Ter um mestrado protegeu jovens dos efeitos da crise sobre os salários

Acréscimo salarial manteve-se estável ao longo da última década, em contraste com descida constante nas licenciaturas. Processo de Bolonha reconfigurou benefícios do ensino superior.

BLR bruno lisita
Foto
BLR bruno lisita

A imagem é a de “um pára-quedas”: “A descida dos salários para uma pessoa com mestrado foi muito menor relativamente à que ocorreu para quem tem o ensino secundário ou uma licenciatura”. A metáfora e a conclusão são do professor da Universidade de Aveiro Hugo Figueiredo, que é um dos autores de Benefícios do Ensino Superior, um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que é apresentado, esta quinta-feira, em Braga.

Os autores analisaram os salários de profissionais com dez ou menos anos de experiência – a população jovem, portanto – entre os anos de 2006 e 2015. Durante esse período, os salários reais desceram para todos os trabalhadores e os diplomados do ensino superior não foram excepção. Em média, uma pessoa com formação universitária ganhava 1300 euros mensais há dois anos, menos 100 euros por mês do que dez anos antes.

Os mesmos dados mostram que a quebra de rendimentos para os diplomados do ensino superior se concentrou particularmente em três anos, 2010 a 2012, os anos em que vigorou o programa de austeridade da troika.

Mas é olhando para os prémios salariais – que medem o dinheiro que um profissional ganha a mais pelo facto de ter feito uma determinada formação – que se percebe o efeito de “pára-quedas” que Hugo Figueiredo aponta como uma das principais conclusões do estudo feito para a FFMS. É que, se é verdade que os salários reais baixaram para toda a gente, incluindo os diplomados, o prémio salarial para quem tem um mestrado manteve-se relativamente estável, sempre ligeiramente acima dos 80% ao longo dos dez anos analisados. E no pico da crise, em 2010, chegou até aos 90%.

Ou seja, uma formação superior, neste caso um mestrado, continuou a ser garantia de salários mais elevados do que os auferidos pela generalidade dos profissionais, mesmo nos anos da crise.

Salários dos licenciados foram mais prejudicados

A outra conclusão do estudo é que, em sentido contrário ao que aconteceu com os detentores de um mestrado, os prémios salariais para os licenciados desceram constantemente, entre 2006 e 2015. O ponto de partida era o mesmo dos mestrados (80%), mas, no final desse período, ficava 30 pontos percentuais abaixo.

A descida dos prémios salariais nas licenciaturas era “expectável”, dada a massificação do ensino superior e o facto de Portugal ser um dos países com um prémio salarial mais elevado para quem tem uma formação superior, como tem sido mostrado nos relatórios anuais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), classifica Hugo Figueiredo.

No entanto, a manutenção do mesmo valor no caso dos mestrados “é surpreendente”. “Como os mestrados também se generalizam, podíamos esperar que houvesse também alguma queda do prémio salarial”, explica o professor da Universidade de Aveiro.

Para esta divergência entre os prémios salariais de licenciaturas e mestrados muito contribuiu o processo de Bolonha, que começa a ser implementado precisamente em 2006, ano do início desta análise. Fruto dessa reforma europeia as licenciaturas foram, de uma forma geral, encurtadas de quatro ou cinco anos para primeiros ciclos de três anos.

Depois disso, por um lado, o acesso a muitas profissões (como a generalidade das engenharias, medicina ou enfermagem) passou a exigir um mestrado obrigatório. Por outro, “as empresas passaram a assumir em certa medida que o actual mestrado representa uma parte da remuneração da anterior licenciatura”, contextualiza Miguel Portela, que dá aulas na Universidade do Minho e é outro dos autores de Benefícios do Ensino Superior.

Desigualdades salariais 

A desigualdade salarial que estes investigadores encontraram hoje entre licenciados e mestrados era a que se encontrava, há 30 anos, entre diplomados e não diplomados. Miguel Portela dá o exemplo da banca onde, até meados dos anos 1990, tarefas de atendimento ao público, por exemplo, eram desempenhadas por pessoas com qualificações até ao 12.º ano. As alterações tecnológicas no sector e também o aumento da oferta de diplomados faz com que essas tarefas passassem a ser ocupadas por licenciados.

Esta reconfiguração dos benefícios do ensino superior não mudou, porém, a conclusão central do estudo patrocinado pela FFMS. Os investigadores não só concluem que os diplomados – sejam mestres ou licenciados – ganham mais dinheiro do que quem não tem formação superior, como também acedem ao que classificam como “melhores empregos”. Isto é, têm maiores probabilidades de assumir um cargo de supervisão e menos probabilidades de terem horários de trabalho alargados. 

O estudo apresentado esta quinta-feira na Universidade do Minho salienta ainda um desempenho mais favorável dos diplomados do ensino superior no mercado de trabalho face ao profissionais com os mesmos anos de experiência mas com formações inferiores. Assim, quem tem formação universitária tem menos probabilidade de ficar desempregado – 2,5% contra 3,2% de quem não foi além do ensino secundário –, encontra trabalho mais rapidamente quando cai em situação de desemprego e tem menos probabilidades de desistir de encontrar trabalho e tornar-se inactivo. 

Daí que Hugo Figueiredo estranhe a discussão recorrente sobre as mais-valias de uma formação superior. “O debate tem sido contaminado pelo passado. É verdade que um diplomado hoje não ganha o mesmo que o diplomando de há 20 ou 30 anos. Mas nessa altura era uma percentagem ínfima de portugueses que concluía o ensino superior”, contrapõe. 

“Estudar no ensino superior continua a compensar claramente”, defende este professor da Universidade de Aveiro. E isso é verdade não apenas ao nível salarial, como noutras dimensões como a saúde e a participação democrática que são explorados nesse trabalho (ver texto ao lado).