Opinião

Carles e Emmanuel sonham

Carles Puigdemont e Emmanuel Macron têm, ambos, sonhos sobre a Europa (já agora, com relevância para Portugal), que têm vendido aos respetivos eleitorados. Acusados de arrogância e húbris, ambos se vêem como protagonistas, se não heróis, na eventual concretização desses sonhos. Ambos atribuem a esses sonhos um posicionamento vanguardista, à frente do seu tempo, e disruptivo seja em relação ao status quo, seja em relação ao entendimento central da generalidade da população, seja em relação ao consenso político vigente. Ambos têm como objetivo fundamental desses sonhos a soberania. Ambos julgam ter possibilidade de avançar as suas sonhadoras agendas com base em configurações político-partidárias únicas e inovadoras.

A diferença entre os sonhos de ambos é pois de tom: entre as sombras de Puigdemont, contra Espanha, e as luzes de Macron, a favor da Europa.

Puidgemont sonha com uma Europa que permitiria a afirmação dos mais recalcados e sectários nacionalismos, tentando confundir os catalães. Como se forte identidade cultural, eventualmente nacional, se cingisse ao Estado-nação.  Como se a primeira estivesse dependente de ter Estado, e como se não houvesse tantos com tantas nações dentro. Como se o último não estivesse em fase terminal na União, pelo menos, desde Maastricht. E como se a União não percebesse como disso depende o cumprimento da sua promessa de paz e prosperidade eternas — tanto mais quanto, hoje, em parte pelas sombras de outros, se encontra ainda bloqueada.

Já Macron sonha com uma Europa desbloqueada. Aos medos, responde com sonhos, mesmo que não passem disso. Aos problemas, com propostas, mesmo que incompletas. Às dúvidas, com respostas, mesmo que insuficientes.

Puidgemont, a dado momento — desde o início? — assumiu que seria ele a concretizar o sonho. “Independência, independência, independência”, não necessariamente por esta ordem, seriam as prioridades do seu Governo – terão sido as do seu percurso, do seu sonho. Sem dúvidas, sem mas, a (suposta) independência seria ele a proclamá-la, porque se não, quem?

Macron, como Puidgemont, não se assume cavaleiro andante. Mas explica a sua necessidade: para que o sonho europeu, materializado em respostas às migrações, ao envelhecimento da população, às alterações climáticas, avance, urge “desenvolver uma nova forma de heroísmo político”, que possa protagonizar uma “grande narrativa”. Apesar das reservas que possamos ter por cá quanto a “heróis” e “narrativas”, não se pode contestar que sem eles, dificilmente não passará aquele de um sonho bom.

Puidgemont acha-se herdeiro de uma linhagem que precederia os poetas que com uma interpretação própria da História inventaram a Catalunha enquanto nação no séc. XIX. Partilha com eles, certamente, a tendência para uma interpretação própria da História e do seu sentido, mas também a ideia de que a sua interpretação “vanguardista” só não é seguida por todos quantos se podem considerar catalães por distração ou, claro, traição — embora, obviamente, o negue e se reclame representante da esmagadora maioria (os tais 47%) do povo.

A interpretação de Macron da História não tem nada de próprio. No entanto, a do seu sentido imediato tem: para cumprir a “promessa de paz, prosperidade e liberdade” da União Europeia, não bastam as hesitações infindas entre advogados, diplomatas e técnicos para tudo ficar na mesma, mas antes, é preciso quebrar tabus nacionais, o imobilismo de Bruxelas, e “acordar” as ambições europeias de todos. E sem medo das conversas difíceis: Macron recorda que a dada altura da crise do euro, ouvira, numa das reuniões de alto nível de então, que se não poderiam realizar cimeiras só de países do Euro porque se poderiam ofender os britânicos ou os polacos — 5 anos depois, ambos estão mais longe da Europa do que nunca. Macron sabe que uma visão tão — verdadeiramente — progressista para a Europa não é consensual nem no seu país, nem no resto da Europa. Mas a ideia é clara: se não houver um “herói” para começar, quem o fará? Merkel concorda e apoia totalmente — em privado.

Mas a dissemelhança entre as distintas visões do mundo que os respetivos sonhos implicam é sublinhada por uma palavra pouco mágica que ambas as retóricas partilham: soberania. Puigdemont acha que precisa de muros em torno da Catalunha para garantir a soberania do seu povo — soberania em relação a inimigos que, aquém e além Pirinéus, há muito só existem nas cabeças divisionistas de alguns. Macron percebe que o que o seu e os outros povos necessitam é de derrubar os muros que ainda existem na Europa pós-nacional (mesmo que não pré-federal), partilhando as várias soberanias para poder assegurar a soberania de todos, europeia, no contexto global. Macron percebe, a propósito de muros, que não é Trump que a vai defender. Puidgemont não percebe, ou finge não perceber, porque é que só Putin apoia o seu projeto de “sonho”.

Macron mostrou as verdadeiras credenciais de sonhador — ou de herói? — ao montar uma plataforma partidária praticamente do zero. Beneficiou, claro, de uma conjugação particular de descréditos vários nos partidos tradicionais franceses, mas mesmo sabendo delas de antemão, alguém acreditaria que sairia vencedora tal plataforma de independentes e dissidentes, unidos num backronym pelo sonho europeu? Puidgemont emergiu de um contexto de “batatada” geral no pós-Artur Más com uma “geringonça” muito mais desengonçada que a bem-oleada máquina governativa lusitana: é que entre Carles, farto de pagar pelos pobretes de Badajoz, e Anna Gabriel, só mesmo o ódio à Rojigualda os podia unir.

E é assim que, em Girona, se a retira permanecendo, solitária, a Senyera. No sonho de Macron, espalham-se, múltiplas e juntas, as estrelas da União.