Opinião

Ler como quem dança

O filme de Edmundo Cordeiro, Todas as Cartas de Rimbaud, exibido há poucos dias na Culturgest (fez parte do programa do Doclisboa 2017), acorda-nos para a filosofia como “música suprema”, quando há nela um nexo tão forte com a linguagem que percebemos que a verdade tem a sua morada na língua. E aí, filo-sofia e filo-logia coincidem. A matéria deste filme são as aulas, as palestras, a fala de Maria Filomena Molder. Como é que o discurso abstracto da filosofia suscita a imagem e a escuta? Este filme nasce precisamente do fascínio por um modo de ler e de pensar onde se dá uma união da imagem e do pensamento. Vamos aos factos: Maria Filomena Molder é professora de filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mas o seu “magistério” e o seu prestígio saltaram desde há muito tempo para fora da Universidade e ganharam um público muito mais vasto. O filme de Edmundo Cordeiro é uma prova disso. Quando isto acontece com um filósofo, quase sempre são as más razões que causam o fenómeno: ou porque se tornou um filósofo pop, ou porque submeteu a filosofia a uma degradação, tornando-a uma disciplina de sapiência e imprimindo-lhe um tom oracular. Ora, Maria Filomena Molder não cai em nenhum desses pecados: a sua lição fascina porque torna a filosofia uma intensidade que não se define pelo objecto e porque é uma arte da leitura. Ela reclama a maior responsabilidade para a tarefa do leitor. E fá-lo perante o seu auditório como quem executa uma dança que não pode ser contida nos limites de uma prévia coreografia. Percebemos, então, que ler é uma arte fascinante e que se pode ter o estatuto de autor lendo os textos de outros autores. Ao ler Goethe, Kant ou Rimbaud perante um auditório (de alunos, de espectadores do filme que respondeu ao apelo e ao fascínio dessas leituras), Maria Filomena Molder consegue reencantar e alargar o mundo. Este filme mostra-nos não a figura de uma filósofa-sábia, mas de uma leitora que faz da leitura uma experiência do pensamento. O filme de Edmundo Cordeiro (e, já agora, também este texto) não serve para dar brilho e fama à pessoa que levou às últimas consequências os seus gestos de leitora quando transcreveu para um caderno – como se fosse um diário - algumas cartas de Rimbaud. O que ele exalta é um movimento da leitura – o leitor como uma espécie de flâneur, praticando um pensamento que deambula –, onde está bem patente a tensão entre a percepção e a reflexão, entre a poesia e o pensamento. No início do filme, Maria Filomena Molder lê a analítica do sublime, da terceira Crítica de Kant. E, de repente, aquela coisa complicadíssima e eminentemente abstracta dos conflitos entre a faculdade da imaginação e a faculdade do entendimento torna-se bem visível e cheia de consequências. Não porque o filme tente esforçadamente dar a ver ou “ilustrar”, mas porque há, desde logo, algo imagético – uma unidade da imagem e do pensamento - na leitura que Maria Filomena Molder faz de Kant. Estas imagens são leituras. Ler e pensar não são separáveis. O topos peripatético da filosofia grega, a relação entre andar e pensar, encontramo-lo modalizado por Maria Filomena Molder de acordo com um preceito nietzschiano: “Não confiar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em plena liberdade de movimentos”. Os Gregos sabiam que era possível controlar uma sociedade não apenas através da linguagem, mas também através da música. Acordar-nos para a boa música capaz de nos subtrair à má política e suspender o desencanto do mundo - esta é a força de uma leitora que aceita ler à nossa frente, como se estivesse a ler pela primeira vez.