Philippe Wojazer/Reuters
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"Viva la Vida": Celebrando Frida

Frida nasceu há 110 anos. Foi sem dúvida uma mulher à frente no seu tempo. Provavelmente sê-lo-ia ainda hoje

Há 110 anos nascia, no dia 6 de julho, Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón. A pintora mexicana mundialmente conhecida por Frida Kahlo. Para além de passarem 110 anos do seu nascimento, sabe-se que a mesma faleceu muito jovem, com apenas 47 anos. Como tal, sobre a sua morte passam já 63 anos. Ainda assim, e neste Julho de 2017, pergunto: “haverá alguém que não conheça Frida Kahlo e a sua imagem?” Tenho as minhas dúvidas!

Seria pertinente perceber por que razão será Frida, ainda hoje, um ícone tão conhecido e tão comentado. É claro que estamos a falar de uma artista, uma pintora fantástica de reconhecido talento. Só este facto serviria, por si só, de resposta à minha questão. Contudo, penso que o conhecimento e o interesse por Frida Kahlo vão muito para além da artista que se escolheu a si própria como tema principal dos seus quadros, vão muito para além desta denominada surrealista (surrealismo que ela não reconhecia na sua obra). Frida será ainda hoje conhecida pela sua arte, mas também pela sua imagem, pela forma intempestiva com que viveu a sua vida, pela sua paixão, pela sua própria imagem tão marcada como marcante, pelo espírito livre que demonstrou ser. Vejamos alguns factos que a tornaram, quanto a mim, um ícone mexicano reconhecido mundialmente.

A sua forma de vestir: desde muito nova que Frida demonstrou ter vontade de desconstruir conceitos e ultrapassar barreiras culturais. Quebrou vários tabus na sua época. Apresentava-se, nas suas vestimentas, da forma que mais lhe agradava, pouco se preocupando com as modas ou com convencionalismos. São conhecidas as fotografias de Frida vestida como um dandy bem-apessoado, aquando da sua adolescência. Acredito que a sociedade mexicana ficaria bem chocada com esta jovem vestida de homem, de sobrancelha grossa e bigode. Mais tarde, diz-se que pelas fragilidades físicas apresentadas pelo seu corpo (uma perna mais magra que a outra e mais curta, fruto da poliomielite e de um acidente de viação), começou a usar roupas que as disfarçassem, nomeadamente, as saias compridas e garridas, típicas da cultura mexicana. A isso associou os acessórios coloridos, as flores e fitas nos seus penteados, frequentemente de tranças feitos. Incorporou, tanto na sua arte como na sua forma de vestir, símbolos indígenas e mexicanos. E foi esta a imagem que ela apresentou nos EUA quando lá viveu ou em qualquer país europeu que tenha visitado, tão fora do que era considerado “a norma” na época. E é esta, sem dúvida, a imagem que ainda hoje é recordada.

A sua forma de amar: Frida apresentou ao mundo, sem complexos, a sua bissexualidade. Apesar do amor, diria, doentio pelo seu marido (o também pintor, Diego Rivera) ficaram largamente conhecidos os seus romances, fogosos, tanto com homens como com mulheres.

A sua personalidade e o seu modo de estar: pelo que conhecemos de Frida, percebemos que se tratava de uma personalidade forte, denotando-se essa personalidade na forma como se vestia, na intensidade com que procurou viver, apesar de todos os dissabores que foi sofrendo ao longo da vida, na forma como sempre lutou pelos direitos e pela afirmação da mulher. Era uma mulher que teria todas as razões para vestir a sua vida de luto mas que escolheu vesti-la de cores e de flores. A sua grande fragilidade seria o amor que alimentava por Diego, amor salpicado por traições mútuas que a iam enfraquecendo e destruindo a sua autoestima. Terá dito que teve dois grandes acidentes na vida: o do autocarro onde ficou gravemente ferida e conhecer Diego Rivera. Esse segundo seria o pior acidente, nas suas palavras.

A resiliência com que encarou a dor e o sofrimento: o sofrimento físico esteve sempre muito aliado ao sofrimento emocional. Contudo ela escolheu transformar esse sofrimento na festa de cores que se lhe conhece, em algo de positivo. É-lhe atribuída a autoria de uma frase que sintetiza bem esta ideia: “A arte mais poderosa da vida é fazer da dor um talismã que cura; uma borboleta renasce florida numa festa de cores!” Essa força e essa resiliência ficam bem patentes naquela que será a sentença mais conhecida da pintora “pés para que os quero se tenho asas para voar?” (Relembre-se que muitas vezes Frida Kahlo teve, ao longo da sua vida, de se deslocar em cadeira de rodas e que chegou a ser-lhe amputada uma perna).

Contudo, e apesar de todas estas características positivas, F. Kahlo levou uma vida de altos e baixos. Alternava períodos de grande sociabilidade com períodos mais depressivos que culminavam, muitas vezes, em tentativas de suicídio. As últimas palavras que se encontram no seu diário são que espera partir e não voltar a este mundo: “espero alegre a minha partida e espero não retornar nunca mais”. Diz-se que terá morrido de embolia pulmonar… aos 47 anos. Outros dizem que terá sido mais uma tentativa de suicídio (bem sucedida, desta feita).

O certo é que Frida nasceu há 110 anos. Foi sem dúvida uma mulher à frente no seu tempo. Provavelmente sê-lo-ia ainda hoje. Lutou pelos direitos das mulheres e mostrou ser um exemplo singular de inteligência e caráter. Viveu intensamente. Rompeu com padrões morais e estéticos da época. Foi, acima de tudo uma mulher apaixonada mas independente e forte que viveu de acordo com os seus próprios princípios. A sua imagem representa, ainda hoje, a liberdade de ser única. E por ser única, fez a capa da Vogue em 2012, 58 anos depois da sua morte…