Maduro clama vitória contestada pela oposição e marcada por mortes

Segundo a comissão eleitoral, participação chegou aos 41,5%, o que corresponde a mais de oito milhões de votos. Oposição estima que foram 12%. Pelo menos dez pessoas morreram.

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Mais de oito milhões de venezuelanos (41,5% dos eleitores) votaram na eleição dos 545 membros da Assembleia Constituinte, segundo os dados da Comissão Nacional Eleitoral. Um valor contestado pela oposição, que estima uma participação eleitoral de 12%, num acto marcado pela violência: segundo o Ministério Público, morreram dez pessoas no domingo.

A oposição já anunciou que não reconhece este resultados e agendou novos protestos para esta segunda-feira e também para quarta-feira.

"Não reconhecemos este processo fraudulento, para nós é nulo, não existe", disse o líder da oposição Henrique Capriles, pedindo aos venezuelanos que voltem hoje a sair às ruas para contestar aquilo que qualificou como "um massacre" e "uma fraude eleitoral". Capriles agendou ainda um protesto para quarta-feira, dia em que a Assembleia Constituinte deverá tomar posse.

Já Nicolás Maduro clamou vitória. "Temos Assembleia Constituinte (...) oito milhões (de votos) no meio de ameaças (...) foi a maior votação que teve a revolução bolivariana em 18 anos. O povo deu uma lição de coragem, de valentia. O que vimos foi admirável", afiirmou Maduro, perante centenas de apoiantes que se concentraram na Praça Bolívar, em Caracas.

A Comissão Nacional Eleitoral anunciou que foram registados 8.089.320 votos, o que corresponde a 41,5% dos eleitores.

Nas eleições presidenciais de 2012, Hugo Chávez obteve 8.191.132 de votos. Em 2013, Maduro ultrapassou os sete milhões de votos. Já o número de votos no partido de Maduro nas eleições parlamentares de 2015 rondaram os 5,6 milhões de votos.

Esta jornada eleitoral ficou marcada pela violência. Segundo o Ministério Público, morreram dez pessoas, incluindo dois adolescentes de 13 e 17 anos. Quatro pessoas morreram no estado de Tachira (Oeste), na fronteira com a Colômbia, durante manifestações. Três homens foram mortos no estado de Merida (Oeste), um no estado de Lara (Norte), um no estado de Zulia (Norte) e um dirigente da oposição no estado de Sucre (Norte), indica um balanço do Ministério Público venezuelano, citado pela Lusa.

O período de votação deveria ter terminado às 18h locais (23h em Portugal continental), mas a comissão nacional de eleições venezuelana decidiu prolongá-lo por mais uma hora.

Segundo diferentes jornais locais, como o Noticias24, o anúncio do prolongamento da votação foi feito pela presidente daquele órgão, justificando a decisão com o facto de "haver venezuelanos a aguardar em filas, para ainda exercerem o seu direito de voto". Sandra Oblitas acrescentou que o processo eleitorial se desenrolou com "total normalidade" – um conceito no mínimo impreciso, neste caso, visto que o Governo de Caracas proibiu, dois dias antes das eleições, as manifestações da oposição, colocou mais de 300 mil efectivos policiais e militares nas ruas e, pior que tudo, há mortes a lamentar

Ainda as urnas não tinham fechado e os EUA reiteravam a sua posição face ao acto eleitoral, agora pela voz da embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley. Num tweet publicado no domingo à noite, a embaixadora dos EUA garantiu de novo que a sua administração não reconhecerá validade aos resultados. "Estas eleições fraudulentas são mais um passo rumo à ditadura", escreveu a representante de Washington na ONU. "Não aceitaremos nenhum governo ilegítimo. O povo venezuelano e a democracia prevalecerão", acrescentou na mensagem.

Os resultados foram igualmente recusados por outros países, como Brasil, Guatemala, Espanha, Argentina, Colômbia, Panamá, Peru, Costa Rica e Canadá, por exemplo.

O Presidente venezuelano avisou que irá levantar “a imunidade parlamentar a quem houver para levantar” e agirá contra “a burguesia parasita” para solucionar a crise económica e irá garantir que “se faça justiça”.

“Tenho os quadros de Bolívar e Chávez preparados para os meter na Assembleia Nacional”, afirmou Diosdado Cabello, ex-presidente da Assembleia Nacional, que deverá ganhar um lugar na assembleia.

“Sangue e irrealidade, elementos chave da Constituinte desassociada do país, mas agarrada ao desejo de chegar ao poder”, resumiu o politólogo Piero Trepiccione.

Empossada nos próximos três dias

A Assembleia Constituinte vai ser empossada num prazo de 24 a 72 horas, anunciou esta segunda-feira o vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV, no poder), Diosdalo Cabello. "A Assembleia Constituinte é um facto e vai ser empossada no prazo máximo de 72 horas. Mas poderá acontecer em 24" horas, declarou Cabello.

A cerimónia vai decorrer no Palácio Federal Legislativo, onde a oposição detém a maioria desde Janeiro de 2016.