A felicidade de passar uma velha ponte num país que deixaram há 50 anos

Passaram-se décadas, tantas, desde que saíram de um Portugal onde pouco ou nada havia. Agora tudo é diferente, "maravilhoso" insistem. Passaram a ponte 25 de Abril pela primeira vez e deslumbram-se com a sinalização rodoviária. Coisas banais, que não o são para quem o país era uma memória distante.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

"Aqui tudo parece uma pintura". Na Boca do Inferno, um grupo diferente dos turistas habituais inspira a maresia da manhã. Estão no seu país, finalmente, após décadas de ausência. Deixaram um Portugal atrasado e pobre para tentar a sua sorte noutro ponto do globo e nunca mais voltaram. Sempre o carregaram no coração, juram, enterrando bem fundo a miséria que deixaram para trás. Agora descobrem que houve um salto em frente e deslumbram-se: "Isto é tudo maravilhoso".

Maria de Lourdes Almeida, de 70 anos, desembarcou do autocarro amarelo de “Portugal no Coração”, o programa do Inatel que lhe tem proporcionado uma semana em cheio no país que a viu nascer, e olha maravilhada o mar revolto enquanto fotografa sem cessar com o seu telemóvel. “Isto é muito mais bonito do que pensava”, exclama com entusiasmo, um sotaque argentino a colorir o português das suas origens. “Tenho uma fotografia de uma paisagem assim no fundo do computador.” Mas ver o cenário ao vivo é diferente e enche-a de felicidade. 

Do país que deixou, há cerca de 60 anos, levou memórias que, embora escassas, são sentidas. “Lembro-me bem da minha casa na serra e, principalmente, da minha avó a chorar por nos irmos embora.” De lágrimas nos olhos, faz uma pausa para contemplar o oceano. “Nunca mais a vi”.

A nostalgia percorre todos os 15 participantes do programa “Portugal no Coração”, desenvolvido pelo Inatel, em parceria com a TAP e a Direcção Geral dos Assuntos e Comunidades Portuguesas. O projecto é dirigido aos membros das comunidades portuguesas no estrangeiro que não têm posses para visitar Portugal e que assim usufruem de estadia e transporte pagos, numa semana repleta de cultura, comida portuguesa e acima de tudo, boa disposição. Vêm sobretudo do continente americano e desta vez os eleitos são emigrantes no Brasil, Argentina e Venezuela. 

José Gonçalves Araújo deixou Vila do Conde quando tinha apenas cinco anos e, hoje, aos 67 anos de idade, o seu sotaque é totalmente brasileiro. “Isto é tudo maravilhoso,” exclama alegremente. “Eu estou sempre enaltecendo o país, porque está no coração da gente, mas vir cá e ver em pessoa é bem diferente, sabe?”

Foi para o Brasil com os seus pais, que queriam proporcionar uma vida melhor à família, mas agora, já em adulto, José conta que não tem sido uma vivência fácil. “Infelizmente os políticos são muito corruptos e têm feito muita gente sofrer.”

Também na Argentina, o país onde Cesaltina Cavaco vive desde 1951, a vida não anda fácil. “Eu gosto de lá viver, não gosto é dos problemas", comenta, enquanto percorre a passo lento a baía de Cascais, que vai capturando aqui e ali com a sua antiga câmara fotográfica. “Há muitas agressões e manifestações por todo o lado: as pessoas estão descontentes,” afirma. “Aqui há muita paz, muita tranquilidade. Tudo parece uma pintura.” 

No final da viagem irá ainda visitar os seus parentes a São Sebastião, em Loulé, a pequena aldeia de que jura ainda se lembrar. “Penso que chegando lá vou conhecer tudo,” assegura, rindo: “Saberei logo o caminho certo!”

Estas são pessoas com vidas sofridas e trabalhosas. Talvez por isso não regateiam gratidão por esta oportunidade que agora vivem. É isso que sente Ana Paula Barreto, guia do programa há já 14 anos, que diz ter a certeza que o seu trabalho não é em vão. Há um constante brilho nos olhos daquele grupo a recompensá-la.

As experiências novas são muitas e algumas são mesmo empolgantes. É assim que se sentem quando atravessam pela primeira vez na vida a ponte 25 de Abril, uma estrutura que Daniel Jesus “apenas viu na televisão”.

Outros atentam em pormenores que à primeira vista pareceriam banais como é o caso da sinalização rodoviária. É o caso de Rui Rodrigues, residente no Brasil há 70 anos: “Há tantos sinais de trânsito e toda a gente os respeita”, diz. No Rio de Janeiro, onde vive desde os seus sete anos, não é nada assim e a confusão na estrada é constante e incrivelmente desgastante.

Ao passear pelos jardins do Casino do Estoril, ajeita o seu pólo azul enquanto relembra a razão pela qual a sua família deixou Portugal. “Não havia nada, principalmente no Norte,” conta, com tristeza. “Não tínhamos electricidade nem rádio e quando chegámos ao Brasil tínhamos tudo isso”. Agora, ao regressar a Portugal, sente que os papéis dos países se inverteram e que é aqui que reside o progresso. “É um grande contraste voltar e ver o país assim. Tanta evolução, tão bonito e com gente tão amigável.”

O sentimento é comum a todos os membros do grupo. Para estes portugueses dispersos pela América do Sul, o que agora vêem resume-se a uma frase, mil vezes repetida: "É tudo maravilhoso!” 

No futuro José Alho, vogal do conselho de administração do Inatel, gostaria de levar o programa mais longe. “Já são 21 anos de projecto mas vamos sempre tentando integrar algumas das expectativas dos participantes nos anos seguintes,” diz. “E Portugal não é só o continente, portanto um dos objectivos futuros é levar os participantes aos Açores e à Madeira.”

O dia termina no Parque das Nações, em Lisboa, e a atracção principal é o passeio de teleférico, para o qual Maria de Lourdes confessa estar um pouco receosa. Mas não será isso que quebrará o seu espirito resiliente, característico de uma emigrante. “Se dá um pouquinho de medo é bom,” afirma, enquanto se posiciona mesmo à entrada da sua próxima aventura.

Texto editado por Ana Fernandes