Colecção Ellipse, a parceira ideal da Colecção Berardo, continua fechada e "em perigo"

A mais importante colecção privada de arte contemporânea em Portugal, ligada ao BPP de João Rendeiro, é outro exemplo do que pode suceder quando um acervo se vê enleado em processos de execução de dívidas.

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Se a Colecção Berardo é a mais importante colecção privada de arte moderna em Portugal, o seu paralelo no que toca à arte contemporânea é a Colecção Ellipse – e está “em perigo”, diz Delfim Sardo, comissário e responsável pela sua primeira avaliação independente em 2008. 

Fechada há seis anos num armazém em Alcoitão, é outro exemplo do que pode suceder a uma colecção de arte quanto enleada em processos de execução de dívidas. Criada pelo ex-banqueiro João Rendeiro e inicialmente exposta na Fundação Ellipse “em representação dos clientes do grupo Banco Privado Português (BPP)”, chegou mesmo a ser apreendida em 2010 no âmbito da investigação a Rendeiro. São cerca de 800 obras de nomes tão relevantes quanto Douglas Gordon, Wolfgang Tillmans ou José Pedro Croft. Enquanto a sua propriedade está sob investigação, permanecem à guarda de um gestor de execução.

Enleada no processo de liquidação da Privado Holding, que detém os activos do BPP, a Colecção Ellipse está actualmente sob a tutela do Banco de Portugal e da Fundação de Serralves, já devidamente inventariada e sob “acompanhamento técnico”, disse há um ano a deputada Maria Augusta Santos, do PS, no Parlamento. A sua situação causa preocupação, dado incluir, além de pintura e escultura, “obras muito frágeis, em suporte fotográfico, fílmico ou videográfico”, de “conservação delicada e difícil” que “exigem quem tome conta delas”, frisa Delfim Sardo, que há três anos pediu emprestadas peças para uma exposição e as recebeu em bom estado. 

Contando com a colaboração de vários curadores, a Colecção Ellipse foi construída tendo em conta uma potencial complementaridade com a colecção de Joe Berardo – “o enfoque foi centrado nos últimos anos do século XX e nos primeiros anos do século XXI, dado que a Colecção Berardo e outras terminavam nos anos 1990”, como explicava ao PÚBLICO Alexandre Melo, um desses curadores, em 2015.

E é uma colecção "irrepetível”, diz agora Sardo ao PÚBLICO. Alguns dos artistas representados “atingiram [entretanto] cotações e valores muito superiores”, explica sobre o valor crescente do espólio, no qual terão sido investidos entre 20 e 50 milhões de euros (o valor difere conforme as fontes, mas é sempre francamente inferior ao da Colecção Berardo).