Opinião

O vinho português a partir das escolhas de Jancis Robinson

A mais influente jornalista de vinhos deu a conhecer esta semana os dez vinhos portugueses que considera mais marcantes. Metade são do Douro.

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O Barca Velha 1999 é um dos vinhos escolhidos por Jancis Robinson Nelson Garrido

Jancis Robinson, a reputada crítica de vinhos inglesa, colunista no Financial Times e na portuguesa Revista de Vinhos, divulgou esta semana os 10 vinhos portugueses que mais a marcaram na última década. Metade são do Douro: quatro tranquilos (Barca Velha 1999, Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2015, Niepoort Batuta 2007 e Poeira 2011) e um fortificado (Graham’s Single Harvest Tawny Port 1972). Os restantes são o Luís Pato Vinha Barrosa 2005 (Bairrada), o Quinta dos Roques 2007 (Dão), o Soalheiro Primeiras Vinhas 2016 (Vinhos Verdes), o Bojador Vinho de Talha 2015 (Alentejo) e o Barbeito Ribeiro Real Tinta Negra Mole Lote 1- 20 Years.

Nas redes sociais, como sempre acontece com estas escolhas, as reacções oscilaram entre a perplexidade, a crítica contundente e o aplauso contido. Tudo menos unanimidade. Ainda bem. A palavra de Jancis Robinson é uma das mais respeitadas do sector. Tem vários livros escritos e só os menos conhecedores ou mal intencionados podem contestar os seus conhecimentos técnicos e a sua capacidade de prova. Mas as suas escolhas são as suas escolhas. Reflectem, acima de tudo, o seu gosto pessoal, nada mais. Se questionassem Sarah Ahmed, que trabalha para Jancis Robinson e escreve sobre vinhos portugueses, de certeza que escolheria um top ten totalmente diferente. E o mesmo aconteceria com qualquer crítico português.

Aqueles são os dez vinhos que mais marcaram Jancis Robinson nos últimos dez anos. Não significa que sejam os dez melhores vinhos portugueses. Este pormenor faz toda a diferença. Se Jancis os apresentasse como os melhores, aí, sim, ficaria mal na fotografia. Porque bastaria colocar o Graham’s Single Harvest Tawny Port 1972 em confronto com os tawnies velhos Scion (Taylor’s) ou Ne Oublie (Graham’s), por exemplo. Neste caso, nem sequer fazia sentido invocar a “opinião pessoal”. Seria  omo comparar um quadro de Graça Morais com um de Van Gohg. O Scion e o Ne Oublie são de um nível muito superior. E não são os únicos. O mesmo exercício poderia ser feito também com o Madeira seleccionado.

De todo o modo, são dez grandes vinhos. Se não merecem consenso é porque, felizmente, já começa a ser difícil fazer um top ten dos vinhos portugueses. A qualidade tem subido muito e o número de vinhos de nível mundial é cada vez maior. O importante é Jancis Robinson falar do vinho português — e nisso ninguém lhe pode apontar nada. A master of wine inglesa tem sido uma das principais divulgadoras do vinho português em Inglaterra e no mundo. Se os vinhos portugueses tranquilos continuam com dificuldades no mercado inglês e noutros mercados mais evoluídos é porque ainda têm uma história demasiado curta. Não é por falta de promoção e de qualidade, embora também tendamos a exagerar os nossos méritos. Fazemos grandes vinhos, mas há outros países que fazem ainda melhor e há muito mais tempo. É importante não bebermos apenas vinho português, para não cairmos facilmente no discurso nacionalista ridículo de que nós é que somos os melhores do planeta.

A qualidade geral do vinho português é muito boa face, sobretudo, ao que custa. Nesta relação, é quase imbatível. O problema é ser demasiado barato. E não são os vinhos baratos que fazem o prestígio de uma região ou de um país. Daí que o desafio seja vender vinhos cada vez melhores a um preço mais alto.

Em 2004, no seu relatório “Porter 2 - Estudo de Estratégia e Marketing - Sector do Vinho 2010”, o economista Michael Porter já defendia que os produtores portugueses deviam abdicar dos segmentos mais baixos e apostar em vinhos para exportação com um preço final entre os oito e os 14 euros, associados a embalagens mais cuidadas. Isto em 2004. Hoje, estaríamos a falar de preços entre os 14 e os 20 euros, mais ou menos. Era bom, mas a realidade tem sido outra. Nos Estados Unidos, um dos dois mercados apresentados como prioritários por Porter (o outro era o Reino Unido), os produtores portugueses ainda lutam contra a barreira dos dez dólares. A ter que pagar um pouco mais por um vinho, o consumidor comum americano prefere vinhos franceses, italianos ou espanhóis. 

Colocar os vinhos portugueses num patamar superior, mesmo vendendo menos (é sempre preferível vender menos e mais caro do que vender muito e barato) é um desafio de longo prazo. É como correr uma maratona.

O mais importante é perseverar na qualidade e na diversidade do vinho português. A diversidade, de estilos e de castas, é uma enorme mais-valia no mundo actual e poucos países oferecem tanto com uma área tão pequena quanto Portugal. De resto, as escolhas de Jancis Robinson reflectem isso mesmo. Mas subir preços não é algo que se faça de um dia para outro e de forma unilateral. É tarefa para muitas gerações. É por isso que continua sempre válida a célebre sentença da baronesa Philippine Rotshchild, segunda a qual “fazer vinho é relativamente fácil. Difíceis são só os primeiros 200 anos”. E só o vinho do Porto e o Madeira já passaram esta barreira.