À espera de um tsunami nos Andes

Na era das alterações climáticas, o derretimento de gelos pode ter consequências catastróficas. Em Huarez, no Peru, o desafio é explicar às populações o que está a acontecer.

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A cordilheira dos Andes vista do cemitério de Huaraz Jabin Botsford/Washington Post

Depois de um dia cheio de Sol, um bloco de gelo do tamanho de um camião separou-se há poucas semanas do glaciar no Monte Pucaranra. Mergulhou para o lago que fica logo abaixo e provocou uma onda de mais de 2,5 m de altura. O guarda florestal Victor Morales, um homem baixo, felino, com um gorro de esqui esfarrapado, correu para uma cabina de pedra na encosta do monte para comunicar pelo rádio. A onda danificou o sistema de escoamento de emergência que serve para reduzir o volume do lago. Mas, para seu grande alívio, a barragem de terra que contém a água estava intacta.

“Não foi uma avalanche muito grande”, diz Morales.

O Lago Palcacocha, no Peru, tem mais de 1,5 quilómetros de extensão e 76 metros de profundidade. Se houvesse uma grande avalanche, seria como deixar cair uma bola de bólingue numa banheira. Há simulações que dizem que uma onda de 30 metros destruiria a barragem: mais de 11 mil milhões de litros de água gelada desceriam a alta velocidade pelo monte abaixo em direcção à cidade de Huaraz, soterrando os seus 200 mil habitantes num tsunami de lamas, árvores e pedregulhos.

Este lago é um dos exemplos das ameaças iminentes causadas pelas alterações climáticas, que os países em desenvolvimento enfrentam. O Peru é especialmente vulnerável pois é lá que estão mais de 70% dos “glaciares tropicais” (pequenos bancos de gelo, a alta altitude, em latitudes médias). O Peru transformou-se numa espécie de laboratório para a adaptação humana às alterações climáticas. Não tem corrido muito bem até agora.

“Para países como o Peru que estão a tentar sair da pobreza, há grandes obstáculos sociais, culturais e económicos à adaptação”, diz Nelson Santillán, investigador da Direcção Nacional de Águas do Peru. “Identificar os riscos é uma coisa, mas agir é outra.”

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Victor Morales, o guarda florestal que deu o alerta Jabin Botsford/Washington Post

Milhões de pessoas dependem do escoamento de águas dos glaciares peruanos para ter acesso a água, comida e energia hidroeléctrica. Alguns já perderam mais de 90% da sua massa. Em locais como o Lago Palcacocha, a água está-se a juntar em grandes poças de gelo derretido. Muitos destes novos lagos estão contidos por moreias glaciares, que são montes de sedimentos comprimidos. Mas, à medida que aumenta o volume de água que contêm, estas podem colapsar.

Para as autoridades peruanas, a questão está a tornar-se mais num problema de engenharia do que num lamento ambiental. Sem um escoamento glaciar fiável, os sistemas de água e de irrigação vão ter de ser readaptados. Vão ser necessárias novas barragens e novos reservatórios mais eficientes. Os investimentos na agricultura e em indústrias que dependem de água vão ter de ser recalculados.

Soledad matou o dragão

“O glaciar costumava chegar até ali”, diz Tomás Rosario, agricultor de 45 anos que cultiva perto da montanha Huascaran, de seis quilómetros de altura, o pico mais alto do Peru.

Em Novembro, a meio de um período de seca, começou a correr um rumor na sua povoação, Soledad, e noutras aldeias em que se fala a língua quéchua, e onde se cultiva batatas e milho nas encostas. A estação das chuvas ainda não tinha chegado, os campos estavam secos e o gado a morrer. O Governo dizia que o aquecimento global estava a piorar a situação.

Mas os habitantes das aldeias não acreditaram.

As suas suspeitas recaíram nas estranhas máquinas que os cientistas e a organização sem fins lucrativos CARE Peru tinham colocado no lago 513, outro lago de águas glaciares demasiado cheio, não muito longe do Palcacocha.

Tratava-se de um sistema de alerta de emergência de cheias no valor de mais de 1,2 milhões de euros, que incluía uma estação de monitorização para avisar os cerca de 13 mil habitantes que vivem a jusante do lago, na cidade de Carhuaz, em caso de ruptura da barragem. Uma cheia em 2010 desencadeada por uma avalanche de gelo no lago 513 destruiu dezenas de casas.

Contudo, no meio de uma seca, ninguém estava preocupado com uma cheia. Sobretudo depois de vários anos de chuvas fracas. “Todos diziam que as máquinas estavam a afastar as chuvas”, diz Feliciana Quito, que cultiva um terreno perto do lago.

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A cidade de Carhuaz Jabin Botsford/Washington Post

O presidente da câmara de Carhuaz, Jesús Caballero, ofereceu-se para lhes mostrar que as máquinas eram inofensivas. Mas conta que quando chegou ao lago nesse dia era claro que não estavam interessados numa palestra sobre o clima. Alguns dos jovens estavam com paus nas mãos. Era um linchamento.

"Disse-lhes que a maquinaria não tinha nada a ver com as chuvas", conta Caballero. "Mas nada que lhes dissesse os fazia mudar de opinião.”

Os habitantes da aldeia atacaram a estação de monitorização, destruindo antenas e painéis solares. Partiram alguns dos instrumentos e levaram os restantes montanha abaixo, triunfantes, como se tivessem derrotado um dragão.

As chuvas vieram três dias depois, acabando com a seca. A população estava radiante. A sua hipótese científica fora confirmada.

Desgoverno

Mas agora o lago não tem qualquer sistema de alerta de emergência caso a barragem rebente. Os agricultores dizem que não irão permitir que os estrangeiros voltem a instalar os equipamentos, muito menos passar pelas suas terras. Quando a CARE Peru enviou uma equipa para avaliar os danos, foram parados no caminho por mulheres com pedras nas mãos, ameaçando-os. “Não vamos deixar que ninguém instale o que quer que seja lá em cima que interfira com as chuvas”, diz Rosario, uma das pessoas que foi até ao lago com o presidente da câmara.

Caballero disse que esta situação demonstra a necessidade de uma maior sensibilidade em relação aos medos dos habitantes das zonas rurais, cujas vidas e tradições são viradas do avesso com a falta de água e temperaturas extremas. Teme que a população redireccione a sua raiva para os sistemas de monitorização colocados noutros lagos ali perto, como Palcacocha. “Se não chover, tenho medo que vão até lá e o destruam também”, disse.

Seria particularmente imprudente destruir o sistema de monitorização de Palcacocha. Em 1941, uma cheia matou milhares de pessoas em Huaraz, e a cidade na altura só tinha 17.000 habitantes. Desde então, a população cresceu exponencialmente devido à oferta de trabalho nas minas e no turismo. Os terrenos das margens do rio estavam a preços reduzidos e hoje esta é a zona da cidade mais povoada com escolas, hospitais e um estádio.

Desde os anos 1970, quando houve um grande terramoto, o volume do lago aumentou 34 vezes, devido ao acelerado degelo dos glaciares. Em 2011, as margens do lago subiram tanto que as autoridades declaram estado de emergência. Pouco depois, foram instalados tubos flexíveis de plástico para escoar a água em excesso, como se fossem palhinhas de plástico gigantes.

Os sifões baixaram o nível de água em quase seis metros, mas depois de serem atingidos na recente queda de gelo só dois estão a funcionar. Uma grande avalanche levaria os tubos para fora do lago e o desaguadouro, que é a última válvula de segurança da barragem, ficaria entupida com pedras e gelo.

O Ministério do Ambiente disse que seria fácil escoar o lago para que este fique a um nível de água mais seguro recorrendo a técnicas simples de engenharia, que custariam cerca de seis milhões de euros. Em contraste, uma falha na barragem e consequente cheia em Huaraz causaria danos de cerca de 2,1 mil milhões de euros, sem falar nas milhares de mortes.

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Foram instalados tubos flexíveis de plástico no lago Palcacocha para escoar a água em excesso Jabin Botsford/Washington Post

Mas melhorar a situação em Palcacocha tornou-se num debate aceso. O lago situa-se dentro de um parque nacional, onde grandes projectos de engenharia não são bem-vindos. Enquanto o Governo central de Lima está ansioso por drenar o lago, os agricultores dizem que precisam da água e querem novos reservatórios, que armazenaria a água noutro local e redistribuiria a carga.

Estas propostas estão recheadas de uma enorme desconfiança. Os últimos três governadores de Huaraz foram presos por suborno e a reputação do Governo não é muito melhor, pois dois ex-presidentes também estão a ser acusados de corrupção.

As ameaças de alterações climáticas são novas, as falhas no sistema político não o são, aponta Jahir Ancaima, director dos escritórios da CARE Peru em Huaraz. “No fundo, tudo passa por ter uma governação eficiente.”

Exclusivo PÚBLICO/Washington Post