Crítica

As palavras e as esculturas

Na sua mais recente exposição, na Galeria Vera Cortês, Gonçalo Barreiros retoma e expande alguns dos principais traços e métodos do seu trabalho e universo artísticos.

Inertes, recostadas, dobradas compõem o “retrato” de uma família de esculturas que se anima sem se mover
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Inertes, recostadas, dobradas compõem o “retrato” de uma família de esculturas que se anima sem se mover

Escreveu-se neste suplemento, há três anos, a propósito da exposição Nosey Parker na Vera Cortês, que os trabalhos de Gonçalo Barreiros (Lisboa, 1978) solicitam ao espectador um envolvimento lúdico com o inesperado, com o estranho tornado táctil, com o movimento suspenso das esculturas, com o quotidiano e a desconcertante diversidade dos materiais. Assinalando a constância de um universo poético e conceptual, em que a escultura se materializa na transformação de objectos, afigura-se apropriado dizer que esses elementos permanecem em Declaração Amigável, a exposição mais recente do artista.

À entrada, um desenho esquemático, que habitualmente acompanha a declaração amigável de acidente automóvel, justifica e introduz o título. A deslocação de sentido, a descontextualização realizada por Gonçalo Barreiros manifesta-se, alargando ao espectador o horizonte de significações e experiências. Sugira-se uma leitura, entre outras; o contrato afinal a que a declaração alude pode ser também aquele que se faz entre as obras e o espaço, ou entre o artista e o espectador, ou entre o espectador e as obras.

O artista conduz a percepção do visitante ao interior de um jogo de significados que se adensa quando as obras se revelam. Dezoito câmaras-de-ar, para pneus de bicicletas ou motocicletas, de dimensões variáveis e formas circulares, estão encostadas à parede formando o que poderia ser um desenho. A sua presença tridimensional, concreta no espaço, afasta essa hipótese. São esculturas que atestam o trabalho de Gonçalo Barreiros na transfiguração de objectos de uso em objectos artísticos, de materiais pobres e vulgares em materiais nobres, na reconfiguração da relação que estabelecemos com os produtos do fabrico humano. Dispostos de modos diferentes, uns esvaziados, desfalecidos, os outros cheios de ar, remetem para uma pluralidade de sentidos: movimento e suspensão, obsolescência e vigor, leveza e peso, humor e abatimento. O material de que são feitos convida ao toque, a uma aproximação táctil, pois há nele algo de ilusório, perturbando a percepção. Na verdade, são feitas de ferro e é esta modificação que permite descobrir as dobras, as marcas, as escalas, o brilho que as constitui. Inertes, recostadas, dobradas compõem o “retrato” de uma família de esculturas que se anima sem se mover.

Concebidas no atelier, onde se foram acumulando, as esculturas têm na exposição a companhia de um conjunto de frases escritas pelo artista que remetem para o interesse de Gonçalo Barreiros pelos livros, pela palavra, pela linguagem. O espectador será tentado a fazer associações entre esculturas e as frases — nestas lêem-se referências a viagens, a veículos, a coisas, a formas, a movimentos —, a pensar noutros elementos da exposição (o desenho declaração amigável de acidente de automóvel) ou referências visuais, até em histórias, narrativas, situações. Mas subsiste a ameaça de uma falência, de uma evanescência. E no lugar dos significados, pode restar apenas o ritmo das frases, a sua cadência, a sua presença sobre o papel. É no intervalo que separa o fluxo das associações e a precariedade dos sentidos que a experiência dos objectos proposta por Gonçalo Barreios se realiza. Como se as palavras criassem diante das esculturas um jogo de espelhos. Jogo de espelhos no qual o espectador entra e, por momentos, se perde.