Entrevista

Prémio de 25 mil euros para estudar o discurso dos políticos durante a crise

O projecto do estudo, que será feito por Catherine Moury, Dima Mohammed e João Leite, vence esta terça-feira o Prémio de Investigação Colaborativa Santander Totta/Nova de Lisboa, que tem o valor de 25 mil euros e comemora este ano uma década.

Catherine Moury é uma das coordenadoras do estudo
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Catherine Moury é uma das coordenadoras do estudo Margarida Basto

Catherine Moury já se tinha envolvido numa investigação sobre os anos da troika em Portugal. Chegou à conclusão de que a crise permitiu a alguns ministros passar medidas impopulares que eles até defendiam em privado, mas que nunca conseguiriam fazer aprovar em tempos normais.

Agora, a investigadora belga, que está actualmente no departamento de Ciências Políticas da Universidade Nova de Lisboa, quer dar mais um passo no sentido de tentar compreender de que forma o discurso do “Não há Alternativa” cria constrangimentos aos actores políticos, no Governo e na oposição – e até nos sindicatos – em países como Portugal, Espanha e França. Esse estudo também terá como coordenadores Dima Mohammed (Facudade de Ciências Sociais e Humanas) e João Leite (Faculdade de Ciências e Tecnologia).

Que projecto é este que o Prémio de Investigação Colaborativa Santander Totta/Nova de Lisboa vai financiar?
Chama-se “A política de constrangimentos: estratégias decisivas num jogo a três níveis” e tem como objectivo estudar o discurso da crise, mas também o do pós-crise e compará-los com a percepção que os decisores e cidadãos têm da realidade. Vamos estudar o período de 2008 a 2016, em Portugal, França e Espanha. Um país onde houve resgate, um onde foi exigido pouco esforço e Espanha, que teve um resgate um pouco diferente.

É um estudo que levará quanto tempo a realizar?
Um ano. Optámos por aplicar todo o dinheiro do prémio em bolsas para dar emprego a investigadores, em vez de comprarmos computadores ou viagens. Assim, conseguiremos ter dois investigadores a tempo inteiro que vão trabalhar a tempo inteiro. O prémio financia o carácter inovativo e a excelência de um projecto que tem a particularidade de ser interdisciplinar e de trabalhar com duas unidades orgânicas de duas faculdades da Universidade Nova de Lisboa.

A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e a Faculdade de Ciência e Tecnologia?
Sim, os filósofos da argumentação vão fazer connosco o trabalho de analisar uma parte dos discursos, tentar perceber se os argumentos são razoáveis e lógicos ou falaciosos, como são partilhados nas redes socias... Na parte da ciência política vamos estudar o contexto, ver se o discurso é representativo da realidade.

Qual diria que é objectivo principal do estudo?
Diria que é ver se há congruência entre o discurso que os políticos fazem e a percepção que as pessoas têm da realidade. Como é que os cidadãos acolhem esse discurso? A nossa hipótese é que há uma diferença entre um e outra. Numa altura de crise, achamos que os governos são capazes de exagerar nas contingências que têm e esconder a margem de manobra existente. Ao contrário do período actual, em que a União Europeia é impopular e precisam de dizer que a austeridade acabou. Agora, vamos ter um exagero da margem de manobra e o Governo deverá estar mais constrangido do que diz. Esta diferença entre o discurso e a realidade é capaz de criar uma desconfiança nos cidadãos.

Os governos não ficam também enfraquecidos quando há a percepção de que não estão a dizer a verdade toda?
Já começámos a tentar demonstrar que, durante a crise, os governos estão mais fracos perante a União Europeia, mas estão mais fortes ao nível doméstico, quando têm de interagir com os sindicatos, por exemplo. Porque podem jogar com os constragimentos que têm para negociar o orçamento, podem dizer que não há margem porque a União Europeia obriga. É um jogo a dois níveis: a fraqueza num contexto acaba por ser uma força no outro.

E qual é o terceiro nível deste jogo?
Os mercados. Eles também podem condicionar a acção do Governo e dos sindicatos. Podem chegar e dizer: precisamos de reformas laborais, caso contrário o país vai à falência. Os mercados acabam por ter o mesmo discurso que os credores. Tentamos mostrar através de outros países, como a Irlanda, que há uma certa margem de manobra. Há muito mais escolhas durante a crise do que as que foram apresentadas. Havia um condicionamento muito forte, sem dúvida, mas também havia margem de negociação. Não havia transparência sobre a margem de manobra.

Este estudo cruza-se com o outro que fez sobre os anos da troika e a aprovação de medidas impopulares?
Sim. Nós queremos continuar este trabalho estudando os discursos de maneira mais profissional e qualitativa, com os nossos colegas de argumentação, e analisar a forma como os discurso são percepcionados pelos cidadãos, de forma mais quantitativa, o que será feito pelos nossos colegas da computação.