Opinião

Só mais dois anos, se faz favor

Não é por acaso que os países do Sul passaram a confiar em Angela Merkel. Foi aprendendo no cargo.

1. “Parem o mundo. A Alemanha está a sair” é o título irresistível da mais recente coluna de Philip Stephens no Financial Times. Dramatiza e ironiza, ao mesmo tempo, a sensação de orfandade que se sente hoje na Europa, mas também para lá das suas fronteiras, quando a chanceler alemã está em dificuldades e pode perder a magia que fez dela não só a líder da Europa, como a líder que sobrava para liderar o “mundo livre”, depois da saída de Obama. Isto quer dizer alguma coisa sobre Angela Merkel, sobre a sua determinação de salvar a Europa de si própria (e da própria Alemanha) e do seu apego aos valores ocidentais, numa altura em que eles parecem estar em venda ao desbarato. Significa também que a paisagem política europeia não nos oferece grande escolha em matéria de coragem política, à excepção de Emmanuel Macron, que chegou em boa hora, que ergueu as boas bandeiras, mas que sozinho não consegue levar por diante a reconstrução urgente que o projecto europeu necessita.

2. Porquê esta “adição” a Merkel? A chanceler até começou bem, quando ganhou as eleições pela primeira vez, em 2005, afastando a coligação SPD-Verdes do poder. Mas não estava preparada para fazer o que era preciso quando rebentou a crise financeira nos Estados Unidos, em 2008. Começou por negar os seus efeitos, rejeitando qualquer intervenção pública. Acabou por ter de injectar biliões de euros na banca (apenas o Reino Unido gastou mais). Quando a Grécia se aproximou da bancarrota, só viu diante dos olhos a famosa cláusula de no bail-out, inscrita nos tratados, que responsabilizava cada país do euro pela resolução dos seus problemas financeiros. Foi uma das cedências de Mitterrand a Kohl, para que o chanceler pudesse “vender” o euro aos alemães, que viam o marco como a sua única bandeira nacional. Acabou por perceber no último minuto que as coisas não eram bem assim. Seguiu-se o contágio da crise da dívida a outros países. Berlim começou por ver aí uma oportunidade para remodelar o euro à sua maneira, incluindo aliviá-lo dos “indisciplinados” do Sul. Foi nessa altura que tudo esteve em causa, até o BCE intervir. Merkel acabou por perceber que a “amputação” da zona euro poderia arrastar com ela o próprio projecto europeu. Fez o que era preciso para afastar esse cenário, mas à custa da “punição” dos mal comportados, com programas de ajustamento brutais, feitos de qualquer maneira, a troco da ajuda financeira. O erro maior que cometeu foi deixar que os alemães acreditassem que os países do Sul apenas se queriam aproveitar do dinheiro dos seus impostos para ir até à praia. A “xenofobia”, versão europeia, abriu feridas que só agora começam a sarar. Mas a verdade é que, com o seu estilo prudente, a chanceler percebeu que tinha de salvar a Europa da sua maior crise de sempre. Contrariando todas as expectativas, não é por acaso que os países do Sul passaram a confiar nela. Foi aprendendo no cargo. Sem ela, não teria havido uma resposta europeia ao nacionalismo agressivo de Putin. Salvou a honra da Europa ao abrir as portas aos refugiados. Vencida, no curto prazo, a batalha do euro, sabe que será preciso percorrer metade do caminho até Paris, se a Europa quiser sobreviver à turbulência mundial. O resultado das eleições de Setembro, apesar da sua vitória, acabou por pôr muita coisa em causa.

3. Para muitos analistas alemães, esses resultados foram o prenúncio do fim de uma era em que a paisagem política alemã se mantivera estável e em que a arte do consenso, imposta pela Constituição da República Federal, continuava a funcionar. Os dois grandes partidos centrais que construíram a República Federal já só têm, juntos, metade do eleitorado. O SPD, com a sua longa história, tem sido o grande perdedor, depois de ter sido o grande reformador (com Schroeder), que conseguiu adaptar a Alemanha à globalização económica. Limitar-se a virar à esquerda já não é suficiente. Mas Merkel não é eterna. Muitas das análises dos grandes jornais alemães insistem em que não faz mal à Alemanha um choque político que acelere a adaptação a outras formas de governo e aceite um certo grau de instabilidade política. “Só mesmo na Alemanha é que ninguém considera possível um governo minoritário”, escreve o Handelsblatt. “Nada seria pior do que a coligação Jamaica”, acrescenta a Spiegel. E tem razão. As divergências entre os partidos à volta da mesa sobre questões fundamentais como a imigração e a Europa eram de tal ordem, que um eventual governo se esgotaria a tentar superá-las. A diferença maior está no FDP, reincarnado pelo jovem Christian Lindner numa versão muito menos liberal e muito mais nacionalista, portanto, muito pouco europeia. A sua estratégia é encostar-se à AfD para lhe roubar espaço. A bandeira contra a imigração foi assumida sem qualquer escrúpulo. Quis manter a sua nova identidade intacta. Saiu.

4. Mas a grande diferença entre a visão que se tem de fora e a dos alemães que votam está em que eles não se sentem em crise e também não estão muito interessados em liderar a Europa, com as responsabilidades inerentes. O que eles sabem é que a economia está em pleno vigor e que o desemprego aproxima-se do pleno emprego. As lojas e as ruas estão a abarrotar de gente, disposta a gastar dinheiro para o Natal, quando os salários sobem e o Governo acumula um enorme excedente orçamental. Não se incomodam se Merkel continuar por mais algum tempo, apesar do seu “pecado” de abrir as portas aos refugiados. Em geral, continuam a gostar da Europa, que lhes permitiu regressar ao concerto das nações civilizadas e recuperar a força da sua economia —desde que não tenham que pagar nada por isso. Há maior desigualdade social? Sem dúvida. Mas há emprego. O mundo ainda aprecia a excelência da produção industrial alemã e os seus carros topo de gama? Sim. Mas por quanto tempo? O escândalo das emissões de carbono falsificadas que afectou a VW não ajudou muito. A morte anunciada do diesel em proveito da electricidade vai exigir uma total adaptação da indústria automóvel alemã. Voar na estrada pode deixar de ser um factor competitivo. A Alemanha é um dos países menos digitalizados da Europa e há a consciência de que é urgente recuperar o atraso. Mas quem é que se vai preocupar com isto quando a vida corre bem? Resta a perda de homogeneidade da sociedade alemã, que prevaleceu durante décadas depois da guerra, em que os imigrantes eram “trabalhadores convidados” e a nacionalidade era definida pelo sangue, que já ficou para trás mas que deixou marcas. A mudança das leis só começou quando Joschka Fischer levou os Verdes até ao governo federal.

5. Pode o SPD dar a Merkel a sua última tábua de salvação? Pode. Desde que não faça o mesmo que fez em 2013, cedendo em toda a linha à chanceler, paralisado pela sua popularidade. Hoje está em melhor condição para fazer valer as suas políticas, perante uma chanceler visivelmente enfraquecida. A Europa será um teste. Se os sociais-democratas não tiverem a coragem de erguer com total convicção as suas bandeiras europeias, levando Merkel a concluir a sua missão de preparar o futuro da Europa com Macron, não ficarão para a História. Existe o risco de alimentar os extremos. Mas não é pela via das cedências que a Alemanha e a Europa se vão salvar.

Depois do colapso das negociações Jamaica, a maioria dos governos europeus faz figas para que volte a ser possível uma “grande coligação”, que assegurará a continuidade da política europeia de Merkel. A Europa ainda precisa da chanceler por mais uns dois anos para concluir as grandes reformas que podem garantir-lhe um futuro. Não é pedir muito.