Opinião

A Operação Marquês e o “jornalismo de sarjeta”

A investigação do Correio da Manhã com a deslocação de jornalistas a Paris seguia um caminho que se veio a revelar coincidente com o da investigação criminal: os indiciados gastos excessivos de Sócrates. Chama-se a isto jornalismo.

Todos sabemos que o ex-primeiro ministro José Sócrates sempre conviveu mal com a comunicação social. Desconheço a contabilidade exacta mas Sócrates meteu processos em tribunal contra tudo e todos. Processos crime e processos cíveis. Processos contra jornais, jornalistas, colunistas, televisões, revistas, bloggers. Processos por causa da licenciatura, por causa do Freeport, por causa da Operação Marquês. Atirou sistematicamente contra tudo o que mexia.

Pessoalmente tenho a maior desconfiança em relação às figuras públicas e, em particular, aos políticos que recorrem, sistematicamente, aos tribunais em nome da defesa da sua sacrossanta honra. Poderá ser a honra que os move mas suspeito sempre de um objectivo que me parece mais evidente: evitar o escrutínio público, calar e intimidar os opositores, pressionar as empresas jornalísticas. Basta pensar que um elevado pedido de indemnização se vai reflectir contabilisticamente nas contas das empresas de comunicação social enquanto durar o processo em tribunal, isto é, anos a fio. Para além dos mil e um incómodos e gastos que vai originar na vida dos jornalistas visados.

Estamos todos, naturalmente, esquecidos, mas o PÚBLICO, por exemplo, na sua edição de 7 de Maio de 2009, noticiava como conclusão de um inquérito realizado por uma empresa de meios publicitários a que tinham respondido 103 jornalistas que os responsáveis da comunicação social entendiam que os processos de Sócrates contra jornalistas não iriam condicionar os media na cobertura do caso “Freeport”. O que importa ter presente não é a conclusão optimista dos jornalistas que responderam ao inquérito mas sim o facto de os processos intentados pelo então primeiro-ministro justificarem que uma empresa tivesse realizado um inquérito nos termos referidos.

Para além desta agressividade judicial contra a comunicação social, também tivemos uma agressividade verbal: foi nos tempos em que José Sócrates foi governante que foi cunhada e propalada a expressão “jornalismo de sarjeta” para designar a comunicação social adversa ao então primeiro-ministro. Vasco Pulido Valente, sempre lúcido e acutilante, num artigo publicado no PÚBLICO em 4 de Maio de 2007,  afirmava que o então ministro dos Assuntos Parlamentares Augusto Santos Silva falava em “jornalismo de sarjeta” para “agredir e promover o descrédito do jornalismo de que ele não gosta”.

Esta expressão foi usada, de forma consciente e intencional, para denegrir o jornal Correio da Manhã e, por isso mesmo, o ex-primeiro ministro se sentiu à vontade, quando foi interrogado pelo jornalista Vitor Gonçalves sobre como vivia e como é que pagava as suas despesas, se não vivia de empréstimos do seu amigo Santos Silva – pergunta absolutamente legítima, tendo em conta o teor da acusação –, para responder que tal pergunta era indigna de um jornalista, era “uma pergunta do Correio da Manhã”. Pretendendo com isso dizer, que a pergunta do jornalista não era verdadeiro jornalismo ou era jornalismo de sarjeta.

Mas convém lembrar que – independentemente do estilo – o verdadeiro jornalismo é o que investiga e publica notícias. Convém lembrar que, antes mesmo do começo da investigação do que viria a ser a Operação Marquês, o Correio da Manhã, no dia 16 de Março de 2012, já trazia na primeira página, com grande destaque, o título “SÓCRATES GASTA 15 000€ POR MÊS. CM investiga despesas do ex-primeiro ministro em França. Rendimentos declarados não justificam gastos. Recusa falar sobre o assunto”. E no interior do jornal, num artigo dos enviados especiais a Paris, Pedro Gonçalves e Mariline Alves, referia-se que  “sem emprego, nem poupanças conhecidas, o ex-primeiro ministro mantém uma vida de luxo numa das cidades mais caras da Europa...”.

Nenhum de nós sabe quanto o ex-primeiro-ministro gastava por mês em Paris mas lendo-se a acusação deduzida pelo Ministério Público, uma coisa é certa: a investigação do Correio da Manhã com a deslocação de jornalistas a Paris, sem escutas telefónicas nem acesso a movimentos bancários, seguia um caminho que se veio a revelar coincidente com o da investigação criminal: os indiciados gastos excessivos do ex-primeiro ministro.

Chama-se a isto jornalismo.