Associações reconhecem fragilidades, mas só o Banco Alimentar não apoia

AMI, Cáritas e Cruz Vermelha vêem evoluções positivas no actual modelo relativamente aos anteriores, embora antecipem dificuldades na distribuição de alimentos aos mais carenciados nos próximos dois anos.

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Isabel Jonet critica que foram escolhidos alimentos que há em excesso, em vez de outros que fazem lata FTX Fabio Teixeira

A Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome instou as suas várias delegações a não se candidatarem para distribuir os alimentos. Dos 21 bancos alimentares, apenas os do Algarve, Porto, Setúbal, Viana do Castelo, Braga e Aveiro o fizeram.

Isabel Jonet, presidente da federação, diz que a escolha dos produtos foi “completamente aleatória” e alheia ao trabalho das instituições no terreno. Jonet critica a ementa por contemplar “produtos que existem em excesso na ajuda alimentar”, em vez de “completar aquilo que as instituições do terreno já têm”.

Teme o desperdício, em especial dos produtos congelados, por dependerem das condições de distribuição das instituições e dos electrodomésticos que os beneficiários tenham. “É utópico. É preciso que todas as famílias tenham os mesmos hábitos de consumo, onde guardar os produtos e cozinhem tudo dentro dos prazos”, afirma.

A selecção dos beneficiários é também, no entender de Isabel Jonet, “injusta”: “É a lógica de dar muita comida a poucas pessoas, o que significa um desconhecimento total da realidade. Seria horrível para as nossas instituições saber que estavam a ser injustas nesse processo”. Por isso o Banco Alimentar não quis participar.

Já a AMI está “muito confiante na justificação da selecção” dos beneficiários. Leonor Nobre, administradora que tutela a acção social, garante que a base de dados partilhada entre as instituições e a Segurança Social “está a funcionar muito bem”: “Que o rigor está lá, está”.

Leonor Nobre afirma que o modelo vai “exigir um esforço colossal das instituições”, mas acredita “que as coisas vão funcionar como deve ser”. A dirigente da AMI defende que o actual programa “garante uma maior qualidade daquilo que é distribuído, apesar de chegar a menos pessoas”. “Ao fim de dois anos de carência, estamos esperançados que este fundo seja uma mais-valia para a ajuda humanitária”, reitera.

Uma posição semelhante é a da Cruz Vermelha Portuguesa, que também se congratula com a inclusão de produtos perecíveis, como o peixe e carne e os legumes congelados. “Sendo obviamente um desafio, são uma inquestionável mais-valia para as pessoas”, comentam, numa resposta enviada por escrito, Cristina Louro, vice-presidente, e Daniela Costa, coordenadora do Programa Portugal + Feliz da instituição.

A Cruz Vermelha, que participa com 30 delegações, diz valorizar muito esta “preocupação de responder a 50% das necessidades nutricionais de seis grupos etários distintos”, afirmando que anteriores programas não respondiam”, de todo, a este nível de carência das pessoas”. Saúdam ainda o facto de, pela primeira vez, “’o ‘apoio alimentar’ surgir na lógica integrada com a intervenção social técnica”.

Pobreza envergonhada

O programa de distribuição de comida, alimentado pelo fundo, tem directrizes europeias, mas cada país decide como o implementar. Ao contrário do que foi feito em Espanha, França e Itália, que seleccionaram as entidades com maior experiência na distribuição alimentar, Portugal abriu um concurso público.

Concorreram 150 instituições. Entre elas há ainda delegações da Santa Casa da Misericórdia, centros paroquias, associações locais, e autarquias. Para Isabel Jonet, isto “representa uma distorção daquilo que é a ajuda alimentar. Com a agravante de este ser um ano de autárquicas”.

São questões de ideologia, diz o presidente da Cáritas, que se faz representar na distribuição alimentar através das Cáritas Diocesanas. Das 20 que existem no país, mais de metade concorreu. Eugénio Fonseca diz que um “cabaz fechado” retira a possibilidade de escolha e “atenta contra a auto-estima e autonomia” dos beneficiários. Esta entrega de alimentos “de maneira alguma trata da inserção social” e, acredita, “é uma humilhação para uma pobreza já de si envergonhada”.

À semelhança do Governo, o presidente da Cáritas aponta o dedo à Comissão Europeia, que “impõe o condicionalismo”. Propõe, em alternativa, a criação de um vale universal de compras “que salvaguarde a dignidade das pessoas”. Um mecanismo que a Cáritas e a Cruz Vermelha já adoptaram noutros projectos, em parceria com uma grande superfície comercial.