Apre! — Melodrama burlesco, espectáculo mudo (mas bastante afirmativo) que no final de Maio ganhou o Prémio Molière para a melhor comédia francesa de 2016, abre na terça-feira, dia 4, o Festival de Almada Pascal Perennec

Almada devolve o teatro ao povo

Apre!, melodrama burlesco de Pierre Guillois, abre o Festival de Almada retomando a bandeira esquecida (e escarnecida) do teatro popular. Não será o único espectáculo desta edição a fazer-se ao palco sem a tralha das palavras – e a querer falar para o grande público, mas por outros meios.

Pierre Guillois gosta tanto da ideia de um teatro verdadeiramente popular que se pudesse evitava o assunto. É “terreno perigoso”, explica, terreno que — a não ser em cima do palco — não há maneira neutra de desbravar (sobretudo em França, acrescenta, deixando toda uma emocionante discussão nas entrelinhas, pelo menos por enquanto). Mas justamente por ele se ter aventurado a desbravá-lo em cima do palco, dispensando liminarmente a tralha das palavras, e também a tralha das boas-maneiras burguesas (incluindo a sua retentiva aproximação ao humor e aos temas sujos do sexo e da escatologia), é mesmo por aí que teremos de ir — porque foi por aí que ele foi em Apre! — Melodrama burlesco, o espectáculo mudo (mas bastante afirmativo) que no final de Maio ganhou o Prémio Molière para a melhor comédia francesa de 2016 e que na próxima terça-feira, dia 4, abre mais uma edição do Festival de Almada. 

Assim de repente, não estamos a ver melhor lugar para puxar o assunto do que esta cidade suburbana levantada do chão a partir de uma comunidade de perfil historicamente proletário que desde 1976 nunca deixou de se fazer governar por uma câmara comunista e que desde 1984, o ano em que Joaquim Benite lançou a primeira edição do festival, milita religiosamente pelo teatro de 4 a 18 de Julho. Não será difícil encontrar, por aqui, quem já tenha vivido num quarto de criada, como as três personagens deste melodrama burlesco sobre a silenciosa solidão contemporânea nas grandes cidades — e como o próprio Pierre Guillois, que começou inconscientemente a construir Apre! há muitos anos, quando foi profundamente infeliz numa dessas mansardas dos grandes boulevards de Paris que o barão Haussmann mandou abrir para poder acomodar a burguesia, cada vez mais numerosa e cada vez mais vistosa, na segunda metade do século XIX. 

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Ao contrário desses quartos sem luz, sem água, sem aquecimento e sem casa de banho que o protocolo das relações de trabalho do Segundo Império atirou para os últimos andares dos prédios, logo abaixo dos telhados e das chaminés, para que o pessoal doméstico pudesse estar a uma distância de segurança dos patrões, mas ainda assim permanentemente ao dispor, o espectáculo que abre o 34.º Festival de Almada é um lugar para toda a gente. “Não é acidental abrirmos com uma comédia sem texto que toca questões transversais como a solidão desta geração dos 30-40 anos que investe toda a sua vida numa carreira profissional e às tantas se vê sem rede, ou pelo menos sem a rede que teria se tivesse investido em constituir uma família tradicional”, diz Rodrigo Francisco, o director artístico do festival (que, a propósito, também chegou a viver num quarto de criada). “Aqui em Almada”, continua, “olhamos para o público e vemos pessoas tão diferentes — temos mesmo de encontrar um denominador comum”.

Talvez ele esteja nestes três vizinhos, um geek que aspira os sapatos quando entra em casa, um freak que de tanto acumular dorme numa rede uns metros acima da tralha e uma rapariga completamente à toa na vida — três vizinhos “que falham em tudo maravilhosamente” (e que nisso, como em muitas outras coisas, incluindo aquelas que prefeririam não ter de partilhar, estarão juntos). Desde Buster Keaton, desde Charlie Chaplin, desde Jacques Tati, com umas quantas guerras e muitas outras atrocidades, pessoais e colectivas, pelo meio, que andamos a rir-nos de losers como eles. E nalguns casos — mas não diremos se Apre! é um deles — a chorar depois.

Somos losers, baby

Mas voltemos ao telhado onde Pierre Guillois às vezes ainda regressa mentalmente para constatar que não foram mesmo nada bons, esses tempos a viver numa mansarda de nove metros quadrados com uma casa de banho partilhada ao fundo do corredor e essa sensação muito classe trabalhadora de que melhores dias não virão — e se vierem não subirão as escadas até ao último andar. “Como tantos provincianos, subi até Paris para tentar furar no teatro. Fiquei dez anos num quarto de criada”, contou ao Le Monde em 2015, quando o espectáculo fez a primeira das suas duas carreiras de sucesso na capital francesa. Ao Ípsilon, acrescenta que havia uma portuguesa nessa história (há sempre uma portuguesa nas histórias de Paris): lembra-se dela, “já com os seus 70 anos”, a subir “os sete andares até ao quarto com um balde de água que tinha de ir buscar ao rés-do-chão”.

Vem dessa experiência ambivalente de solidão profunda e promiscuidade involuntária, até hoje inscrita com incrível nitidez na sua memória, o realismo em último grau da comédia que traz até Almada. Mas, objectivamente, Apre! é também a consequência directa de uma espécie de sonho (ou de pesadelo) que teve acordado (“Alguém numa casa enorme, com piscina, que de repente começa a encolher até essa pessoa dar por si num quarto de criada”), e daí o nível de delírio que o espectáculo instala desde o primeiro gag, quando o pacote de bolachas guardado no armário do vizinho freak começa a desaparecer no bolso da camisa do vizinho geek. É o primeiro de muitos incidentes absurdos (também haverá ruídos, obras, infiltrações e um triângulo amoroso) que obrigarão estes três mundos à partida encerrados nos seus respectivos cubículos, dispostos horizontalmente sobre o palco como vinhetas numa tira de BD, à coabitação forçada.

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É todo um tema, e não necessariamente um tema de comédia (mas o subtítulo atira para o melodrama…). “Não costumo construir os meus espectáculos muito conscientemente, mas esse sonho da casa que encolhe conta o que eu senti no meu quarto de criada. E portanto mesmo não estando na minha cabeça o plano de escrever uma tese sobre a solidão nas grandes cidades no século XXI, certamente que Apre! fala dela — sem dizer uma palavra”, explica o actor e encenador ao Ípsilon. Outra “história longa”, acrescenta: “É frequente incluir nas minhas peças cenas sem palavras, porque gosto de construir com os actores coisas que passem por outros lugares. Quando lhes tiramos o texto, desenvolve-se todo um campo de investigação que não temos o hábito de explorar, ao nível da expressão corporal, dos jogos de palco, das imagens… No meu espectáculo anterior, Le Gros, la Vache et le Mainate [2010], queria ir mais a fundo nessa investigação, só que havia um texto com uma direcção precisa, não podia continuar a acumular cenas sem palavras… Fiquei bastante frustrado, mas percebi que a única maneira de fazer isto era escrever de raiz um espectáculo completamente mudo.” Ao mesmo tempo, esse era o único cenário que lhe permitia incluir-se no projecto como actor: “Há muito tempo que não representava, mas não me apetecia de todo fazer texto.”

Para contracenar com ele, Pierre Guillois foi buscar dois actores que “adora”, Olivier Martin-Salvan e Agathe L’Huillier, ambos sem formação de específica de clown ou de teatro gestual: “Queria actores capazes de explorar jogos físicos, mas sobretudo capazes de compor situações psicológicas e de construir personagens, porque sabia que ia ser um projecto difícil de fabricar: nunca sabes o que vai dar quando tiras a palavra a um actor e o obrigas a descobrir outras coisas.”

As descobertas que vieram com essa interdição fizeram-nas os três juntos na sala de ensaios, já enfiados nos seus corpos de losers condenados ao fracasso em cada combate quotidiano com o berbequim, com o peixe vermelho do aquário, com a trovoada. E o processo, diz Guillois, “foi apaixonante”: “O mais difícil foi perceber que tínhamos de nos disciplinar fisicamente. Só a meio, quando nos sentámos para ver as filmagens dos ensaios, se tornou óbvio que a partir do momento em que não há palavras o mínimo gesto, o mínimo olhar, a mínima vibração, a mínima aceleração, a mínima desaceleração produzem sentido para o espectador. Isso obrigou-nos a depurar radicalmente o jogo teatral para que a leitura do espectáculo pudesse ser clara.”

À parte algumas ideias que Guillois já tinha na cabeça, Apre! construiu-se de facto nas improvisações a três, de onde emergiram situações a que nunca chegaria “sozinho a desenhar croquis”. Mas não se construiu à primeira: “Nos primeiros 15 dias, ainda só com objectos trazidos para a sala de ensaios aleatoriamente, começámos por explorar histórias de promiscuidade, de intimidade — e as nossas próprias histórias em quartos de criada. Foi assustador. Não fazíamos a mínima ideia do tipo de escrita teatral para que estávamos a caminhar e tirando um ou outro momento mais feliz as improvisações eram péssimas. Tirámos um mês para descansar.”

A cenografia viria a ser determinante para encontrar as personagens, e para as personagens encontrarem as suas lutas: “O Olivier acabou por se vincular àquele quarto hi-tech, impecavelmente branco (e ele sempre vestido de preto…), sem janelas mas cheio de gadgets; a Agathe tem o típico quarto de alguém que vem de fora, possivelmente de outro país; o meu é uma mistura do quarto de criada onde vivi em Paris, e onde nunca pendurei o que quer que fosse porque não tinha vontade nenhuma de lá permanecer, e da maneira como a minha avó vivia, acumulando sacos de plástico, guardando o papel de alumínio do chocolate…”. 

Essa obstinação com a verosimilhança está tanto na cenografia como na banda sonora, ambas disparadoras de situações calamitosas. Mas está sobretudo nas personagens: “Construímo-las com mil detalhes, para que tudo seja sólido, para que a empatia com o público seja total. São personagens tentaculares, com várias camadas, para as quais inventámos toda uma biografia de maneira a estarmos, como actores, verdadeiramente dentro delas, nunca de fora.”

Esqueçamos os gags com a panela da sopa e o corte de cabelo, com as agulhas e o sangue: isto pode estar a acontecer aqui, agora. “Há cada vez mais pessoas que têm o seu trabalho e o seu salário, que têm dinheiro para os seus gadgets e para as suas férias, mas que a subida absurda das rendas obrigou a escolher entre ter uma casa decente nos subúrbios ou uma minúscula assoalhada no centro da cidade.”

Um teatro do povo

Ainda que haja melodrama, e ele é bem explícito, neste fresco sobre “o patético das nossas solidões modernas”, como lhe chamou a Les Inrocks, Apre! tem sobretudo um ADN burlesco que vem da paixão assumida (não confundir com guilty pleasure) de Pierre Guillois pela comédia de boulevard e pelas piadas duvidosas (que aqui irão sem qualquer complexo de culpa até à regressão infantilóide do xixi-cocó). 

O encenador admite que parte da gramática vem da idade de ouro do cinema mudo (“Enquanto ensaiávamos fomos redescobrir os fundadores: Chaplin, Buster Keaton, Bucha & Estica, Harold Lloyd…”), mas sublinha que às tantas teve de parar de olhar para esses filmes. “Isto é teatro, não é cinema, e confrontamo-nos com outros constrangimentos: para começar, é preciso refazer a mesma cena todas as noites, não basta que nos saia bem uma vez…”, explica, ressalvando que também anda por aqui algum Mr. Bean e muito Jérôme Deschamps/Macha Makeïeff da fase televisiva La Famille Deschiens. E, claro, um certo Jacques Tati: “A casa hiper-moderna d’O Meu Tio foi uma influência para o quarto do Olivier… Mas vimos sobretudo o Playtime, para perceber como um cineasta que já é do tempo do sonoro se serviu do mudo.”

O humor, como se perceberá ao fim dos primeiros cinco minutos, vem de outro lugar, mais insolente, mais brejeiro, que no final há-de descambar num apocalipse rabelaisiano. O mau gosto, para Guillois, não é aliás um interdito, pode é haver outros: “O meu último espectáculo era muito trash, ia muito longe no humor negro sobre a sexualidade e sobre a homossexualidade; o próximo será uma ópera pornográfica. Aqui quis fazer um espectáculo para todos, crianças incluídas: foi aí que estabeleci o limite.” De resto, diz, não se auto-censura: “Há uma tradição teatral do mau gosto, de que me sinto tão herdeiro quanto me sinto herdeiro do Claude Régy ou da Ariane Mnouchkine. Ou do Astérix, ou do Gaston Lagaffe, que também adoro. O meu teatro é uma enorme mistura de géneros. E para mim foi salutar ver como um público chique como o do Théâtre du Rond-Point reagiu às manifestações de mau gosto deste espectáculo — acho libertador.”

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Fabienne Rappeneau
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O encenador admite que parte da gramática vem da idade de ouro do cinema mudo: “Enquanto ensaiávamos fomos redescobrir os fundadores: Chaplin, Buster Keaton, Bucha & Estica, Harold Lloyd” Fabienne Rappeneau

É um instinto que também vem do passado, mas já não do passado que teve num quarto de criada, vindo de Rennes, onde nasceu em 1968. Pierre Guilllois teve de sair de Paris para descobrir, na Alsácia, que o seu lugar era o teatro popular. Primeiro em Colmar, onde, como artista associado do Atelier du Rhin, desenvolveu um projecto com os bairros pobres da cidade e vários ateliers com amadores. Depois, em Bussang, onde dirigiu outra experiência absolutamente singular, o Théâtre du Peuple, enorme construção de madeira aberta para a floresta, com mil lugares sentados, que Maurice Pottecher fundou em 1895 para retirar o teatro das mãos das elites e o devolver ao povo. “Hoje já poucos operários o frequentam, mas continua a ser suficientemente conhecido — e legitimado — pela comunidade local para que quando chega um espectáculo mais fulgurante apareçam pessoas que em França não encontras em mais sala nenhuma.” Pessoas como as que aparecem em Almada, onde Joaquim Benite quis fazer um festival de Verão à imagem dos que surgiram na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, para cicatrizar as feridas da destruição: “O Festival de Almada trouxe para aqui essa fórmula de um teatro elitista para todos. Um teatro como o que os gregos inventaram — para os cidadãos, para a cidade — e como o que Shakespeare e Molière fizeram. Só no século XIX é que a burguesia se apoderou do teatro para o usar como ferramenta de exclusão social, nas suas salas à italiana, com veludos, com camarotes”, defende Rodrigo Francisco.

Para Pierre Guillois, o teatro popular será isso — um lugar para todos, em que se misturam as classes sociais — ou não será. “Em França, apesar da longa tradição de descentralização do pós-guerra, o teatro é um fenómeno de castas extremamente fechado. É o paradoxo da magnífica história (um pouco menos magnífica nos últimos anos) do teatro francês: a aposta na excelência da dramaturgia e das linguagens cénicas acabou por segregar os públicos e por excluir os 95% da população que não se sentem suficientemente cultos para entrar.”

Talvez não em Almada, onde Pierre Guillois encontrará no Palco Grande da Escola D. António da Costa, aberto para o centro de outra cidade igualmente proletária, um teatro à medida da sua utopia pessoal.

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