“Nem para morrer se pode ser cigano”

Associações ciganas pedem intervenção do Governo e apelam à CDU para que tome "as devidas providências".

Adriano Miranda
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Adriano Miranda

A Associação Nacional dos Mediadores Ciganos, Letras Nómadas, Sílaba Dinâmica de Elvas e Associação para a Igualdade de Género nas Comunidades Ciganas manifestaram nesta sexta o seu “repúdio” pelos últimos acontecimentos na Junta de Freguesia de Cabeça Gorda no concelho de Beja, frisando que “nem para morrer se pode ser cigano”. Reportam-se à decisão tomada pelo presidente da junta, Álvaro Nobre (CDU), que impediu a deposição do corpo de José António Garcia, cidadão cigano e pastor da Igreja Evangélica de Filadélfia, alegando que não tinha nascido nem era morador na freguesia.

Acontece que, contrariamente ao que disse o autarca, o cidadão cigano que faleceu “era morador recenseado” na freguesia e a viúva “tem as suas raízes na Cabeça Gorda”, lê-se no comunicado emitido pelas associações ciganas em que repudiam o argumento de Álvaro Nobre de que o “falecido passava a maior parte do seu tempo noutras freguesias vizinhas”. E perguntam se “às pessoas não ciganas de Cabeça Gorda que, por questões laborais, passam a maior parte do seu tempo fora da freguesia” o critério do autarca é o mesmo.

A justificação apresentada pelo autarca revela “um desrespeito moral e físico pelo cidadão falecido e sua família, além de ser claro estarmos perante um acto de discriminação racial”, refere o comunicado das associações, cujo tema é "Nem para morrer se pode ser Cigano?!"

“A violação da lei é mais que visível neste caso”, assinalam as associações ciganas, assumindo que vão recorrer a “todos os meios democráticos, sejam ele judiciais ou através dos mecanismos democráticos ao alcance, para que se faça justiça e se puna este autarca”.

E neste sentido solicitam à ministra de Administração Interna e ao ministro-adjunto Eduardo Cabrita, através da secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade e Alto Comissariado para as Migrações, que “se posicionem nesta situação" que consideram "ser deplorável, indigna de um estado de direito”.

O apelo é extensivo “ao Comité Central do PCP bem como aos partidos da coligação CDU” para que tomem as “devidas providências face a estes acontecimentos que envergonham os partidos e o país”.