O champanhe dos noivos na colecção de camisolas de Belmiro Silva

Antigo patrão ofereceu-lhe uma bicicleta de cem contos, gerando uma dívida de gratidão que o cala tão fundo como a queda fatal de Joaquim Agostinho na Volta ao Algarve que mais lhe custou vencer.

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

A Volta de 1978, ainda fortemente marcada pela Revolução de Abril, revelou um diamante raro, escondido na simplicidade que nem a exaltação da vitória na prova-rainha desse ano conseguiu arrebatar, depois de 39 edições decorridas. À segunda aparição, o “moreno” de Válega, Ovar, conquistou um pelotão saudoso de Joaquim Agostinho, o monstro sagrado do Alpe d’Huez que, em Maio de 1984, tombaria mesmo ao lado de Belmiro Silva.

Longe de imaginar o 19.º lugar no ano de estreia, na Volta de 1976, Belmiro iniciava, por brincadeira, uma carreira impulsionada pela participação em corridas de amadores, nas quais Custódio Gomes lhe detectara enorme potencial. “Convidou-me para um teste, arranjou-me uma bicicleta para treinar e lá fui eu”, resume, sem tempo para poder assimilar a solenidade do momento. “Quando dei por ela, estava no meio da fina flor do ciclismo”, lembra, constrangido por não ter conseguido apanhar a roda dos consagrados naquela manhã.

Nada que o diminuísse, como se percebe pela sequência cronológica. “Depois da subida esperaram por mim e nem acreditei quando me disseram para ir ter a casa do treinador às oito da manhã. No fim do segundo teste, levaram-me à Rua do Bonjardim para tirar fotografias tipo passe e assinar pelo FC Porto”, diz, com indisfarçável orgulho, logo fustigado pelas memórias de 1976.

“Chovia muito naquele ano. As pessoas iam de guarda-chuva abrigar-nos à partida. As quedas e as desistências dizimaram o pelotão. Eu próprio caí sete vezes só numa etapa, que aliás acabei de bicicleta às costas com o eixo da roda de trás partido”, assume, conformado pela prestação pouco convincente que lhe custaria a ausência no ano seguinte. “O FC Porto contratou o Venceslau e o irmão. A exclusão deixou-me triste e sentido. Mas a Volta não correu como o FC Porto esperava. Em Setembro, provei que merecia ter ido, ao ganhar a Volta ao Algarve, onde recuperei a confiança. Depois disso decidi deixar o FC Porto e rumar ao Coimbrões”, recorda, ainda ressentido.

“A 5km da meta... catrapum”

Foi uma decisão acertada. Quando conquistou a Volta a Portugal, recebeu uma visita dos directores do FC Porto, que tentaram convencê-lo a volta ao clube. “Mas era demasiado tarde e já tinha decidido continuar. No ano seguinte fui segundo e o FC Porto voltou à carga. Mas para voltar havia uma condição: o Emídio Pinto tinha que ser o treinador”, impôs, decidido a vingar de azul e branco e a repetir a vitória de 1978, que descreve com uma boa pitada de humor.

“Nesse ano preparei-me bem, não bebia álcool, não fumava e não perdia noites. O Andrade era o camisola amarela e eu segundo, mas aos poucos fomos caindo na classificação. Em Castelo Branco, à partida para Seia, o calor era insuportável. Ainda estávamos à sombra, distraídos, quando ouvimos o tiro de partida. Corremos para as bicicletas e fomos à procura do pelotão. Quando alcançámos os ‘artistas’, deu-se um ataque. Foi nesse instante que planeei a minha fuga. Decidi que atacaria mal anulássemos aquela tentativa e, chegada a hora, saí pela esquerda e fui-me embora”, explica, ainda com uma leve sensação de se ter precipitado.

“Como ainda era muito cedo, o treinador disse-me para me alimentar bem e ver como os adversários se comportavam. Gastei muita água nesse dia sufocante. Passei por um ribeiro tão transparente que só me apetecia mergulhar”, enuncia, como quem segura os preciosos minutos de avanço. “A vantagem foi aumentando até atingir os oito minutos. A 60km de Seia, o treinador perguntou-me se comera a fruta cristalizada e disse-me que ia abrir o champanhe que nos tinham dado os noivos que casaram na nossa pensão”, prossegue.

O “resultado” foi imediato: “Sem provar uma gota de álcool há oito meses, aquele champanhe fresquinho provocou um efeito que rapidamente levou a fuga para os 13 minutos. Antes de fechar o abastecimento líquido ainda dei mais uns golos, mas já não actuou com a mesma força. Até que, a 5km da meta… catrapum. O director anunciou que o fugitivo tinha caído e o pelotão deve ter pensado que já ia ceguinho. O último quilómetro parecia que não acabava. Até duvidei se a meta não estaria a andar à minha frente. Ainda assim, cortei-a sorridente, depois de 150km isolado”, relata, recordando uma aventura colorida que lhe rendeu a amarela e todas as camisolas à excepção da verde. Porém, dois furos logo no dia seguinte deixaram-no azul… a cor ideal para atacar a Senhora da Graça.

“Verdade veio ao de cima”

“Quando fomos reconhecer a subida, nem quis ir ao cimo. Disse ao treinador que tinha tempo de a ver de perto. Era a primeira vez que a Volta ia à Senhora da Graça e fui o primeiro a vestir a amarela lá em cima”, lembra, ufano, pronto para a descida até Águeda, onde venceu o contra-relógio, depois de Fernando Mendes ter sido desclassificado. “Fez de tudo para me roubar a amarela e acusou positivo no controlo. Tentaram camuflar, houve protestos, mas a verdade veio ao de cima”, explica.

Belmiro Silva começou tarde e acabou cedo, despedindo-se do ciclismo menos de uma década depois da estreia, sugestionado pela tragédia que testemunhou na última das três Voltas ao Algarve que venceu. “O Joaquim Agostinho levava a amarela e eu era segundo. Tínhamos tido alguns sustos pelo caminho, mas foi já entre barreiras que um cão pequeno apareceu à frente do Agostinho. Ele é que devia ter vencido essa prova”, declara, emocionado, afectado por outra morte na estrada, um par de anos antes. “O irmão do Zeferino, o Zé, também teve um acidente fatal e isso começou a desmoralizar-me, comecei a arriscar cada vez menos.”

Depois de ter vencido de forma categórica em Zamora, num contra-relógio de montanha, começou a pensar em retirar-se. “Tinha vivido momentos inesquecíveis, não queria perder tudo numa queda. Há coisas que não têm preço, como a prenda do dono da fábrica onde trabalhava, uma bicicleta a sério, uma dívida de gratidão sem preço, por muitos cem contos que pudesse devolver.”     

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