Editorial

Dois anos, dois ciclos. E o terceiro?

Ironia do destino que esta comemoração aconteça em plena polémica sobre a transferência do Infarmed de Lisboa para o Porto, o último dos casos desta governação.

Faz hoje dois anos que chegou este Governo. E é quase um lugar-comum falarmos de dois ciclos desta governação: o primeiro, o da surpresa; o outro, o segundo, que começou no dia da tragédia.

Ironia do destino que esta comemoração aconteça em plena polémica sobre a transferência do Infarmed de Lisboa para o Porto, o último dos casos desta governação. Porque o sábado de Pedrógão também foi o início dessa história: foi nesse dia que António Costa deu o dito pelo não dito e tirou a Lisboa a candidatura portuguesa a receber a sede da Agência Portuguesa do Medicamento, entregue como prémio à candidatura socialista à Câmara do Porto. Naquele dia foi como agora: sem pré-aviso, sem coordenação, sem grande explicação, passando por cima do que estava feito.

Até àquele dia, nada disso feria este Governo. E não o feria por mérito também — o de aproveitar uma conjuntura, sobretudo o de dar a volta a uma expectativa, levando empresários, investidores e credores a perceber que uma maioria improvável podia dar ao país uma estabilidade necessária. Em ano e meio a economia cresceu, o desemprego baixou, os rendimentos subiram. E a popularidade do Governo aumentou em flecha.

Naquele sábado de Pedrógão, o Governo continuou o mesmo, mas as circunstâncias mudaram. O ambiente de euforia acabou, os portugueses ficaram mais exigentes. E, com isso, as fragilidades desta maioria tornaram-se visíveis — a de um governo de um primeiro-ministro centralizador que tem um ministro (Centeno) e vários secretários de Estado — como me descrevia um socialista que conhece bem António Costa; a de uma maioria de muitos partidos (e muito diferentes) que precisa de muitas conversas até chegar a uma decisão.

Podemos dizer que não são defeitos, é feitio. Mas é um facto que o feitio desta “geringonça” é controlável em momentos de previsibilidade e difícil de gerir quando os factores se alteram.

Verdade seja dita: chegamos ao final da primeira metade da legislatura e já lhe vemos um fim. E nem a sequência de tragédias, nem a proliferação de pequenos casos conseguiu tirar os resultados a esta maioria. Nem a sua essência, muito visível neste Orçamento, cuja aprovação está em curso: a de dois partidos que precisam de bandeiras para mostrar e as reclamam; e a de um outro que precisa dessa reivindicação para dar mais um pouco — dentro dos limites das regras europeias.

Daqui até Janeiro, quando o PSD eleger o seu novo líder, vamos provavelmente ver o Governo como vemos o caso Infarmed: em gestão de situação, mais preocupado com o efeito do dia de hoje e menos com a coerência do futuro. Depois, com um novo protagonista e o aproximar da meta, falaremos sobre o terceiro ciclo.

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