Resposta militar a revolta dos rohingya causa fuga em massa da Birmânia

Os confrontos entre o Exército e um grupo armado no Noroeste da Birmânia levaram mais de 18 mil rohingya a procurar refúgio no país vizinho.

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Crianças rohingya atravessam a fronteira com o Bangladesh em Cox Bazar Mohammad Ponir Hossain/REUTERS

Todos os dias da última semana têm chegado à fronteira entre a Birmânia e o Bangladesh milhares de pessoas com os seus pertences em sacos à cabeça ou em riquexós, muitas com feridas de balas e aparentemente doentes. O quadro não é novo para os rohingya, uma minoria muçulmana que há décadas é perseguida na Birmânia e rejeitada pelos países vizinhos.

Em menos de uma semana, mais de 18 mil rohingya fugiram dos violentos combates no estado birmanês de Rakhine rumo ao Bangladesh, revelou a Organização Internacional para as Migrações. Milhares de refugiados estão presos numa “terra de ninguém” junto à fronteira, disse o porta-voz da OIM, Chris Lom, citado pela AFP. Fontes da ONU citadas pela Reuters na manhã desta quinta-feira apresentam novos números, contabilizando 27.400 rohingya que já fugiram na última semana para o Bangladesh e 20 mil que estarão presos na “terra de ninguém” junto à fronteira.

Se por terra a missão é difícil, pelo mar o desafio é monumental. A primeira etapa é chegar à cidade portuária de Sitwe, onde milhares de rohingya se concentram num campo improvisado enquanto esperam partir de barco para fazer a perigosa travessia do Golfo de Bengala. Se sobreviverem, as garantias de ser acolhidos no Bangladesh são praticamente nulas.

As pessoas que tentam escapar à violência em Rakhine estão numa “condição muito, muito desesperada”, diz o chefe do gabinete da OIM em Cox Bazar, a porta de entrada marítima no Bangladesh. “As principais necessidades são comida, serviços de saúde, e também precisam de abrigo. Precisam de pelo menos um tecto sobre a cabeça”, diz Sanjukta Sahany. Muitos apresentam também ferimentos de balas e queimaduras. “As pessoas estão traumatizadas”, acrescenta o mesmo responsável.

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A violência em Rakhine não é algo de novo, mas nos últimos dias os confrontos entre o Exército birmanês e elementos de um grupo armado têm subido de intensidade. Tudo começou na última sexta-feira quando cerca de trinta postos da polícia na região foram alvos de ataques simultâneos e aparentemente coordenados, reivindicados pelo Exército de Salvação dos Rohingya de Arracão (ESRA). Seguiu-se uma renovada ofensiva pelo Exército que deixou uma centena de mortos, sobretudo entre os rebeldes.

Vários relatos sugerem, no entanto, que os militares têm atacado indiscriminadamente a população muçulmana, destruindo as casas de aldeias inteiras. “A situação é muito aterradora, as casas estão a arder, as pessoas fogem das suas casas, pais e crianças são separadas, algumas perdidas, outras mortas”, diz à Reuters Abdullah, um rohingya de 25 anos que fugiu com a mulher e a filha de cinco anos para o Bangladesh. A Human Rights Watch diz que imagens de satélite registadas nos últimos dias mostram incêndios em várias aldeias habitadas por rohingya e pede uma investigação independente. O Governo e o Exército acusam os membros da minoria muçulmana e os membros do ESRA de serem responsáveis pelos incêndios.

Há muito tempo que o estado de Rakhine é palco de enormes episódios de violência inter-étnica. Em 2012, uma série de confrontos entre a população rohingya e budista causou a morte de 200 pessoas. Vários indícios apontavam para a responsabilidade de líderes extremistas budistas locais, que incentivaram a violência, mas a resposta oficial dirigiu-se exclusivamente aos rohingya: cerca de 140 mil foram enviados para campos de trabalho.

Exército próprio

A mais recente onda de violência começou em Outubro do ano passado, quando três postos da guarda fronteiriça foram atacados por grupos de homens armados. A acção espoletou uma ofensiva do Exército que mantém Rakhine em estado de emergência desde então. Os ataques coordenados marcaram a primeira acção reivindicada pelo ESRA, um grupo que se apresenta como a resistência armada contra os abusos sofridos pelos rohingya. O Governo birmanês acusa-os, no entanto, de serem uma organização terrorista que tem o objectivo de declarar um “Estado islâmico” em Rakhine.

Um membro do grupo disse ao Asia Times que os ataques da semana passada tiveram um carácter “defensivo”, uma vez que estaria iminente uma nova ofensiva do Exército. O militante contraria as acusações de terrorismo do Governo e diz que o grande objectivo é alcançar “o estatuto de grupo étnico reconhecido pela Birmânia” para os rohingya.

Na Birmânia, os rohingya são um dos grupos mais excluídos da sociedade, sem direito a cidadania – sendo legalmente apátridas – e destinados a uma vida de pobreza, quando não de perseguição. Sobre eles são impostas várias restrições, incluindo em relação ao número de filhos e à liberdade de movimentos. O próprio termo rohingya é rejeitado pelas autoridades birmanesas, que se referem à comunidade como bengalis que imigraram de forma ilegal do Bangladesh. Rohingya significa “proveniente de Arracão”, o nome antigo pelo qual era conhecido Rakhine, o que sinaliza a sua ligação secular àquela região.

Ao mesmo tempo que são mal tratados na terra que dizem ser a sua casa, os rohingya enfrentam a rejeição nos restantes países da região. O Bangladesh é o destino mais próximo, onde desde Outubro já chegaram cem mil refugiados. Porém, o Governo de Daca nega que os rohingya possam ser considerados cidadãos do país – como argumenta a Birmânia – e tem aumentado as recusas de entrada. O mesmo acontece em países como a Malásia, Tailândia e Indonésia. Em Maio de 2015, a região assistiu ao culminar de uma crise migratória, quando milhares de pessoas se encontraram em pequenas embarcações lotadas à deriva no mar de Andamão, denunciada pela OIM como “um jogo de pingue-pongue marítimo”.