Monet, um coleccionador de mente aberta

O Museu Marmottan Monet reconstituiu a colecção privada do pai do impressionismo. Para ver em Paris até 14 de Janeiro.

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Claude Monet peignant dans son atelier (1874), de Édouard Manet DR

Quem, pelas próximas semanas, se deslocar ao Museu Marmottan Monet, em Paris, não vai poder admirar a tela Impressão, nascer-do-sol (Impression, soleil levant, 1872), com que Claude Monet (1840-1926) fez nascer o movimento mais tarde designado impressionismo. Esta obra seminal encontra-se em exposição, até 8 de Outubro, no Museu de Arte Moderna André Malraux (MuMa) em Le Havre, a cidade na foz do Sena onde precisamente Monet se inspirou para pintar o seu famoso quadro – durante cerca de um mês, o MuMa coloca Impression, soleil levant em diálogo com inúmeras outras representações do sol, na mostra Impression(s), soleil, iniciativa integrada na comemoração do 5.º centenário daquela cidade portuária.

Em contrapartida, o Marmottan Monet, que é maior depositário de obras do pintor francês, mostra agora – e até 14 de Janeiro – uma faceta bem menos conhecida do autor dos nenúfares: a de coleccionador. Monet. Collectionneur, inaugurada esta quinta-feira, desvenda mais de sete dezenas de pinturas, aguarelas e esculturas, além da colecção de gravuras japonesas, que o pintor foi reunindo ao longo de grande parte da sua vida.

Se a admiração que Monet dispensava à arte japonesa é um dado conhecido da sua biografia, já a de coleccionador de obras dos artistas seus contemporâneos, muitos deles amigos pessoais, permaneceu durante longo tempo secreto. Um segredo que o Museu Marmottan Monet decidiu agora desvendar, após uma investigação que quase teve contornos “policiais”, como disse à imprensa a curadora da exposição, Marianne Mathieu, da equipa do Museu d’Orsay – o outro “templo” parisiense da pintura impressionista.

“Monet não falava da sua vida privada. A sua colecção de arte, como a sua vida familiar, manteve-as sempre profundamente privadas”, disse a comissária, citada pelo New York Times, que também ouviu a curadora da Royal Academy of Arts, de Londres, Ann Dumas, realçar a importância da nova exposição em Paris.

“Há uma diferença muito grande entre ser um artista ou ser um homem rico a coleccionar arte”, diz esta curadora. E nota que era então “muito raro artistas comprarem arte como um investimento”. “A sua principal preocupação era ver o que outro artista tinha feito. Muitas vezes, eles admiravam realmente o trabalho dos outros artistas e usavam-no como uma inspiração. Era algo muito mais pessoal, e que estava ligado ao seu próprio processo criativo”, acrescenta Ann Dumas, citando o caso de Edgar Degas (1834-1917), outro grande pintor-coleccionador da época.

No caso de Monet, o pintor começou a adquirir telas de amigos – algumas delas, resultado de ofertas pessoais – quando era ainda jovem. O quadro mais antigo na exposição Monet. Collectionneur é uma caricatura sua feita no final da década de 1850 pelo seu amigo Charles Lhuillier. Édouard Manet (1832-1883) e Jean-Pierre Renoir (1841-1919) tornaram-se também amigos chegados de Monet desde que ele se fixou em Paris. Uma das obras-primas da mostra é, de resto, a tela em que Manet pintou o casal Claude-Camille Monet, em 1874, no seu barco-estúdio. E entre os vários retratos individuais e familiares que Renoir lhe dedicou – e ofereceu – está Madame Monet e o seu filho, também de 1874 (uma obra de Renoir que, no entanto, não está na exposição é Retrato de Madame Claude Monet, de 1872-74, da Colecção Gulbenkian, e que foi adquirida por Calouste Gulbenkian em 1937 ao filho do pintor, Michel Monet) .

Além destes nomes, há obras de Delacroix, Corot, Boudin, Cézanne, Morisot, Pissarro, Signac, Toulouse-Lautrec e também Rodin – uma relação que na exposição no Museu Marmottan Monet está documentada com o bronze Jovem mãe na gruta e com um gesso representando Bacantes abraçadas, com a seguinte dedicatória na base: “Ao grande mestre C. Monet, do seu amigo Rodin”.

“A colecção parece-se com o próprio Monet: é o seu olhar, a sua selecção”, diz Marianne Mathieu, acrescentando que esta colecção – que o Marmottan reuniu com empréstimos dos principais museus internacionais e também de acervos privados – “revela um artista com uma mente muito aberta”.