A extrema-direita americana mostrou a sua força na Virgínia

Governador declarou estado de emergência por causa de confrontos que causaram pelo menos uma vítima mortal em Charlottesville. Donald Trump manteve-se silencioso durante um tempo incomodamente longo.

Manifestante ferido pelo carro
Manifestante ferido pelo carro Joshua Roberts/REUTERS
Milícia de supremacistas brancos na manifestação na Virgínia
Milícia de supremacistas brancos na manifestação na Virgínia Joshua Roberts/REUTERS
Os confrontos tornaram-se bastante violentos
Os confrontos tornaram-se bastante violentos Joshua Roberts/REUTERS
Manifestantes com tochas invadiram o campus da Universidade da Virgínia
Manifestantes com tochas invadiram o campus da Universidade da Virgínia Alejandro Alvarez/REUTERS
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O governador da Virgínia declarou estado de emergência em Charlottesville, devido à realização da maior manifestação de extrema-direita dos últimos anos nos EUA. Já depois de a polícia ter dispersado os manifestantes — e muitos contramanifestantes — um carro atropelou pelo menos dez pessoas que tinham estado em confronto com os grupos de extrema-direita, fazendo um morto e vários feridos, segundo o presidente da câmara, Mike Signer, e um hospital da cidade. O condutor do automóvel foi detido, segundo o jornal USA Today.

A cidade de Thomas Jefferson, um dos fundadores dos Estados Unidos, tornou-se este fim-de-semana a capital dos supremacistas brancos, saudosistas nazis, membros da Ku Klux Klan, activistas da alt-right e demais grupos da extrema-direita norte-americana, onde eram esperados cerca de 6000 manifestantes – e contramanifestantes – a pretexto da recente remoção de uma estátua do general sulista Robert E. Lee, que comandou as forças da Confederação na Guerra da Secessão dos EUA, de 1861-65.

A polícia acabou por declarar este protesto uma "reunião ilegal", e usou gás lacrimogénio e gás de pimenta para dispersar os manifestantes, que se envolveram em confrontos, descritos como “extremamente violentos” por jornalistas no local.

Na sexta-feira à noite, como um aperitivo assustador do ressurgimento dos grupos de extrema-direita nos Estados Unidos, cerca de mil militantes que participam no protesto Unite the Right juntaram-se para uma marcha à luz de tochas que entrou no campus da Universidade da Virgínia, com cânticos fascistas, como “sangue e solo" e "um povo, uma nação, acabem com a imigração" e envolveram-se em confrontos com contramanifestantes.

David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan – e apoiante de Donald Trump, ainda que este tenha acabado por rechaçar o seu apoio – esteve também em Charlottesville. E ainda declarou que esta manifestação “cumpre as promessas de Trump”.

Segundo o Southern Poverty Law Center, uma organização que investiga crimes de ódio e racismo desde os anos de 1960, a maior organização nazi dos EUA participou nesta manifestação, o Movimento Nacional Socialista. O objectivo, diziam numa convocatória no Facebook, é “unir a direita contra o avanço do comunismo totalitário, protestar contra as políticas de imigração dos EUA e da Europa e afirmar o direito dos sulistas e dos brancos de organizarem os seus interesses como qualquer outro grupo pode fazer, sem serem perseguidos”.

É um discurso que mostra uma construção de uma verdadeira realidade paralela, baseado numa visão racista, em que quem se define como branco – e sulista, com todo o peso que isso tem na história dos EUA – se sente acossado pelos valores da sociedade actual. E que considera os imigrantes, e refugiados, como uma ameaça ao seu modo de vida.

O patriotismo e a violência misturaram-se de forma desconfortável: homens armados, com uniformes de tipo militar, formando milícias, outros com escudos e capacetes, juntaram-se a hipsters de barba farta vestidos de fato completo branco, como um senhor sulista à antiga, para expressar a sua pertença a esta revolução de extrema-direita. Se não adeptos, tem ganho pelo menos visibilidade, com as redes sociais, o advento do tendencioso site de notícias Breitbart (que foi dirigido pelo actual estratega da Casa Branca Stephen Bannon) e, claro, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. 

A falta de uma intervenção do Presidente dos EUA sobre a manifestação – pelo menos enquanto se estava a passar – foi bastante comentada. A primeira pessoa da Casa Branca a expressar-se sobre o sucedido, sublinhava a CNN, foi, surpreendentemente, a primeira-dama, Melania Trump. “Não comuniquemos com ódio no coração. Nada de bom vem da violência”, disse no Twitter, usando a hashtag #Charlottesville.

Donald Trump só o fez quase uma hora depois: “Todos devemos unir-nos e condenar o ódio. Não há lugar para esta violência na América. Vamos unir-nos". Mais tarde, o Presidente dos EUA acrescentou que condenava as violência de "várias partes".