Histórias do Tour: a jornada de uma vida completou-se para Taylor Phinney

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LUSA/YOAN VALAT

No subconsciente de qualquer adepto, paira a certeza de que este ciclista já esteve aqui. Seria impensável que um corredor de 27 anos, que há uma década se sagrou campeão mundial júnior de contrarrelógio, que já esteve em três Jogos Olímpicos (e até ficou à beira do pódio em Londres2012), que vestiu a maglia rosa do Giro2012 durante três dias, e que soma múltiplos títulos nacionais de contrarrelógio (2012, 2014 e 2016) e, inclusive, uma prata na especialidade dos Mundiais de 2012, nunca tivesse estado no Tour.

A verdade é que Taylor Phinney, que pôde ver em fuga na segunda etapa da 104.ª edição, está a estrear-se na sua prova de sonho, aquela que conheceu ainda miúdo, na companhia do pai, o antigo ciclista Davis Phinney, o segundo norte-americano a ganhar etapas na Volta a França (1986). “Estou super entusiasmado, genuinamente entusiasmado. São tantos os clichés. O motivo pelo qual enveredei pelo ciclismo foi ter visitado o Tour. Vi-o na estrada com o meu pai em 2004 e 2005 e disse-lhe 'É isto que quero fazer'. Isso foi há 12 anos. Sou profissional há sete e ainda não tinha estado aqui. Estou louco de alegria, um pouco nervoso. Este é o grande show. Tudo o que pode correr mal, vai correr e vai ser lindo”, confessou em entrevista ao ESPN.

E Phinney conhece bem esse lado negro do ciclismo. “Lembro-me claramente de tudo. Estávamos a fazer uma descida em Chattanooga, Tennessee. Eu estava na frente. Ia muito depressa – a descida era verdadeiramente rápida. Havia uma curva, mas sabia que, se fosse cuidadoso, não haveria problema. Só que mesmo antes da curva, um motard da transmissão não prestou tanta atenção quanto devia. Tive de contorná-lo e acabei por deslizar e embater num rail”. Estávamos a 26 de Maio de 2014, na prova de estrada dos campeonatos norte-americanos. Instintivamente, o jovem prodígio, filho de dois portentos do ciclismo norte-americano (a mãe Connie Carpenter-Phinney foi campeã olímpica em Los Angeles1984), então com meros 23 anos, soube que a sua carreira estava por um fio.

“Nunca tive tanta dor na minha vida. Percebi, baseado nessa sensação, que tinha feito algo terrivelmente errado. Fiquei ali sentado, ligeiramente incrédulo, e tive tempo para perguntar-me se a minha carreira tinha acabado”. Apesar de não terem confirmado abertamente o seu maior receio, os médicos não conseguiram ocultar o pessimismo diante de um cenário devastador, que incluía um fractura exposta da tíbia, uma rótula estilhaçada e danos severos nos tendões do joelho esquerdo. Determinado, Phinney ignorou os piores prognósticos e, após várias cirurgias e uma demorada recuperação, na qual se atreveu a saltar passos, voltou à estrada na Volta ao Utah, em 2015, e conquistou a sua primeira vitória, duas semanas depois, na Volta ao Colorado.

Essa jornada, de permanente oscilação entre o amor e o ódio pelo ciclismo, foi também de autodescoberta para o agora ciclista da Cannondale Drapac (depois de, durante duas temporadas, ter sido um dos talentos eleitos por Lance Armstrong para militar na Trek, estagiou na RadioShack, em 2010, antes de ter representado a BMC durante seis épocas). Mais do que as cicatrizes desenhadas na perna esquerda, que, nas suas palavras, ainda “continua o processo eterno de voltar ao que era”, esse revés provocou mudanças profundas na sua personalidade. ‘Amputado’ sem a bicicleta, Phinney voltou-se para a pintura, criou laços fora do desporto, pilotou aviões e começou a meditar regularmente, dando-se conta que a queda e o posterior processo de reabilitação o encaminharam para uma depressão.

“Tornei-me filosófico em relação a muitas coisas, comecei a pensar o que faria se não fosse ciclista profissional”. Mas o sonho, agora concretizado, do Tour nunca desapareceu. “É a minha última fronteira do desconhecido. Depois disto, terei completado – ou, pelo menos, iniciado – todas as coisas que estão disponíveis ao mais alto nível profissional. Há uma ligação, porque comecei a andar de bicicleta – o que se tornou no meu modo de vida – por causa desta prova”.