Opinião

Salvem a Gondola!

Querem demolir o restaurante Gondola. Como é que é possível? Como é que Lisboa passa sem aquela casa? Onde é que Lisboa tem outra esplanada como aquela, tão linda, tão fresca?

Não é pelas memórias. As memórias são muitas, mas tem sorte quem as tem. Não, a Gondola tem de ficar aberta para as pessoas que nunca lá foram, incluindo as que ainda não nasceram.

A Gondola é uma ilha de campo no meio da cidade. Entra-se na esplanada e foge-se do calor, do cimento e do agora. Não é como um sonho, porque os sonhos são fugidios e na Gondola podemos sentar-nos e sermos atendidos como se tivéssemos voltado a uma casa de onde nunca deveríamos ter saído.

Toda a gente gosta de ir à Gondola. Graças à admirável Júlia Ribeiro têm sido mantidas as meigas tradições de hospitabilidade, simpatia, carinho e preocupação.

Ir à Gondola sempre foi uma recompensa ou uma consolação. Vai-se quando há más notícias, ou quando a vida ameaça entornar-se. Cai-se lá quando se precisa duma certeza, dum pequeno mundo que não muda, apesar de o outro, maior, não fazer outra coisa.

Vai-se lá pela mão dum pai, quando nos quer mostrar um segredo, levam-se lá as filhas e os netos. Namora-se lá. Conspira-se lá. Uma vez almocei lá com um espião americano. Estava tudo em mangas de camisa. Era Agosto, como agora. Os casacos pendurados dançavam e o gelo mexia-se à volta das garrafas de vinho.

O Montepio é uma excelente instituição e Fernando Medina tem sido um excelente presidente da câmara. Por favor, deixem a Gondola como está!