O "túnel" de freixos de Marvão vai desaparecer dentro de duas décadas

Das 235 as árvores existentes na estrada que liga Marvão a Castelo de Vide só um reduzido número de exemplares tem um século. A maioria tem entre 50 e 60 anos e está condenada.

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miguel nogueira

A “estrada mais bonita de Portugal” está condenada ao desaparecimento dentro de uma a duas décadas, admite Serafim Riem, director da empresa Planeta das Árvores que, em Junho, efectuou um estudo sobre o estado biomecânico e fitossanitário dos 235 freixos (Fraxinus angustifolia Vahl) que ladeiam um troço da estrada nacional 260-1 entre Marvão e Castelo de Vide. O investigador respondia assim à preocupação expressa pela Plataforma em Defesa das Árvores num “SOS” enviado na quinta-feira ao primeiro-ministro, António Costa, dando conta da “imensa consternação e inquietação sobre o que se prevê venha a acontecer à preservação de um património arbóreo único no nosso país”.

Serafim Riem confirmou ao PÚBLICO que o estado das árvores que formam o “túnel” de freixos de Marvão “é preocupante”. Mais de 70% dos exemplares não está saudável, garantiu o investigador, uma conclusão a que se chegou ao fim de uma semana de observação “árvore a árvore e da raiz à copa” que uma equipa de cinco técnicos realizou. Outra das constatações foi a de que nem todas são centenárias. “Aliás, muitas delas foram substituídas pelos cantoneiros da Junta Autónoma das Estradas”, a entidade que fazia a manutenção da rede rodoviária nacional.

Com a extinção deste serviço, que Serafim Riem considerou ter tido uma “extrema importância” na preservação do património arbóreo plantado ao longo das estradas de Portugal, a substituição dos exemplares doentes deixou de se fazer e hoje, no que diz respeito aos freixos de Marvão, “há que aceitar o seu desaparecimento”. Como resposta imediata ao risco que estes exemplares colocam à circulação rodoviária e também à segurança das pessoas que percorram a alameda a pé, urge proceder ao abate de 43 árvores, enquanto as restantes 192 necessitam de “uma poda exageradamente musculada”, numa tentativa de as manter vivas durante mais alguns anos.

Os freixos do “túnel” de Marvão, foram “negligenciados desde há muitos anos”, diz a Plataforma, na carta envia a António Costa. E acrescenta: “Em meados dos anos 90 ainda estavam de boa saúde e era um cenário magnífico. Mais recentemente, em 2012, foram abatidas cerca de 30 árvores. Há também notícias de abates em 2008” para além da “controversa” intervenção efectuada em Fevereiro deste ano que levou ao corte de cinco freixos pela Infraestruturas de Portugal, descreve. Esta última acção acabou por ser suspensa depois do deputado socialista Luís Testa ter instado a tutela para travar o que considerou ser “um atentado”.

“A minha preocupação, neste momento é que não morra ninguém” com a queda de árvores ou ramos, salienta Serafim Riem, admitindo que seria “uma loucura retirar o tráfego automóvel para colocar lá crianças a brincar”. Esta é a solução preconizada pela Plataforma: colocar o espaço “à fruição dos portugueses como santuário arbóreo do país” deslocando a circulação automóvel para uma estrada alternativa que seria construída entre Marvão e Castelo de Vide.  

A solução que o especialista defende passa por plantar “novos alinhamentos de freixos, ao lado dos existentes de forma a garantir que, dentro 15 anos, haveria exemplares apreciáveis e saudáveis”. Além disso, deve-se manter o tráfego automóvel pois seria um erro “separar as árvores das estradas”.

Apesar da empresa que Serafim Riem dirige já ter observado mais de 9 mil árvores, é um facto que a experiência adquirida “não dá certezas pois, na fase actual de conhecimento ainda não é possível, travar as doenças das árvores”, salienta. Além do mais, prossegue o especialista, que foi dirigente das organizações ambientalistas Quercus e FAPAS, “há que reconhecer que, nas últimas dezenas de anos, as árvores ornamentais em Portugal foram muito mal tratadas”. Isto significa que um elevado número de exemplares apresentam doenças que resultaram de intervenções efectuadas por pessoas que não estavam habilitadas para o fazer.