Avioneta mata dois banhistas ao aterrar de emergência na praia de São João da Caparica

Um homem e uma criança de oito anos morreram no local, segundo a Autoridade Marítima Nacional.

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Miguel Manso
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Uma aeronave ligeira aterrou de emergência, na tarde desta quarta-feira, no areal da praia de São João da Caparica, em Almada, junto aos restaurantes Bicho d'Água e Leblon, atingindo vários banhistas. A Autoridade Marítima Nacional confirmou a morte de duas pessoas: uma criança, de 8 anos, e um homem, de 56. Estas vítimas não tinham qualquer relação entre si. Uma mulher ficou ainda ferida sem gravidade.

Os ocupantes da avioneta, piloto e co-piloto, ficaram ilesos e foram ouvidos pela Polícia Marítima sobre os motivos de um acidente que é considerado inédito pelas autoridades. Os dois homens, foi revelado mais tarde, ficaram sob termo de identidade e residência, e serão interrogados por uma procuradora na manhã de quinta-feira, no âmbito do inquérito aberto sobre o sucedido pelo Ministério Público. O Cessna de dois lugares é de 1978 e pertence ao aeroclube de Torres Vedras, mas estava emprestado há vários anos à escola de aviação G-Air.

António Gonçalves estava no mar, "com água pelo joelho", quando viu a avioneta a aproximar-se da praia vinda de Norte. "Passou ali por cima do paredão, mas já resvés Campo de Ourique", explicou o reformado, de 65 anos, ao PÚBLICO. Foi quase ao tocar no areal que a aeronave embateu com as rodas contra as vítimas mortais. As asas do aparelho ainda tocariam depois numa mulher, que sofreu "ligeiras escoriações" nos ombros, disse Paulo Isabel, capitão do Porto de Lisboa.

Este responsável salientou que, apesar do balanço trágico, o acidente poderia ter tido um resultado ainda mais grave. "Lamentando as duas vítimas mortais, num dia de Verão como este, se um avião aterrar numa praia destas, com centenas ou mesmo milhares de pessoas, poderá ser considerado um verdadeiro milagre só termos duas vítimas mortais", disse.

Logo após o acidente, que se deu pelas 16h45, juntaram-se muitos veraneantes em redor da avioneta e dos dois corpos. Mafalda estava a uns bons 50 metros do local, mas ouviu o embate das rodas no chão e correu atrás dos filhos pequenos, que se precipitaram para onde estava a comoção. Esses primeiros momentos foram tensos, explicou. "Quiseram logo começar a querer agredir o comandante [da aeronave], começaram a chamar-lhe assassino. Estava muita gente a revoltar-se".

O alerta às autoridades foi dado às 16h51 e às 16h58 chegaram os primeiros meios de socorro, disse o capitão Paulo Isabel, que precisou que estiveram presentes elementos da Polícia Marítima, da Polícia Judiciária, das corporações de bombeiros de Cacilhas e Trafaria, da GNR e do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF). É esta entidade que vai agora tentar perceber o que motivou esta situação. Paralelamente, também o Ministério Público fará diligências.

Todas as testemunhas salientaram que a avioneta se aproximou do areal silenciosamente, razão pela qual os banhistas só deram pela sua presença quando já estava a escassos metros deles. Tudo se passou com grande rapidez. 

A avioneta, que devia ter voado entre Cascais e Évora, foi removida por volta das 19h20.

Num comunicado enviado às redacções, a escola de aviação G-Air (que até há uns anos se chamava Aerocondor) confirma que a aeronave se encontrava “em voo de treino com um aluno e um instrutor sénior”, de 56 anos, que tinha "elevada experiência e milhares de horas de pilotagem”. Na missiva, em que são apresentados pêsames aos familiares das vítimas, é ainda referido que o apuramento das causas do acidente GPIAAF.

À margem deste acidente, e segundo Pedro Coelho Dias, porta-voz da Autoridade Marítima, foi ainda detido no local um proprietário de um drone que “só começou a voar depois” do acidente. “Estava a recolher imagens e não é claro que tivesse autorização para voar”, disse ao PÚBLICO.

"Risco de acidente elevado"

O vice-presidente da escola de aviação, Nelson Ferreira, explica que a G-Air reduziu drasticamente há dois ou três anos a operação aeronáutica em Tires, aeródromo de onde saiu esta tarde o Cessna, devido ao risco de acidentes. "Como as aeronaves de treino que saem de Tires não podem subir além dos mil pés de altitude, o que equivale a cerca de 300 metros, por causa das condicionantes nestas rotas, nomeadamente para não interferirem com os voos comerciais do aeroporto de Lisboa, isso encurta do tempo de reacção dos pilotos em caso de acidente", descreve. Sem motor, um avão cai ao ritmo de 500 pés por minuto, assinala. 

Também tinha saído de Tires a aeronave que em Maio passado se despenhou junto ao supermercado Lidl, naquela mesma localidade onde se situa o aeródromo. A bordo seguiam quatro pessoas que não sobreviveram, tendo-se registado uma quinta vítima mortal, uma pessoa que se encontrava em terra e foi atingida pela avioneta. 

No caso desta quarta-feira, o piloto, que segundo Nelson Ferreira tinha 56 anos e milhares de horas de pilotagem, pode não ter tido tempo suficiente para aterrar no mar.  A estação televisiva SIC Notícias teve acesso às comunicações entre a torre de controlo de Cascais e a aeronave, em que é perceptível o pedido de socorro do piloto: "Mayday!". Percebe-se que perante uma falha no motor tencionava pousar na praia, mas não ali - e sim na Cova do Vapor. 

Amaragem era mais arriscada

Perito da Agência Europeia para a Segurança da Aviação, Álvaro Neves diz que, apesar de a amaragem ser o procedimento correcto em situações deste género, ela implica maiores riscos para o piloto e passageiros do que pousar no areal, uma vez que uma aterragem mal executada no mar pode significar um capotamento. "Do ponto de vista da sobrevivência a aterragem no areal dá outra margem de segurança ao piloto", observa.

Neste caso, diz o ex-director do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, "bastava-lhe ter feito uma pequena inclinação, mesmo que estivesse sem motor", para conseguir chegar à água. "Cinco metros para a direita e estava em cima do mar", reforça Álvaro Neves, para quem a aeronave estaria a voar mesmo muito baixo para as coisas se terem passado desta forma. Face às restrições à altitude de voo, adianta, teria sido preferível ter escolhido outra rota que não pusesse em perigo quem cá estava em baixo. 

António Gonçalves, que frequenta esta praia desde os 13 anos, mostrou-se surpreendido por um incidente deste género não ter acontecido há mais tempo. "Passam aqui avionetas a toda a hora, com publicidade e sem publicidade. Isto parece um carreiro, para cima e para baixo constantemente", disse.