Opinião

Navegar, navegar, o filme vai de saída

Depois de Agustina, Pessoa e Eça, João Botelho traz Fernão Mendes Pinto para o cinema. Que há anos se alimenta de literatura.

Vem aí a Peregrinação. Ou melhor, vamos ser nós convidados a embarcar nela, 403 anos depois da primeira edição do livro de Fernão Mendes Pinto, “com licença do Santo Officio, no anno 1614”. E vem em filme, depois de já nos ter chegado das mais variadas formas: em reedições actualizadas, integrais ou simplificadas, em Banda Desenhada (pela pena de José Ruy, primeiro na revista Cavaleiro Andante e depois em álbum, já em quarta edição, pela Âncora Editora), em adaptações para crianças e até em disco, nessa obra-prima da música portuguesa que é Por Este Rio Acima, de Fausto Bordalo Dias (em 1984). O PÚBLICO editou-o em fac-simile em 2014, nos 400 anos da obra, e virando a capa lá se podia ler, logo no topo da página: “Este livro, cujo título he peregrinação de Fernão Mendez Pinto não tem cousa algua contra a nossa santa Fé ou bõs costumes& guarda deles, antes he historia muyto boa, chea de muyta variedade & nouidade, por as quais partes ha de contentar muyto, porque a nouidade (segundo diz o Philosopho) deleita, & a variedade como afirma S. Augustinho tira o fastio, pelo que se pode imprimir.” Isto com a grafia da época, claro está. Assinava esta nota Fr. Manoel Coelho, sob o título “Licenças”.

Encantado com esta “frase notável”, como viria a classificá-la, atirou-se então o cineasta João Botelho à aventura de trazer as peregrinações e desventuras de Mendes Pinto para a tela. Estreia-se no dia 1 de Novembro nos cinemas e acrescenta, na filmografia do autor, mais um título baseado em clássicos da literatura portuguesa. Botelho, que logo na sua primeira longa-metragem decidiu filmar literatura (pondo Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro a dialogar em Conversa Acabada, de 1981), havia de mais tarde abordar temas caros à história recente portuguesa, como a guerra colonial (Um Adeus Português, 1986) ou o 25 de Abril (Se a Memória Existe, 1999), para mais recentemente voltar à literatura. Começou em 2008 com A Corte do Norte, de Agustina Bessa-Luís, adaptou Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett (Quem És Tu?, 2001), ousou, com sucesso, filmar o aparentemente infilmável O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa (O Filme do Desassossego, 2010) e estreou em 2015 Os Maias, de Eça de Queiroz. Dois anos depois, chega com “o inigualável livro de viagens de Fernão Mendes Pinto”, utilizando nele, com autorização do próprio, várias canções de Fausto transformadas em polifonias ali interpretadas por cantores/actores.

Obras clássicas têm sido, desde há muito trazidas para o cinema. Frei Luís de Sousa, por exemplo, já tivera uma adaptação mais convencional, em 1950, por António Lopes Ribeiro. Mas obras houve que tiveram várias adaptações aos ecrãs. O Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco (1862) foi uma delas (Georges Pallu, 1921; António Lopes Ribeiro, 1943; Manoel de Oliveira, 1979; e Um Amor de Perdição, Mário Barroso, 2008). Júlio Dinis também foi revisitado, três vezes com As Pupilas do Senhor Reitor (Maurice Mauriad, 1924; Leitão de Barros, 1935; Perdigão Queiroga, 1961), duas com Os Fidalgos da Casa Mourisca (Georges Pallu, 1921; Arthur Duarte, 1938) e uma com A Morgadinha dos Canaviais (Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari, 1949). Neste campo, um dos cineastas mais prolíficos foi sem dúvida Manoel de Oliveira, que levou ao cinema, entre outras, obras de José Régio (Benilde ou a Virgem Mãe, 1974), Agustina Bessa-Luís (Francisca, 1981, a partir de Fanny Owen; Vale Abraão, 1993; e O Convento, 1995, a partir de O Mosteiro), Álvaro do Carvalhal (Os Canibais, 1988), Eça de Queiroz (Singularidades de Uma Rapariga Loira, 2009) ou Raul Brandão (O Gebo e a Sombra, 2012).

A lista é vasta, mas aqui ficam só mais alguns exemplos: O Primo Basílio, de Eça de Queiroz (António Lopes Ribeiro, 1959), Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira (Fernando Lopes, 1971), O Bobo, de Alexandre Herculano (José Álvaro Morais, 1987), Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira (Lauro António, 1980), Terra Fria, de Ferreira de Castro (António Campos, 1992), Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (Luís Filipe Rocha, 1984), Cerromaior, de Manuel da Fonseca (Luís Filipe Rocha, 1980), O Crime da Aldeia Velha e A Promessa, ambos de Bernardo Santareno (respectivamente por Manuel Guimarães, 1964; e António de Macedo, 1972), Balada da Praia dos Cães e O Delfim, ambos de José Cardoso Pires (por José Fonseca e Costa, 1985; e Fernando Lopes, 2002); Domingo à Tarde, de Fernando Namora (António de Macedo, 1966) e A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge (Margarida Cardoso, 2004).

Será outra peregrinação, completar esta lista. Mas fiquemo-nos, por ora, com a de Botelho.

NOTA: Na versão inicial desta crónica foi omitida, por lapso do autor, a referência à BD de José Ruy, posteriormente incluída.