A lotação esgotada tinha um nome: Red Hot Chili Peppers

A banda de Give it away arrancou o concerto como se estivesse já em encore. Uma hora e meia para saciar a espera do público que, apesar de Legendary Tigerman, Boogarins ou Capitão Fausto, os aguardava ansioso como nos antigos concertos de estádio.

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Estamos a meio da tarde quente de quinta-feira e, entre a Meo Arena e a pala do Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, em Lisboa, ouve-se alguém que veste a t-shirt com o logótipo clássico de uma certa banda cantar a melodia de uma certa canção. A noite já caiu. É de madrugada e, entre os magotes de gente que atravessam as ruas do Parque das Nações, ouve-se alguém que canta a tal melodia da tal canção. Entre um momento e outro, são 0h45 e há vinte mil pessoas no interior da preenchidíssima Meo Arena a cantar a certa canção que a banda toca. A tal: Californication.

Em palco, os Red Hot Chili Peppers, os grandes responsáveis pela lotação esgotada no primeiro dia do Super Bock Super Rock, a banda que eclipsou tudo o resto, dando ao primeiro dia de festival um certo ar de concerto de estádio dos idos de 1990. A banda de Anthony Kiedis, Flea, Chad Smith e, desde há uma década, Josh Klinghoffer, foi recebida com a euforia reservada às lendas que tocam o coração das massas – ou seja, com aquele frenesim nada controlado que leva a que a multidão aja por contágio e expluda em gritos e aplausos ao mínimo sinal (falso) de que o concerto vai arrancar. Quando tal aconteceu, meia-noite em Portugal Continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores, não tardou até que algo se tornasse óbvio: os Red Hot Chili Peppers iam entrar a matar e assim continuariam até à despedida, passada uma hora e meia de uma viagem que passou por quase todas as vidas que fazem a longa carreira de mais de três décadas.

Concerto a meio, chegou a tal de que já falámos. Já se ouvira, logo a abrir, Can't stop, e iria ouvir-se Aeroplane, Suck my kiss e, no último adeus, a inevitável Give it away. Tinham passado 11 anos desde a última visita da banda que deixou marca nos anos 90 e que foi descoberta por uma nova geração na década seguinte. O público que lotou quinta-feira o Super Bock Super Rock queria mesmo vê-los. Muito. 

Estamos nas 19h30. Enquanto os Minta & The Brook Trout tocavam a sua Americana cada vez mais afinada e em que brilha a luminosidade de alpendre rural americano, havia mais gente a reservar lugar lá dentro, no Pavilhão, que ali, nas escadarias em frente do palco LG ocupado pela banda de Slow. Às 20h40, quando subiu ao palco principal a New Power Generation que acompanhou Prince no início da década de 1990 e que com ele gravou Diamonds And Pearls, os músicos terão pensado que – e, realmente, por que razão pensariam algo diferente? – a maioria do público perante si estava ali para ouvi-los tocar canções do génio de Minneapolis tragicamente desaparecido em Abril de 2016. Não estava.

Grande parte observava as redondezas e analisava a situação para averiguar com quanto tempo de antecedência seria ideal chegar para aguardar a banda da noite. De resto, ver a New Power Generation sem o nome que lhe deu fama, apesar do virtuosismo de Bilal, o vocalista convidado, e da saudada aparição de Ana Moura, em cintilante fato púrpura, para dar voz a Little red Corvette, tem o travo frustrante da ausência – é uma celebração esforçada, mas tépida, sem chama (sim, não há nada a fazer, Prince é mesmo insubstituível).

Ao longo do dia, caminhámos de palco em palco pelo recinto que já se sente como verdadeira (nova) casa do decano dos festivais portugueses, com a sombra da pala, o lago artificial que envolve o Oceanário ou a avenida onde ufanam no alto dos mastros as bandeiras das diversas nações mundiais tornados cenário familiar que o público percorreu sem apertos, sobressaltos ou tempo de espera excessivo nas filas para bebidas ou alimentação.

Vimos Alexander Search, a primeira banda do dia, que apresenta Salvador Sobral como vocalista e que nasceu do encontro deste e do pianista Júlio Resende com a poesia (em inglês) de Alexander Search, heterónimo de Fernando Pessoa criado durante o período passado pelo escritor em Durban, África do Sul.

Protegido da temperatura elevada na sombra, maioritariamente sentado, reuniram-se algumas centenas junto ao Pavilhão de Portugal para ver o recente vencedor da Eurovisão, óculos no rosto e vestindo casaca e colete, muito de acordo, portanto, com a imagem de um cavalheiro de início de século XX, tocar as canções que se ouvem como ilhas demasiado dispersas – ligeireza indie, apontamentos electrónicos, rockalhada acelerada, balanço oriental – que a poesia fará por unir. Até deu para acompanhar os versos de A day in the sun, impressos em folhas que, na recta final do concerto, a banda lança para o público — “Isto parecia melhor na minha cabeça”, sorri Sobral quando as folhas caem sobre o público. Pouco passava das 18h e, como seria de esperar, não se vivia ambiente de lotação esgotada no Super Bock Super Rock.

Nem tal se sentiu, de resto, quando a seguir os brasileiros Boogarins mostraram que são uma máquina de rock psicadélico que ocupa o palco com um romantismo e uma liberdade inspiradoras, tão hábeis em canções escorreitas como Benzin, onde vemos os Love de Da Capo no horizonte (versão tropical), como em dar rédea solta ao improviso, como o fizeram num final de bateria em tumulto e guitarra eléctrica a interagir com um vocalista tão sorridente como o smile de olhos em flor estampado na sua t-shirt. “Começámos bem”, diz ele em despedida. “Verdadeiramente”. Sim, tínhamos começado bem. Mas isto não é como começa, como disse alguém certo dia, é como acaba, pensariam para si os tantos com t-shirt Red Hot Chili Peppers a decorar-lhes o torso. À medida que o dia se tornava noite e a noite avançava, tal tornou-se claro de forma cada vez mais evidente.

Houve momentos de agitação, com o rock vitaminado dos americanos Orwells no palco EDP (o do Pavilhão de Portugal) e com o frenesim da ginga eléctrica dos imparáveis Throes + Shine, no palco LG. E claro que os Capitão Fausto, promovidos ao palco principal depois de, na edição anterior do festival, terem congregado uma pequena multidão num dos secundários, mesmo com a temível concorrência de Iggy Pop, que tocava à mesma hora, concentraram as atenções em si com a elegância que já é imagem de marca e uma sageza pop e rock'n'roll em que a ambição de Brian Wilson, o toque aveludado de Bryan Ferry e a consciência do seu tempo e do seu lugar originam canções como Os dias contados ou Maneiras más, cantadas pela banda com parte do público como coro.

Os Capitão Fausto antecederam em palco os Red Hot Chili Peppers e, como tal, reunindo aqueles que não queriam mesmo perdê-los e aqueles que já há muito aguardavam no pavilhão porque não podiam mesmo perder o que se seguiria, tiveram perante si bancadas e plateia muito bem compostas. Olhando para os pequenos grupos que, no palco LG, se juntavam a Manuel Fúria & Os Náufragos para responder a um dos motes de Viva Fúria, o imaculado Levanta-te e dança, perguntávamos onde andava afinal a gente que esgotou o festival. Continuámos a fazer a mesma pergunta enquanto constatávamos que Kevin Morby, que acaba de editar City Music, álbum que o confirma como um dos mais inspirados intérpretes da Americana contemporânea, escolhia dar preponderância ao tom reflexivo, folk-rock pintado a negro, da sua discografia anterior, e, menos por culpa própria do que pelo contexto – a sensação de alheamento de um público concentrado em vocês sabem o quê –, não conseguia que a sua música comunicasse verdadeiramente. Ainda assim, comprovou-se que I have been to the mountain, versejar dylanesco à solta numa linha de baixo irresistivelmente bojuda, e City music, rock'n'roll caminhando em passo rápido entre néones nova-iorquinos, sobrevivem em qualquer ambiente.

Quando, depois de Kevin Morby, no mesmo palco, vimos revelado em primeira mão o próximo álbum de Legendary Tigerman, Misfit, com edição marcada para Janeiro, deixou de haver espaço para dúvidas. A lotação esgotada estava ali ao lado, na Meo Arena. Tigerman, agora definitiva e assumidamente banda completa (juntam-se à sua guitarra o saxofone de João Cabrita, a bateria de Paulo Segadães e o baixo de Filipe Rocha), mostrou novo rosto e um espírito intacto. Vertigem blues e luxúria rock'n'roll, com o sopro grave do sax em dueto-duelo com a guitarra tremeluzente e uma secção rítmica tão poderosa quanto minimal.

Fix of rock'n'roll faz jus ao título, Sleeping alone é balada rock'n'roll que Jon Spencer desejaria resgatar para os seus Heavy Trash, I finally belong to someone é blues-rock trepidante e About Alice uma febril dança garageira para sax e guitarra. Quando se anunciou o final, com a canção manifesto XXIst century rock'n'roll, a algumas centenas de metros o tumulto era outro, provocado pelos muitos que procuravam as poucas cadeiras vazias nos balcões e um espaço com visibilidade para o palco na plateia. Vinte mil na Meo Arena, aguardando com expectativa.

Flea, o dos slaps a contento e do baixo como instrumento líder, e Josh Klinghoffer, o guitarrista que toca enquanto rodopia pelo palco ou se arroja no chão, são os primeiros a aparecerem em palco. Um dueto funkadélico depois, a banda surge completa (além dos quatro, o suporte de um teclista e um multi-instrumentista). Can't stop é a primeira e o mote para a hora e meia seguinte. “Começaram como se estivessem a acabar”, comenta-se ao nosso lado. E é verdade. Aquilo era energia de grande final, de encore apoteótico.

Na realidade, como se perceberia ao longo do concerto, não poderia ser de outra forma. Para os Red Hot Chili Peppers darem um bom concerto, têm de esquecer qualquer subtileza ou vestígio de sensibilidade. São convincentes quando deixam a veia punk infiltrar-se no ritmo compassado daquele rock'n'funk de que registaram a patente.

Ou seja, Flea, enfiado nas suas calças coloridas de saltimbanco, tem de saltitar palco fora enquanto ataca o baixo que ecoa por todo o pavilhão. Chad Smith tem de ser o homem trovão a funcionar como porto seguro para o andamento das canções. Anthony Kiedis terá obrigatoriamente de se libertar das amarras que o prendem (a t-shirt, entenda-se) para correr pelo palco antes de se fixar ao centro para libertar as vocalizações cantadas, semi-“rappadas”, que lhe conhecemos. E o “benjamin” Josh, o quase quarentão entre cinquentões, tem de dar rédea solta ao wah-wah, ao groove distorcido, à alma Hendrixiana que liberta sem qualquer constrangimento (mas por vezes alguma contenção não lhe ficaria mal).

Nesse sentido, o alinhamento foi o ideal. Não são precisas grandes conversas. Flea diz muito apreciar os bastões coloridos que o público ergue no ar, por exemplo, mas não se dirá muito mais até à despedida final, cortesia de Chad Smith (“vemos-nos em breve, ok?”). Há mais duetos infernais a protagonizar com Josh Klinghoffer, há uma incendiária Nobody weird like me a chegar, vinda de lá longe no tempo, de Mother's Milk, e uma esquecível Go robot, do último The getaway, que só tornará a chegada daquela, essa, Californication, mais desejada.

Enquanto os ecrãs circulares Floydianos do palco se iluminavam de padrões coloridos, a banda recuou a Aeroplane, de One Hot Minute e a Suck my kiss, do álbum mais celebrado, Blood Sugar Sex Magik. By the way é matéria recente e muito festejada.

O encore é obrigatório. Ouviu-se Californication, mas há outra obrigatória em falta. Será a última de todas. Chad Smith dá o arranque, Flea pega a deixa. Give it away, naturalmente. Passara uma hora e meia. Onze anos depois, os Red Hot Chili Peppers regressaram a Portugal. A lotação esgotada estava toda na Meo Arena. Minutos depois, no exterior, alguém cantava a melodia de Californication.

O Super Bock Super Rock continua nesta sexta-feira, com Future, Push T ou London Grammar. Termina sábado, com os Deftones como cabeças de cartaz.