Dois cheques gordos e um cinto de campeão com 3360 diamantes

Floyd Mayweather Jr. e Conor McGregor enfrentam-se esta madrugada num combate muito aguardado, que opõe o pugilista considerado o melhor da sua geração, e o lutador fenómeno do universo MMA

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Mayweather e McGregor numa das habituais picardias que fazem parte das acções de promoção do combate Reuters/STEVE MARCUS

Dois anos depois do “combate do século”, e eis o “combate do século”. Floyd Mayweather Jr., que em 2015 levou a melhor sobre Manny Pacquiao, num dos combates mais aguardados do boxe, enfrenta na próxima madrugada, na T-Mobile Arena em Las Vegas, Conor McGregor. Um duelo improvável, que polarizou opiniões entre a expectativa e as críticas. Num canto um pugilista, considerado o melhor da sua geração. No outro um lutador, fenómeno de popularidade no universo das Artes Marciais Mistas (MMA). Dois atletas de eleição, mas de contextos competitivos distintos, com personalidades e egos desmesurados, vão dar corpo a um espectáculo que vai muito além do boxe, que deverá bater todos os recorde de audiência – e, portanto, de receitas.

Aos 40 anos, e de regresso ao activo só para o combate desta madrugada (a SportTV1 inicia a emissão à meia-noite, mas o combate só deverá começar depois das 04h), o norte-americano Mayweather quer manter intacto o seu registo 100% vitorioso enquanto profissional: 49 triunfos e 0 derrotas. Se vencer McGregor chegará aos 50-0, superando a lenda Rocky Marciano, que terminou a carreira com 49-0. Mas o irlandês, 11 anos mais novo, tem a seu favor uma ascensão fenomenal: estreou-se no Ultimate Fighting Championship (UFC), a divisão de elite do MMA, apenas em 2013, mas não demorou a chegar ao topo e, há um ano, tornou-se no primeiro lutador a deter em simultâneo o cinto de campeão de duas classes de peso.

A digressão para promover o combate passou por Nova Iorque, Los Angeles, Toronto e Londres. Em cada paragem, milhares de pessoas encheram recintos para ver os dois protagonistas insultarem-se, provocarem-se – em suma, serem iguais a eles próprios. “Deus só criou uma coisa perfeita, que é o meu registo profissional”, atirou Mayweather. “Porque trazes uma mochila da escola para o palco? Nem sabes ler”, contrapôs McGregor, ironizando em relação à mochila que o norte-americano faz transportar por um seu assistente, cuja função é carregar os volumosos maços de notas com quem anda sempre.

Milhões para a mochila

Tanto a mochila de Mayweather como a conta bancária de McGregor – que até há quatro anos, antes de começar a competir no UFC, tinha como único rendimento os 188 euros que recebia da segurança social – vão acomodar alguns milhões de dólares após o combate desta madrugada. Os contratos têm cláusulas de confidencialidade, mas as estimativas apontam para que cada um receba um valor na ordem dos 100 milhões de dólares (84 milhões de euros) só por participar. Isto sem contar com o que vão encaixar em patrocínios, merchandising e percentagem das receitas televisivas e de bilheteira.

Para além de um confronto de estilos – Mayweather é mestre nas qualidades defensivas, McGregor notabiliza-se pela esquerda incisiva e potente – a revista especializada The Ring prevê que o combate pulverize o recorde de receitas estabelecido há dois anos pelo Mayweather-Pacquiao. O duelo desta madrugada poderá atingir os 664 milhões de dólares (559 milhões de euros), e dois terços deste montante deverão corresponder a direitos televisivos: o combate será transmitido em pay-per-view – 89,95 dólares ou 99,95 para alta definição – e as estimativas apontam para uma audiência superior aos 4,6 milhões do anterior “combate do século”. Os bilhetes para a T-Mobile Arena, com capacidade para 20 mil espectadores, iam dos 500 dólares (para lugares com pouca visibilidade) aos 10 mil dólares pelos assentos junto ao ringue.

O vencedor ostentará um cinto muito especial, com 3360 diamantes, 600 safiras, 300 esmeraldas e 1,5 quilos de ouro. Mas também não se livrará das críticas. “O combate foi comparado a uma corrida de 5000m entre Usain Bolt e Mo Farah, ou um concurso de trompete entre Miles Davis e Jimi Hendrix”, escreveu Bryan Armen Graham no The Guardian. Ou seja, um especialista contra um virtuoso de outra especialidade. “Se um duelo de circo como este é o melhor que o boxe tem para oferecer, que esperança há para o futuro da modalidade?”, questionou o mesmo autor.

Seja qual for esse futuro, Mayweather não vai fazer parte dele. “O seu legado será ter ganho todos os combates que interessavam. Para além de não lhe permitir ultrapassar o registo de 49-0 de Rocky Marciano, uma derrota para McGregor seria excepcional – uma daquelas decisões estúpidas que as pessoas fazem por dinheiro”, sublinhou Les Carpenter no mesmo diário britânico. O cheque será brutal, mesmo que o combate deixe a desejar.

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