"E se morre uma grávida"? Médicos exigem que ministro resolva conflito com enfermeiros

Os médicos que há mais de um mês asseguram quase todos os partos em substituição dos enfermeiros especialistas estão "no limite", diz o bastonário Miguel Guimarães, que avisa que "começa a haver risco para as grávidas".

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asm ADRIANO MIRANDA

Desde há mais de um mês que os médicos estão a assegurar grande parte do trabalho nos blocos de parto dos hospitais, devido ao protesto de zelo dos enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica, mas atingiu-se “um limite” e os profissionais estão “a entrar em rota de colisão”, avisa o bastonário da Ordem dos Médicos (OM). “Começa a haver risco para as grávidas e, antes que aconteça uma desgraça”, o bastonário Miguel Guimarães pede ao ministro da Saúde e ao Governo que “resolvam este problema, rapidamente e de uma vez por todas”.

“E se morre uma grávida ou um bebé num bloco de partos?", pergunta o bastonário, sublinhando que o ambiente entre médicos e enfermeiros, que se tinham habituado a trabalhar em equipa, está a ficar "cada vez mais tenso e crispado".

Face a este cenário, reclama o bastonário da OM, o ministro “tem duas alternativas: ou arranja equilíbrios suficientes para tentar solucionar a situação, ou encontra um mediador que o substitua e faça a ponte” com os enfermeiros em protesto.

Os enfermeiros especialistas têm-se recusado a exercer as funções específicas para as quais têm formação paga do seu bolso, reclamando um aumento significativo da sua remuneração. Uma parte destes especialistas chegou mesmo ao ponto de entregar o título à Ordem dos Enfermeiros para não ser obrigado a desempenhar funções especializadas.

Avançando alguns exemplos de blocos de partos que estão a funcionar em condições problemáticas, como o do hospital de Guimarães, que “está um caos”, ou o do S. João, no Porto, que “está mal”, Miguel Guimarães explica que os médicos estão há mais de um mês a fazer todos os partos, quando antes apenas assistiam aos mais complexos e às cesarianas, o que representa “um trabalho a dobrar”.

Há blocos de parto que estão a funcionar normalmente, como o Centro Materno Infantil do Porto, por exemplo, mas há muitas situações problemáticas em maternidades do Centro e Sul do país e o colégio da especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da OM está a equacionar a  possibilidade de reformular as equipas-tipo (mínimas), aumentando o número de médicos, de forma a substituir os enfermeiros, avisa Miguel Guimarães. “O que não é possível é continuar assim indefinidamente”, enfatiza.

Os enfermeiros de saúde materna e obstétrica em protesto já tinham adiantado na semana passada quem está a tentar colmatar as falhas são as equipas médicas, que entretanto estão a ficar “extenuadas e exaustas”, como sintetizou Bruno Reis, porta-voz do movimento que lidera esta forma de luta inédita. O protesto começou em Julho, tendo sido interrompido mais tarde para negociações com o Governo, e retomado de novo em 24 de Agosto.

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