Entrevista

“Mesmo hoje, minorias nascidas na Europa são ‘imigrantes de segunda geração’”

A longa história dos impérios não é uma matéria a ser resolvida de forma individual pelas nações europeias, antes também pela Europa como um todo, recorda a professora de História Contemporânea Elizabeth Buettner.

Elizabeth Buettner é professora de História Contemporânea na Universidade de Amesterdão. O seu último livro, Europe after Empire: Decolonization, Society and Culture (2016), é uma análise comparada sobre como várias sociedades europeias lidaram com os turbulentos fins dos impérios, e com as suas consequências. Nesta entrevista recorda-nos porque é fundamental estudar esse passado imperial, desde logo para compreender o modo como este se repercute no nosso presente como sociedade pós-imperial.

Argumenta que as memórias “selectivas” persistem em várias sociedades pós-imperiais, traduzindo-se na combinação entre o silenciamento dos passados coloniais e imperiais e a cacofonia estridente de memórias e narrativas sobre estes. Como operaram historicamente estas dinâmicas?
Independentemente de dirigirmos o nosso olhar para o Reino Unido, para França, Portugal ou qualquer outra antiga metrópole imperial, conseguimos facilmente identificar momentos em que esses passados emergem nos debates públicos. Por vezes, isto é provocado por determinadas publicações académicas, a circulação de testemunhos sobre o passado, ou o surgimento de romances ou filmes que se debruçam sobre temas imperiais. Debates políticos ou batalhas judiciais em que se reabrem casos de violência colonial, sujeitos a um intenso escrutínio, podem também gerar regressos ao império, da mesma forma que eventos comemorativos de datas simbólicas. Um aspecto curiosíssimo das memórias imperiais selectivas tem que ver como alguns temas recebem quase toda a atenção, frequentemente porque contam uma história mais afirmativa do passado nacional. Portugal não é o único país que se vem centrando no período relativamente precoce dos seus “Descobrimentos” marítimos que desaguou num expansionismo global e tornou uma nação pequena tão importante para a história global: se olharmos para os Países Baixos, estes ainda reservam um lugar de orgulho para a sua VOC, ou Companhia das Índias Orientais, elemento central da herança nacional enquanto marco maior da “Idade de Ouro” do século XVII. 

Como vão essas dinâmicas evoluir no futuro, à medida que os impérios fiquem cada vez mais distantes no tempo?
O apelo de elevar inícios pujantes e “idades de ouro” em detrimento de finais enfraquecidos e uma contracção do seu poder global em meados do século XX sobreviveu a renúncias ou retiradas contrariadas do império, e afigura-se provável que permaneça parte dos cânones das culturas nacionais num futuro próximo. Mas muitas das reapreciações públicas dos passados imperiais demonstraram ser efémeras e incompletas. O Reino Unido da década de 80, por exemplo, testemunhou o surgimento de uma série de livros, filmes e exposições que encorajavam ‘Raj-nostalgia’ – memórias saudosas do Raj britânico na Índia que desapareceu em 1947, demasiado cedo para o gosto britânico. Nestas abundava o orgulho no que era retrospectivamente visto como boas intenções e valiosos feitos e a reivindicação de que prevaleciam, globalmente, boas relações entre colonizadores e colonizados. Interpretações afirmativas e nostálgicas assumiam precedência sobre o acto de mergulhar no racismo, na arrogância europeia, nos seus interesses egoístas e exploração económica, na brutalidade com que se suprimiu a resistência aos movimentos anticoloniais.

Há, portanto, um desequilíbrio incontornável na relação entre as histórias e memórias do império?
Muitos aspectos do passado imperial, mesmo que tenham aparecido à superfície do debate público, rapidamente desapareceram de cena. A disponibilidade da atenção pública para o passado imperial demonstrou ser altamente volúvel: a momentos intensos de celebração pós-imperial – ou, menos frequentemente, de condenação – seguem-se recaídas de silêncio e esquecimento.

Como é que os especialistas podem contribuir para um debate sério, fundamentado e menos volátil?
O desafio não passa apenas por captar a atenção do público, mas também por mantê-la, e encaminhá-la para novas direcções. Os historiadores podem contribuir substancialmente tanto dentro como fora da academia, ao providenciar descrições equilibradas que resistam a versões parciais e frequentemente acríticas da história imperial. Podemos insistir que é fundamental uma atenção rigorosa ao registo histórico, recolher novas provas e de dar espaço a perspectivas há muito negligenciadas, e ser cautelosos em relação à “sabedoria” feita e a versões branqueadoras das histórias imperiais que são tidas por “senso comum” (pelo menos para muitos europeus, ainda que não necessariamente para as populações que foram colonizadas!).

Após décadas de promoção, nomeadamente pelo Estado, de um “nacionalismo imperial”, as tentativas de evocar os aspectos menos agradáveis do colonialismo deparam-se com fortes críticas. Sustenta-se, por exemplo, que há um risco de anacronismo histórico nessas tentativas. Como interpreta esta situação?
As vozes críticas têm muito mais dificuldades para dominar o espaço mediático ou político. Isto resulta, pelo menos em parte, da posição social e do “capital cultural” dos que participam nas discussões e nos debates: quão provável é, por exemplo, que as visões e experiências das populações desfavorecidas que vivem lá longe em África, na Ásia ou nas Caraíbas – ou até das minorias étnicas originárias das ex-colónias que agora vivem na Europa – atinjam uma visibilidade comparável, nos debates nas sociedades europeias, ao de grupos sociais e perspectivas muito mais poderosos? Muitos indivíduos e grupos nunca lograram chegar ao palco onde se desenrola o debate, desde logo aqueles cujas experiências e visões da história contradizem as narrativas já formadas que olham para o império através de um prisma essencialmente positivo. As suas vozes são tradicionalmente ouvidas em círculos mais pequenos, por oposição aos nacionais.

Está optimista quanto à possibilidade de estas reapreciações críticas dos passados imperiais chegarem a um público mais alargado, durante anos objecto de várias formas de apologia da benevolência imperial?
Se isto pode sugerir que há uma nova vontade de abordar o lado negro do colonialismo, o império continua a ter muitos defensores. Mesmo que aspectos ou episódios particulares possam ser reconhecidos como “maus“ – da escravatura à tortura na era da descolonização –, eles podem, ainda assim, ser tratados como aberrações ou excepções que provam o que entendem ter sido a regra. Boas intenções, “oferendas” como as infra-estruturas de comunicação, escolas e hospitais, e alegadas políticas progressistas que tinham em mente os melhores interesses dos colonizados podem ainda ser celebradas desde que dissociadas dos aspectos mais repreensíveis. Um punhado de vilãos, fenómenos ou momentos podem, desta feita, ser criticados robustamente, ao passo que a maioria dos europeus que se envolveram nos projectos coloniais são protegidos ou poupados à vergonha, se não mesmo heroicizados. A este nível, e apesar das visões críticas, o colonialismo ainda pode ser tido como parte galvanizadora da “história colectiva” das nações europeias; feitos, tanto reais como imaginados, podem continuar a ser pacificamente celebrados, e a possibilidade da afirmação de uma consciência conturbada atenuada.

A “diversificação da diversidade” é uma das características mais significativas das sociedades europeias contemporâneas, afectando sobremaneira as políticas de identidade. Como é que esta se relaciona com as diversas trajectórias imperiais?
Em grande parte da Europa ocidental, as sociedades multiculturais que hoje existem devem muito dos seus contornos às suas histórias imperiais. Estas englobam não apenas os numerosos grupos de origem europeia que regressaram do império, tais como os retornados portugueses de África ou os pied-noirs franceses que regressaram da Argélia. Engloba também as populações que constituem as minorias étnicas com ascendência em África, na Ásia e nas Caraíbas. O seu número cresceu dramaticamente após a Segunda Guerra Mundial: populações provenientes de colónias subdesenvolvidas dirigiram o olhar para metrópoles situadas no Noroeste da Europa em busca de trabalho e oportunidades sociais. Estas últimas, por sua vez, estavam a recuperar e a reconstruir-se após os anos de guerra. 

E como lidaram com esse fenómeno?
Durante algum tempo, o Reino Unido, a França, os Países Baixos, juntamente com Portugal, facilitaram a imigração interna proveniente das suas colónias através de políticas que transformaram “súbditos” em “cidadãos”, independentemente da raça – um meio para justificar a continuação do império por via de gestos de inclusão, num período em que as reivindicações de descolonização eram cada vez mais impossíveis de ignorar. Apesar de os países europeus terem beneficiado extraordinariamente do trabalho migrante de origem colonial, as políticas de cidadania inclusivas foram substituídas por medidas que reforçavam a exclusão depois de a descolonização se ter concretizado. As minorias étnicas pós-coloniais que à época residiam na Europa estavam para ficar, mas sofreram os efeitos do racismo e foram largamente tratadas como cidadãos e cidadãs de segunda classe ou como “estrangeiros com um passaporte” que, afinal, não mereciam. 

Pode-se então falar de uma persistência subterrânea das políticas da diferença imperiais após a descolonização?
Muitos europeus revelaram-se resistentes a abandonar noções de diferença racial profundamente impregnadas ou sobre a sua própria superioridade inculcadas ao longo das duradouras histórias imperiais. Africanos, asiáticos e caribenhos eram difusamente entendidos como “outsiders” raciais e culturais, independentemente da sua nacionalidade ou mesmo local de nascimento. Mesmo hoje, minorias nascidas na Europa são amiúde popularmente tidas como “imigrantes de segunda geração” – um non sequitur exemplar, mas, ainda assim, um que retoricamente lhes nega a plena pertença à nação.

As hierarquizações raciais ou socioculturais imperiais condicionaram as políticas de acolhimento e da sua apreciação a um nível popular?
Os argelinos em França eram amplamente temidos como inassimiláveis que transportavam consigo traços culturais indesejáveis ou até mesmo perigosos, em particular aqueles vistos como indissociáveis do islão. As minorias muçulmanas receberam, de longe, a apreciação mais negativa, e não apenas em França; com o tempo, outros grupos religiosos minoritários (incluindo os hindus e sikhs no Reino Unido) e minorias étnicas cristãs acabaram por ser vistos como muito menos preocupantes no que dizia respeito ao seu impacto nas culturas nacionais, mesmo que continuassem a experimentar formas de racismo. Os grupos estrangeiros europeus eram frequentemente os menos debatidos, e também regularmente considerados os menos problemáticos. Dito isto, mudanças nas atitudes começaram a tornar-se visíveis com o alargamento a leste da União Europeia em 2004 e 2007. O referendo do “Brexit”, de Junho de 2016, tornou claro que o pico de migração europeia, em especial do Leste europeu, fez de muitos britânicos hostis à pertença à União Europeia.

A descolonização global e o processo de integração europeia ganharam um substancial impulso histórico praticamente ao mesmo tempo, mas a interdependência entre ambos tem sido frequentemente ignorada. Como é que estes se relacionaram? 
A Comunidade Económica Europeia, que ganhou a sua forma na década de 50, era composta por seis membros fundadores, e todos eles, com a excepção do Luxemburgo, caracterizavam-se por um passado, ou mesmo um presente, no qual despontava o seu papel de construtores de impérios fora da Europa. A Alemanha perdeu as suas colónias em África e no Pacífico na ressaca da Primeira Guerra Mundial, e a Itália as suas possessões no Norte de África como resultado da Segunda Guerra; os Países Baixos, apesar de terem sido forçados a retirar da Indonésia em 1949, ainda detinham territórios caribenhos no âmbito do reino; a Bélgica estava determinada a manter a sua presença no Congo e a França continuava comprometida com o seu império – que tinha sido renomeado “União Francesa” – bem depois de a sua guerra na Indochina ter redundado numa retirada em 1954. Quando a Comunidade foi fundada em 1957, os seus membros ainda governavam várias populações ultramarinas; mais do que isso, em muitos casos, os Estados-membros tinham transformado as “colónias” em “províncias ultramarinas” da própria nação. Por muito que isso pareça estranho hoje, a Argélia não era oficialmente uma colónia, antes parte de França. Isso quer dizer que a longa guerra argelina foi combatida também no seio da CEE e que a subsequente independência do país em 1962 causou literal e imediatamente uma diminuição substancial do território compreendido pela comunidade.

Entende, pois, que as narrativas institucionais e políticas sobre a integração europeia têm frequentemente negligenciado partes da sua história?
O projecto europeu não consistia simplesmente no esforço de preservar a paz após a Segunda Guerra Mundial e o fascismo; no fim de contas, a forma como os seus Estados-membros se comportaram com as populações coloniais foi tudo menos pacífica quando se tratou de tentar preservar ao máximo a sua capacidade de projecção global. As nações colonizadoras europeias envidaram esforços para preservar tanto quanto podiam dos seus impérios durante os anos 50, mas assim que a descolonização em larga escala se tornou incontornável, excluir impérios decadentes e sonhos falhados da história da integração europeia tornou-se demasiado fácil e apelativo. Depois de a CEE estar constituída e em funcionamento, entraram novos membros que haviam sofrido uma mutação: passaram de corações e centros nevrálgicos de distantes e extensos impérios a Estados relativamente pequenos numa ordem mundial dominada pelos Estados Unidos da América e a União Soviética.

O caso português é, a este propósito, muito interessante. O que o caracteriza?
Se a CEE foi considerada uma alternativa menor e desprestigiante para um Reino Unido que tinha perdido praticamente todo o seu império à data da adesão, em 1973, o caminho trilhado por Portugal até à adesão foi decididamente diferente. Portugal tornou-se estado-membro em 1986, aproximadamente uma década após a queda do Estado Novo ter provocado uma descolonização tardia em África e a democratização na metrópole. Fazer parte do que foi pouco depois rebaptizada como União Europeia era economicamente atractivo e a cereja no topo do bolo da sua recente transformação política. Ainda assim, Portugal combinou o seu entusiasmo europeu com um persistente interesse no vintage imperial mundo lusófono, como se pode conferir pela prioridade que atribui à CPLP e, em particular, ao Brasil.

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Tarrafal: prisão para presos políticos de Portugal e para nacionalistas de Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola

Podemos considerar, não apenas no caso português, que a história imperial e colonial é uma matéria central na imaginação política do presente e do futuro?
Os Estados pós-coloniais europeus continuam a guiar-se por orientações geopolíticas que recuam aos tempos coloniais e que às vezes coincidem, outras competem com identificações com a Europa. A longa história dos impérios não é uma matéria a ser resolvida de forma individual pelas nações europeias, antes também pela Europa como um todo. O imperialismo foi um fenómeno transnacional que permaneceu como parte incontornável dos primeiros anos da integração europeia. As relações estabelecidas com e entre as sociedades multiétnicas e pós-coloniais europeias só beneficiarão destes esforços, bem como as relações estabelecidas entre a Europa e Estados pós-coloniais noutros continentes.

A doutrina do luso-tropicalismo tem ainda uma poderosa ressonância no seio da sociedade portuguesa. A crítica pública à excepcionalidade portuguesa é muito menos vibrante do que noutras sociedades. Que factores mostraram ser mais decisivos para as diferenças entre os vários espaços nacionais?
Ironicamente, a forma como as várias sociedades europeias apreendem a excepcionalidade das suas histórias imperiais, das suas atitudes face à diferença racial ou cultural ou ambas é o exacto oposto de qualquer noção de excepcionalidade. Proclamações resolutas de que o seu próprio império foi menos racista e mais benevolente e “tolerante” do que aqueles governados por outros europeus podem facilmente ser rastreadas quer tentemos olhar para britânicos, franceses, portugueses ou qualquer outro exemplo nacional. Contrariar glorificações do império e das relações raciais (pós)coloniais continua a ser um processo muito desequilibrado e desigual para onde quer que olhemos.

Muito trabalho está ainda por ser feito, se queremos que os impérios e as suas trajectórias sejam reconhecidos nestes tempos pós-coloniais. Esta é uma empresa para a qual os historiadores podem contribuir, assim como os Estados, os media, e o público em geral ao exigir – e contribuir para – um tratamento mais completo e equilibrado do que actualmente se verifica. Fazê-lo significa, de facto, olhar de forma mais circunspecta para as histórias nacionais de construção, gestão e retirada dos impérios, bem como além-fronteiras, para o que outros impérios fizeram ou não fizeram nas suas possessões ultramarinas. Trata-se também de examinar cuidadosamente de que modo as culturas imperiais passadas ainda reverberam na Europa, principalmente no que concerne a ideias sobre a diferença racial e étnica que mantém grupos minoritários numa situação de acentuada desvantagem. Uma história comparada não deve tentar julgar, de forma simplista, qual dos registos nacionais na obra de colonizar ou de construir sociedades multiculturais pode ser considerado “melhor” ou “pior”, antes como criaram a Europa do presente.

Os autores são investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Esta entrevista integra a Série História(s) do Presente, para acompanhar ao longo de doze meses, no primeiro domingo de cada mês, no P2, caderno de domingo do PÚBLICO