessidade de os moderados reagirem: “Não deixar que os populistas ocupem o espaço da mentira. Acho um bom sinal o que já está acontecer ao Podemos em Espanha. Eram alternativos, interessantes e financiados pela Venezuela e Irão e que pretendiam acabar com a Espanha constitucional e autonómica. Não os deixemos ocupar o terreno, vamos a debate, eles provaram que governam mal e as sociedades precisam deste bocadinho de sossego”.

Perante uma sala de dezenas de jovens militantes da Juventude Popular, o ex-líder do CDS disse mesmo que os “populistas que venderam uma ideia errada da globalização e hostil da emigração” têm de “demonstrar a incompetência quando governam” e “ir à jugular, no melhor sentido da palavra, e dizer: ‘vocês estão errados’”.

Se esta conferência tivesse acontecido há dois anos, Portas estaria mais pessimista. “Os populismos são mais fracos do que há um ano. Lamento dizer, são mais fracos porque governam mal. Se era só para experimentar uma coisa nova, já está experimentado, podem voltar daqui a cem anos”, afirmou, referindo-se a três exemplos que passam por experiências populistas e que “não foram boas”: Estados Unidos, Reino Unido e Catalunha. Nos três casos – começou por explicar- têm três pontos em comum: a absoluta impreparação para governação, a exclusão dos “processos de integração económica” e uma “enorme dificuldade em chegar ao compromisso que é essencial na política”. Se na América de Trump, os “tweets são inversamente proporcionais às leis aprovadas”, no Reino Unido vendeu-se uma ideia de Brexit sem fazer “a mais pequena ideia sobre o divórcio”. Na Catalunha, prosseguiu, “os populistas tinham prometido que nem uma empresa saía” do território e numa semana saíram duas mil, incluindo as que geram mais emprego”.

O ex-vice-primeiro-ministro, agora consultor da Mota Engil e empresário, fez uma distinção entre a natureza das instituições e as redes sociais. E lembrando que ainda hoje gosta de “acordar e sujar os dedos nos jornais”, Portas considerou que as redes sociais depois de colonizarem os “jornais clássicos” – que se “tornaram imitações das redes sociais” -  agora tentam fazê-lo com os partidos políticos, transformando-os “brigadas de acção rápida sobre o que aparece nas redes sociais – sem saber se é verdade ou não” -  e depois serão as instituições”, afirmou, deixando assim uma “meditação melancólica como diria Amaro da Costa”.  

Ainda antes de Portas chegar, Diogo Feio, director da Escola de Quadros, e que o substituiu na primeira parte ao lado do deputado do PP espanhol Jose Garcia Hernandez, porta-voz do partido para Assuntos Externos, considerou que este fim-de-semana é “paradigmático” sobe o populismo em Portugal. “É o populismo do vale de compras”, afirmou, numa referência à oferta feita por uma empresa de estudos de mercado aos participantes num estudo sobre o Governo. Sem ouvir o seu antigo líder parlamentar, o ex-vice-primeiro-ministro quando chegou à sala dirigiu-se a Garcia Hernandez e gracejou (no original em castelhano): “Quanto te pagam por perguntas?”.