Opinião

Lisboa não é Las Vegas

A União Europeia não deve assistir passivamente a predação e asfixia digital dos grandes players do Vale do Silício.

Engraçado! Exatamente nesta semana em que se realiza o Web Summit o calendário aponta coincidentemente a passagem dos cem anos da revolução russa. Aquela que tinha foice e o martelo como símbolos e como palavra de ordem “todo poder aos sovietes”.

De certa forma os participantes da Web Summit falam em revolução como os revolucionários de 1917; mas duvido que alguém neste meio concorda com a perspetiva de que a “violência é parteira da história”, frase basilar dos que visionavam e justificavam a ditadura do proletariado como a ponte em direção à utopia igualitária comunista.

Mas também não nos enganemos. A inovação e a transformação digital dos negócios e da sociedade na União Europeia não deve seguir exatamente a ideia da “mão invisível” de Adam Smith, traduzida no liberalismo sem rédeas, onde a raposa acaba tomando conta do galinheiro.

“Aqui é a Europa e aqui nós somos diferentes... se precisar intervir os governos assim o farão, pois não é admissível a lei das selvas”. Assim avisa curto e grosso Margrethe Vestager, comissária da União Europeia para Concorrência.

Vestager dá o tom de políticas públicas com sotaque europeu ao Web Summit, que já ganhou o status de importante evento mundial. Faz perguntas pertinentes e não cai na conversa de que inovação deve seguir no piloto automático o caminho da “destruição criativa” e que acaba por jogar fora a água do banho com o bebê.

Vestager, simpática política dinamarquesa, fala manso e joga duro com o Vale do Silício. Que o digam Google e Facebook, obrigados a pagar multas bilionárias por práticas concorrenciais desleais em solo da UE, acusados de sufocar concorrentes que emergem dentro de um mercado que tem mais de 500 milhões de pessoas, que é maior que América do Norte, Japão e Austrália juntos.

É ela a política e presença de governo mais marcante e que dá um tom totalmente diferente a esse evento dos que ocorrem nos EUA, tipicamente em Las Vegas, uma cidade irreal montada como palco de jogo e de convenções e eventos corporativos de estética bem ao gosto da família Trump.

Por trás de uma conversa aparentemente de defesa da livre concorrência e da inovação que se orienta totalmente para as necessidades dos clientes, mega empreendedores do Vale do Silício querem deter a sua vantagem competitiva da mesma forma que quem sobe a escada e retira para que ninguém mais suba. Google, Facebook, Amazon, Airbnb, Uber e outros no fundo querem deter o monopólio e aniquilar qualquer concorrente que levante a cabeça.

A União Europeia faz muito bem em escrutinar e colocar uma visão dos interesses da sociedade como um todo. É possível e necessário achar um meio termo entre a mão invisível de Adam Smith e a mão pesada e autoritária da China.

No momento em que a era Trump sinaliza um recuo dos EUA em termos de protagonismo global responsável e em que a China se lança como o superpower do século XXI, a Europa passa ser a herdeira e guardiã dos valores do Iluminismo, da democracia e dos direitos humanos. É uma missão histórica deste continente que poderá fazer com que os tempos que vivemos sejam conhecidos no futuro como o início da Renascença Digital ou então da Barbárie Digital. Ricardo Neves é luso-brasileiro e vive em Lisboa