Não há redenção para Mark Eitzel

O antigo líder dos American Music Club voltou aos seus grandes discos mas isso pouco lhe importa – ele só quer não morrer na rua. E cantar bem. Concertos hoje e domingo - em Espinho e em Lisboa.

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Licenciado em semiótica de Joni Mitchell, mestrado em cocaína e doutorado em auto-punição, Eitzel teve, até hoje, um só assunto: a instabilidade Mark Holthusen

Permitam-me a indulgência de por um instante imaginar que o passado não é o passado, o passado é o presente, e permitam-me aplicar este, como se diz hoje no futebol, processo a um famoso vídeo dos Suede, o mais famoso vídeo dos Suede, Animal Nitrate. Vemos Bernard Butler, exímio guitarrista, a debitar frases de guitarra herdadas dos Smiths e do glam-rock e depois o andrógino e sensual Brett Anderson, de camisa aberta, cabelo comprido, brincos nas orelhas, a abanar o rabo para a câmara, o cúmulo do glamour pop.

Agora imaginem que no lugar de Brett Anderson estava Mark Eitzel, este senhor aqui em cima, que atira quase para os dois metros e carrega um pouco de excesso no peso, com a sua barba neurótica e a sua motricidade duvidosa. Não fujam da imagem mental que está a criar-se no vosso cérebro — acarinhem-na, até. Porque 24 anos depois de Animal Nitrate, Bernard Butler juntou-se a Mark Eitzel para fazer um disco. E não um disco qualquer — Hey, Mr Ferriman é possivelmente o melhor álbum do homem desde 60 Watt Silver Lining e será (possivelmente) a base do par de concertos que Eitzel dará, sábado no Auditório de Espinho e no domingo na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Como é que um antigo rei da pop acaba por emparelhar com o rei da depressão e da decadência? A culpa é das crianças.

Algures em Los Angeles o telefone está a tocar e enquanto ninguém atende vamos aventando hipóteses: talvez Mark Eitzel fosse secretamente um fã dos Suede; talvez se tenha fartado da sua música, que muitos consideram miserabilista, e tenha desejado cantar por cima de umas valentes riffalhadas; e, quer dizer, ele disse tantas vezes que sonhava ter um êxito pop, pode até dar-se o caso de que juntar-se a Butler tenha sido uma última tentativa de conseguir trepar tabelas de vendas com a facilidade de um americano dopado no Tour.

Eitzel atende enquanto lava a loiça e este simples acto dá a entender que hoje é um homem muito diferente do tipo que liderava os American Music Club, uma banda perita em escavar cicatrizes através de um vórtex sonoro que partia do rock’n’roll para sugar toda a música em seu redor. Mark Eitzel, caramba, o homem que cantou Johny Mathis’ feet, com um vozeirão do tamanho do buraco do BES. Como era a letra, Markzinho? “You gotta learn how to disappear/ in the silk and the amphetamines”. Mark Eitzel. Ainda vivo, o que só por si é espantoso. E ainda por cima a lavar a loiça.

Trinta segundos depois esta imagem mental de idílio doméstico já foi à vida — no exacto instante em que Eitzel diz: “Claro que nunca na vida pensei em ser trabalhar com o Bernard Butler. Porque é que haveria de trabalhar com ele?” Isto é o bom e velho Eitzel que conhecemos e aprendemos a amar: bruto, seco, desbragado e a borrifar-se para o que eventualmente pensam do que ele diz. Ah, como é bom perceber que no fundo continua não-saudável.

“As coisas são mais simples do que as teorias que os jornalistas inventam”, diz Eitzel, entre grunhidos — há coisas a cair ali para os seus lados, não é fácil lavar a loiça e dar uma entrevista ao mesmo tempo. “Fuck this shit”, grita — e deixamos de ouvir o barulho da água e ouvimo-lo a atravessar a casa ou pelo menos a abandonar a cozinha. Não é fácil ser normal.

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“O Bernard e o meu agente”, recomeça Eitzel, aparentemente refeito da azáfama de limpeza, “têm os filhos na mesma creche. E o meu agente deve ter achado que o mundo todo ia parar para ouvir o disco de Mark Eitzel produzido pelo Bernard Butler. Sim, pois. Está-se mesmo a ver que isso ia acontecer, não é?”

Há poucas coisas tão certas na vida quanto a auto-depreciação de Mark Eitzel. A morte, o IRS, incêndios no Verão, penalties em jogos do Benfica — e Mark Eitzel a dizer mal de si próprio. Não importa o que aconteça, como um banqueiro perante uma marosca financeira, como um super-herói viciado em problemas, como um português que pára para observar um acidente, Mark Eitzel nunca falha — a dizer mal de si mesmo, isto é.

Demonstremos a veracidade da oração acima com um monólogo dele, em que pretendia exemplificar a típica reacção de um produtor aleatório à sua música: “Eu não queria o Bernard nem deixava de querer. Lá tinha dinheiro para o Bernard Butler. Eu queria um gajo qualquer — um tipo que soubesse pôr um microfone à frente da minha guitarra enquanto eu cantava. Que era o que o disco era suposto ter sido. Um daqueles tipos que quando acabo de cantar diz ‘Isto é uma merda. Que acordes horríveis. Porque é que as tuas canções são tão deprimentes? Já ouviste falar em refrão?’ Sabes, o típico produtor”.

Extraordinariamente, Bernard Butler não é o típico produtor — e não só gostou do que ouviu como ouviu ali mais do que Eitzel: “Eu queria fazer um disco acústico muito simples. O típico disco de quem não tem dinheiro”, conta Eitzel, e talvez este seja um bom momento para introduzir os neófitos ao mundo deste homem: Mark Eitzel nunca tem dinheiro e consegue sempre enfiar o tema dinheiro em qualquer conversa. Sabem aqueles tipos que têm mania que são foodies e, seja qual for o tema da conversa, citam sempre um restaurante ou um prato exótico a despropósito, do género: está-se a falar de um golo de cabeça e o tipo sai-se com “Há dias comi uma cabeça de cavala marinada em molho de chispe polvilhado com sal amarelo do Butão”? Claro que sabem. Eitzel é assim com o dinheiro.

“Mas o Bernard achou que o disco devia ser mais cheio, mais directo e tomou uma resolução que permitiu fazer o disco: tocou todos os instrumentos em todas as canções. Foi a opção certa — tinha saudades de fazer discos assim e gosto de um som maior. Só que custam caro. “

Vamos lá pôr isto nos eixos: Hey, Mr Ferryman é o disco mais cheio de Eitzel desde 60 Watt Silver Lining — o seu primeiro a solo — mas não é um disco luxuoso como esse era. “O 60 Watt Silver Lining”, explica Eitzel, “não era bem um disco a solo. Era um disco dos American Music Club [AMC] sem os músicos dos American Music Club. Aqueles gajos [dos AMC] eram bons músicos e estavam sempre a falar de fazermos um disco mais jazzy, mais de crooner — e eu escrevi canções nesse sentido. Quando a banda acabou usei essas canções. E como os AMC tinham algum crédito e nessa altura eu tinha uma carreira acabei por conseguir um orçamento maior”.

Na escrita clássica começa-se por apresentar a personagem e depois desenvolvê-la; neste texto é ao contrário, Eitzel surge em andamento sem vocês saberem quem ele é, pelo que esta parece uma boa altura para o apresentar e até oferecer uma espécie de leitura da sua carreira que explicará porque é que este é um momento importante na carreira que ele já não tem.

Durante muitos anos Mark Eitzel foi o cantor e compositor da mais extraordinária banda a quem nunca ninguém ligou nenhuma: os American Music Club. Músicos exímios, eram tão herdeiros da ferocidade do punk como da simplicidade da folk ou das harmonias do jazz; aquela música não era simples, mas do turbilhão de ideias e ruído saía aquele vozeirão de Frank Sinatra com bronco-pneumonia, de vagabundo aristocrata, de poeta da lata do lixo, de filósofo do copo de três.

Licenciado em semiótica de Joni Mitchell, mestrado em cocaína e doutorado em auto-punição, Eitzel teve, até hoje, um só assunto: a instabilidade. Amorosa, financeira, mental: nas suas canções o amor é aquele pico antes da derrota, o dinheiro é aquela coisa que se troca para ver uma bolhinha passear pela prata e uma casa (“withouth love, doors or windows/ without peace”) serve apenas para ser tomada pela polícia, tomada por junkies, tomada pela luta suicida de um casal. Não há paz no mundo e a única coisa que permite que o este não expluda é o vento que sopra no cabelo de Geena Rowlands (isto é uma referência a What holds the world together, suprema canção de desafecto e angústia).

Uma canção dos American Music Club atravessava o ruído para chegar à mais suprema comoção, caia do épico para o patético, rastejava aos nossos pés e mordia; a solo Eitzel tornou-se mais comedido.

60 Watt Silver Lining, todo piano, todo luxo, prometia um Eitzel mais próximo da canção tradicional, quase digno, um Eitzel que se dera ao trabalho de engomar a camisa. Ao fim e ao cabo, ele pode ter sido heroinómano e conhecido a lixeira das ruas mas sempre viveu fascinado com crooners e glamour — era o passo óbvio para aquela voz. Pasito a pasito, suave suavecito, Eitzel foi desaparecendo, mesmo depois de West, lindíssimo disco que contava com a participação de Peter Buck, dos REM — que bastas vezes o encheram publicamente de elogios. 60 Watt Silver Lining, West e o tristíssimo e sublime Caught In a Trap and I Can’t Back Out ‘Cause I Love You Too Much, Baby (isto é uma linha de Elvis) — estes são, até Hey, Mr Ferriman os discos de topo de Eitzel, os discos que só por si o colocam ao nível de um Nick Cave.

Não foi por acaso que chamou The Invisible Man a um dos seus discos — é uma piada ao seu anonimato neste mundo de massas. E também não foi por acaso que chamou The Ugly American a um dos seus discos.

Mas ponham os ouvidos em The last ten years, a canção que abre Hey, Mr Ferryman: a entrada grandiosa, o som amplo, aquela sequência de acordes à Joni Mitchell, a voz imaculada, lânguida, o refrão evocativo de uma tristeza que mói e aquela capacidade rara de dizer tudo num par de linhas: “I spent the last ten years/ trying to waste half an hour”. E linhas aqui não é metáfora, que pouco mais à frente ele está a falar de “bourbon and coke”.

Quando eras uma potencial estrela, digo a Eitzel, ali em meados da década de 1990, não eras nem gay nem drogado, eras só bêbedo, ou estou enganado? Eitzel ri-se. Uma das características mais bonitas de Eitzel é esse riso fácil, de peito tamanho extra-largo, um riso que contagia. Note-se, este é o mesmo tipo que quando se quer definir diz que é “uma merda, um dos maiores pedaços de merda alguma vez existentes ao cimo da Terra”; um tipo que pretendendo ilustrar quão dúbia é a sua reputação e como envelheceu (“mal”, acrescenta), conta a seguinte história: “Há uns tempos fui tocar a Amesterdão e vi um concerto do Bon Iver. E no fim fui ter com ele, eu estava muito bêbedo e muito drogado e disse-lhe ‘You were great’. E ele respondeu ‘Yeah’, virou costas e perguntou aos amigos ‘Quem era aquele tipo?’”. Eitzel conta isto e, como terão certamente adivinhado, riu-se.

Apesar de se rir de si mesmo também fala a sério e está a falar a sério quando responde à pergunta que lhe havia feito dizendo: “Há 20 anos eu achava que ia ter uma carreira. Também tinha uma banda e eles não queriam que eu falasse destas merdas. E agora não”. Estas merdas: uma tendência para o consumo excessivo de cocaína, a sua homossexualidade ou, como ele gosta de dizer, o facto de “ser um fat faggot”.

Um fat faggot que depois de West voltou a escrever quase exclusivamente sobre personagens à deriva, auto-destrutivas, que se deixam abusar, como em La Llorona, extraordinária canção de Hey, Mr Ferryman. Algo aconteceu ali, no início da carreira a solo — ele parecia redimir-se de um passado de pecado e depois borrifou-se.

“Nunca houve redenção”, diz, a rir-se. “Só deixei de me importar com o que pensavam a meu respeito. Com a ideia de carreira ou sucesso. Neste ponto da minha vida só não quero morrer no passeio. E quero cantar bem”. É por isso que Hey, Mr Ferryman é um disco menos homogéneo que 60 Watt, por exemplo — porque ele já não tem “paciência para isso”. “A minha vida é muito simples: eu embebedo-me e escrevo. Escrevo e embebedo-me. A única coisa chata é que envelheci e quando se envelhece tende-se a escrever sobre o que se sabe e isso é aborrecido, é aborrecido explicar às pessoas a vida. ‘Isto é o conhecimento que eu tenho, aqui está’. Ninguém quer isto. Por isso prefiro escrever sobre o que não sei”.

Por estes dias Eitzel diz ser um homem “completamente fora do mundo e das modas”. Ele exemplifica com algo que lhe aconteceu há uns dias: “Estava num bar que tinha uma banda de covers e quando começou uma canção qualquer uma data de mulheres de 40 anos desataram a gritar e a tirar fotos que puseram no Instagram — quando pousaram o telefone pareciam ir suicidar-se. Não percebo este mundo”.

No fundo ele sempre foi e sempre esteve assim — a olhar o mundo de fora, sem o compreender, e sem entender porque é que o mundo que ele rejeita o rejeita. Esse desencontro será certamente muito doloroso mas, se quisermos ser egoístas, tem as suas vantagens para o ouvinte — é que é dele que nascem lindíssimas canções, como a estupenda An answer, clássico instantâneo deste último disco.

Não deixem que Mark Eitzel morra na rua.