Editorial

Cuidado com as sondagens

Mais do que certezas, as sondagens reforçam as dúvidas. A começar pelas que já tínhamos sobre as próprias empresas de sondagens.

As sondagens são o que são e o melhor é que sejam interpretadas com máxima prudência. Os inquéritos de opinião que três diários publicaram ontem sobre as eleições autárquicas no Porto são tão díspares que só justificam desconfiança: a do Jornal de Notícias coloca Rui Moreira e Manuel Pizarro num empate técnico, enquanto a do Correio da Manhã/Jornal de Negócios coloca o actual presidente da Câmara do Porto a uma distância de 20% sobre o candidato do PS e no limiar da maioria absoluta.

Esta discrepância de resultados, como também se verificou recentemente nos estudos de opinião divulgados para o concelho de Oeiras, pode ter um efeito duplamente perverso: o do eleitor que abdica de votar porque o seu candidato está garantido à partida e o do eleitor que é influenciado a votar para ajudar um candidato resvés. Num cenário em que escasseiam as sondagens, como é o desta campanha autárquica, a sua influência pode ser ainda mais determinante.

O desfasamento entre os prognósticos e o resultado final em actos eleitorais foi uma evidência no “Brexit” ou na eleição de Trump, e por cá costuma vitimizar o PCP e, por vezes, o CDS. Para tal, contribuem factores como a construção das amostras, o método escolhido para contactar o inquirido ou o preço das sondagens. Na sua maioria, os estudos de opinião baseiam-se em pequenas amostras; concentram-se em poucos concelhos (na actual campanha, abrangem apenas 15 dos 308 que existem no país); são feitos por telefone fixo (num país que aderiu em massa aos telemóveis e que passou, entre 2000 e 2010, de 418 para 251 linhas de telefone fixo por mil habitantes); e não recorrem à entrevista cara a cara por ser naturalmente mais dispendioso, embora mais eficaz. Acresce que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social nunca exerceu qualquer escrutínio sobre o rigor com que trabalham as empresas do sector.

Em que ficamos? Como chama a atenção Pedro Magalhães, investigador e professor universitário, principal autoridade nacional em matéria de sondagens, as margens de erro nestas sondagens concelhias podem ser bem mais elevadas e não é razoável extrair destas previsões conclusões nacionais. Mais do que certezas, as sondagens reforçam as dúvidas. A começar pelas que já tínhamos sobre as próprias empresas de sondagens.