Entrevista

Inês Henriques: "O que eu fiz é muito duro, mas o que a minha mãe faz todos os dias é muito mais"

A pioneira portuguesa dos 50km marcha fala do caminho que a levou ao título mundial em Londres e a mais um recorde.

Inês Henriques
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Inês Henriques LUSA/FACUNDO ARRIZABALAGA
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Inês Henriques LUSA/JEAN-CHRISTOPHE BOTT
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Inês Henriques Reuters/TOBY MELVILLE
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Inês Henriques Reuters/MATTHEW CHILDS

“Estás viva, pá?” Era a pergunta que o treinador Jorge Miguel fazia a Inês Henriques depois de 50km a marchar, mais umas dezenas de metros a falar para os jornalistas e a receber parabéns de toda a gente. Não era para menos. A marchadora acabava de se sagrar, em Londres, a primeira mulher campeã mundial dos 50km marcha na primeira vez que o evento foi aberto às mulheres. Partiram sete, acabaram quatro e a portuguesa ficou com a medalha de ouro, a primeira em dez anos para Portugal, depois de Nelson Évora em 2007. Depois da prova, entre muitos pedidos de fotografias com o ouro ao peito, a atleta de 37 anos conversou com o PÚBLICO e falou de uma conquista que não foi apenas dela e da mãe, a principal inspiração para se lançar na prova mais longa do atletismo.

Já não se ouvia o hino português em Mundiais de atletismo há dez anos…
Em 2007, com o Nelson, não foi? Nunca pensei em conquistar isto, sinceramente. Era um sonho, mas com a minha idade, com tudo o que tinha acontecido, já tinha perdido essa esperança. Os 50km deram-me isto.

Abriram uma porta.
Sem dúvida nenhuma. Quando o Jorge Miguel [o treinador] me propôs isto, eu continuei a minha carreira este ano porque continuo a adorar o que faço e, depois, o Jorge Miguel fez-me este desafio. Neste momento, preciso de desafios, preciso de coisas diferentes para ter energia e aceitei quase de imediato. Ainda falei com o meu namorado primeiro e, menos de duas horas depois, disse, ‘ok, vamos experimentar’.

Qual é a sensação de ser a primeira numa coisa?
Não sei, ainda não sei explicar. Só quando chegar a Portugal é que vou dar conta de tudo isto que fiz. A minha irmã diz ‘eu não fiz nada, sou tua irmã e o telemóvel não pára’. Foi uma coisa fantástica, mas, sem dúvida nenhuma que o mais importante é poder dar isto ao meu treinador, porque acho que, com quase 69 anos, merecia por tudo o que ele fez, por todas as atletas que ele levou aos Jogos Olímpicos. A marcha é conhecida pelo treinador Jorge Miguel, Rio Maior é conhecido pela marcha e pelo Jorge Miguel. E outra coisa, é saber que os meus pais devem estar muito orgulhosos pelo que a filha conquistou hoje e pelo que tem conquistado ao longo dos tempos. Não têm sido fáceis, demoro algum tempo, mas chego lá na mesma.

Este título não foi só um triunfo pessoal. Também houve aqui uma conquista maior.
O Jorge Miguel também era contra isto, de haver 50km para homens e não para mulheres. Quando ele soube que ia haver uma prova em que os mínimos eram iguais numa prova mista, ele questionou as pessoas primeiro. Ele não me disse nada antes, ele foi fazendo perguntas. Um dia, ele chamou-me à parte de uma forma e eu pensei, ‘mas eu fiz alguma coisa de mal?’. E lança-me isto. ‘Tu és capaz de fazer menos de 4h06m!’. E eu, ‘Acha?’. Tanto ele como o Nuno acharam que se eu não conseguisse, não havia mais nenhuma mulher no mundo que conseguisse. E se eles acreditavam que era possível, eu também tinha de acreditar nas minhas capacidades. Tentámos este feito, inicialmente, porque queríamos que eu tentasse alcançar as 4h06m para estar aqui uma mulher para demonstrar que o que estavam a fazer era errado. Nem que fosse a única, nem que não tivesse classificação, nem que não tivesse direito a nada. Queria estar aqui para ser a primeira e demonstrar o que nós podemos fazer. Outras mulheres também se revoltaram com o que a IAAF estava a fazer para termos direito à nossa prova. Tudo o que aconteceu depois, a espera longa, sabermos desta notícia a três semanas da prova, não está correcto. Devíamos ter tido logo direito ao mínimo de 4h30m. Foi por pressão, mas os 50km só entravam assim. Quero agradecer à IAAF por reconhecer o erro e por alterar a situação. Ok, só tivemos aqui sete atletas, mas nós fomos as pioneiras para outras mulheres. A prova agora só vai evoluir se as mulheres quiserem e eu espero que elas queiram.

Já há muitas mulheres em Rio Maior a querer fazer 50km?
Não… O nosso grupo é muito jovem. Temos outra miúda, mas só tem 20 anos. A Susana Feitor está na fase de ‘abandona, não abandona’. Neste momento, ainda não. O resto são miúdas juvenis e juniores. Ainda não, mas vamos ver se arranjamos mais algumas. Em Portugal não está fácil. A Ana Cabecinha, ‘não, 50km não, nem pensar’. Vamos ver.

Isto é uma coisa só para gente com experiência?
Tem de se ter experiência. Tem de se ter uma carreira já com alguns anos para se conseguir ter capacidade para aguentar 50km. Há muita gente que diz que é uma coisa horrível fazer 50km. Não é fácil, eu nunca disse que era fácil. Mas, tendo em conta o treino todo que eu tenho, tinha de ter muita cautela para não exagerar nos ritmos e poder chegar ao fim. Aqui, quando vi que a chinesa ficou para trás, ‘Ok, Inês, controla-te e não faças erros’. Eu não podia cometer erros. Em termos musculares já sentia um desgaste muito grande. Nos últimos cinco quilómetros baixei o ritmo, mas tinha margem para conseguir controlar e chegar melhor do que cheguei em Porto de Mós – na última volta já estava a andar um bocadinho torto.

É um risco querer andar demasiado depressa nestas provas…
Sem dúvida. Paguei isso tudo em Porto de Mós. Só acabei pela força de vontade, de querer, porque fisicamente estava muito desgastada. Andava de um lado para o outro na estrada, aos ‘esses’. O Jorge Miguel dizia-me ‘Anda direita’. Para quem estava a ver, era mais aflitivo porque eles não sentiam o que eu estava a sentir. De alguma forma sentia que conseguia chegar ao fim, eles pensavam que eu ia cair a qualquer momento.

Aqui o Jorge Miguel gritou muito consigo?
Estava sempre a dizer, ‘Tem calma, tem calma. Tem paciência’. O médico teve de lhe dar dois calmantes durante a prova porque ele estava no abastecimento e não queria falhar nada. É fundamental nos 50km, correu tudo dentro do normal. Havia um gel que era de magnésio, que era fundamental, que eu apanhei mal e ficou-me no braço e saiu tudo, porque aquilo é muito líquido. Fiquei com o braço cheio de gel e só comi um bocadinho. Tomei o de reserva e acabou por correr tudo bem.

Já sabe quando vai ser a próxima marcha longa?
Não sei. Na próxima semana ainda faço umas corridinhas para o corpo recuperar. Não posso parar já, o corpo não ia gostar. Mais fisioterapia e massagens em Rio Maior. Eu estou num clube que não tem possibilidades de me pagar, mas em Rio Maior tenho tudo. Não preciso de sair de lá para ter todas as condições de um atleta de elite. Só saio de Rio Maior para os estágios de altitude. Temos tudo do melhor e isso é muito dinheiro.

O que recebeu do título e do recorde do mundo vai dar uma grande ajuda…
Nunca pensámos na parte financeira. O Jorge Miguel andou sempre nisto por carolice, eu nunca pensei nisto para ganhar dinheiro. Aconteceu. Principalmente, queria mostrar ao mundo que nós podíamos fazer isto.

Fora do desporto, houve outras situações em que tenha sentido essa desigualdade entre homens e mulheres?
Não muito. Mas eu também sou uma lutadora por isto porque tenho uma mãe que sempre fez trabalho de homem. O trabalho dos meus pais é muito duro, eles vendem lenha e carvão. A minha mãe sempre fez tudo o que os homens faziam. O que eu fiz hoje foi muito duro, mas o que a minha mãe faz todos os dias é muito mais duro. Eu, às vezes, nem sei como é que ela aguenta.