Hoffenheim chegou ao topo e nunca olhou para trás

O primeiro adversário do Sp. Braga na Liga Europa estava na quinta divisão da Alemanha há 17 anos, mas tem tido uma ascensão fulgurante.

O Hoffenheim está a surpreender a Alemanha e quer fazer o mesmo na Europa
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O Hoffenheim está a surpreender a Alemanha e quer fazer o mesmo na Europa KAI PFAFFENBACH/REUTERS

De acordo com os Censos de 2011, São Roque do Pico, no arquipélago dos Açores, tinha uma população residente de 3388 habitantes. O clube da vila, o Vitória do Pico, joga no campeonato distrital da Associação de Futebol da Horta. Hoffenheim, que fica no sul da Alemanha no estado de Bade-Vutemberga, é uma vila de dimensão semelhante a São Roque, com uma população a rondar os três mil habitantes, e do seu clube basta dizer três coisas: tem um treinador de 30 anos, está há uma década a jogar na Bundesliga e, há seis dias, ganhou ao colosso Bayern Munique.

É este o adversário que o Sp. Braga irá defrontar na primeira jornada do Grupo C, no Rhein-Neckar-Arena: um clube grande de vila pequena, que chegou ao topo sem nunca olhar para trás. O TSG 1899 Hoffenheim era, há 20 anos, um clube amador de vila, que cresceu e cresceu e cresceu graças ao patrocínio de um antigo jogador das camadas jovens do clube, o multimilionário Dietmar Hopp, que fez fortuna na área da tecnologia. Para se ter uma ideia do seu tremendo crescimento, e para não ir mais atrás, em 2000 o clube estava na quinta divisão e jogava para 300 pessoas nos jogos em casa, chegando em 2008 à Bundesliga, sem se limitar a ser um clube que luta para não descer. Agora, tem um estádio de 30 mil lugares que, tal como todos os da Bundesliga, está sempre esgotado.

Logo no primeiro ano entre os “grandes” do futebol alemão, chegou à pausa de Inverno em primeiro e, mesmo com uma segunda volta bem menos conseguida, ainda acabou em sétimo. Tem tido algumas épocas menos conseguidas, o que quer dizer fora dos dez primeiros, mas é inegável que já se estabeleceu na divisão principal e está lá para ficar. E tem feito isto com uma política desportiva inatacável, sem entrar nos negócios “loucos” que têm acontecido no futebol mundial – o máximo que pagou por um jogador foi 10 milhões ao Leicester pelo avançado croata Andrej Kramaric, autor de 18 golos na época passada.

A política do comprar barato e vender caro já rendeu dividendos em negócios como a transferência de Roberto Firmino para o Liverpool (custou quatro milhões, rendeu 40). A formação também está a dar lucro, como prova, por exemplo, a venda do jovem central Niklas Sule ao Bayern por 20 milhões, ele que foi um dos quatro jogadores do Hoffenheim chamados por Joachim Low para a tal selecção de segundas escolhas da Alemanha que ganhou a Taça das Confederações deste ano.

Foi o quarto lugar obtido na época passada que levou o Hoffenheim pela primeira vez às competições europeias. Entrou no play-off da Liga dos Campeões e ainda deu luta ao Liverpool, mas acabou eliminado com duas derrotas, e foi “despromovido” para a Liga Europa e será o principal favorito no agrupamento onde estão, para além dos minhotos, os búlgaros do Ludogorets Razgrad e os turcos do Istambul BB.

A época de sonho em 2016-17 está a ter continuidade em 2017-18, já que o Hoffenheim é um dos líderes da Bundesliga à terceira jornada. Não seria demasiado significativo não fosse o triunfo caseiro sobre o campeão Bayern Munique por 2-0, com dois golos de Mark Uth, um avançado resgatado por pouco aos holandeses do Heerenveen e que, esta temporada, já marcou cinco golos em seis jogos.

E é preciso não esquecer que o Hoffenheim está a viver os seus melhores momentos com um jovem de 30 anos no banco. Julian Naglesman tinha 28 anos quando foi nomeado treinador da equipa em Fevereiro de 2016 (o mais jovem treinador da história da primeira divisão alemã), promovido dos juniores do clube. A equipa estava numa situação difícil na altura, mas Naglesman conseguiu mantê-la na Bundesliga e prosseguiu o seu trabalho com a melhor época de sempre para o Hoffenheim. Há quem veja nele um futuro seleccionador alemão ou treinador de um clube que faça parte da realeza do futebol europeu. Para já, contenta-se em estar num clube de uma vila onde mora três mil pessoas.